sábado, 28 de dezembro de 2013

Nobreza

Não sei exatamente qual a sensação que tive, mas preciso compartilhar.
Os Jardins, talvez a região mais charmosa de São Paulo, dos restaurantes mais badalados, os imóveis mais valorizados, gente bonita, supermercado chique, alfaiate chique, tudo chique.
As mulheres são lindas, bem arrumadas; as mais maduras, digo, bem mais maduras com seus cabelos armados e brincos que ficariam grandes até nas orelhas de Buda, anéis com pedras dignas de serem levadas por eunucos em almofadas de veludo.
Os homens, paulistanos típicos da mais elevada estirpe, orgulhosos de terem seu ponto para uma cerveja nas esquinas mais ricas e nobres da capital. Usando camisas polo de marca, relógios caríssimos, o carro importado em alguma garagem próxima ou em algum local não permitido para a ralé, com alguma placa inconveniente no poste, proibindo estacionar. Olhar confiante e o aparelho nasal voltado para o céu.
Civilizado, este tipo de paulistano leva seus cães para passear portando saquinhos plásticos para o cocô necessário – melhor na rua do que em casa, claro – em coleiras ornadas e casaquinhos charmosos. Desconsidere as perpétuas manchas e o cheirinho típico do xixi nas calçadas. Creio até que pode existir pouco mais de metro quarado m que não haja urina canina, em todo o bairro.
Por ter muitas árvores, sabiás-laranjeira entoam seu canto logo nas primeiras horas da manhã, dando ao local uma atmosfera única. Alguns se incomodam: sabiás madrugadores deveriam ir para a Serra da Cantareira.
A polícia está presente mais que em qualquer outro lugar, exceto o quartel talvez. Claro que ocorre um roubo aqui, um assalto ali, mas é a melhor estatística da capital.
Diz-se que uma considerável parte do PIB brasileiro está morando ali, as mais finas grifes. A verdadeira tradução do bom gosto paulistano. E, como que dando uma cancha, vários movimentos culturais, pontos descolados, ótimos hospitais. Os melhores hotéis, grandes livrarias, a Avenida Paulista.
Paira no ar um humilde sentimento de centro do mundo, afinal.
E com toda esta nobreza, numa bela e quente tarde de novembro – um recorde de calor para os últimos anos – por volta de três da tarde, com aquele movimento que parece de uma entressafra, como que meando a hora do almoço e jantar, um terrível cheiro começa a se espalhar numa badalada esquina. Cheiro de fezes muito forte. Não aquele nosso conhecido do Tietê ou do Pinheiros, que fica insuportável após dias sem chover. Muito pior. Cheiro de merda pura, fresca e abundante.
Pessoas começaram trocando aqueles olhares do tipo quem-foi-pelo-amor-de-Deus, mas o fato é que por ser tão intenso e estar inundando a região, ficou a perplexidade e uma careta geral.
Num determinado momento, como se não bastasse à situação constrangedora, uma tampa de esgoto que fica no meio do cruzamento foi levantada por um fluxo de água marrom, tornando o ar tão intragável que parecia estar sólido e aquela sujeira toda brotando com intensidade tal que foi se espalhando para todos os lados, saindo com força suficiente para formar um jato de quase meio metro de altura.
Aquela substância meio pastosa, saindo como a lava de um vulcão, das profundezas, constante, maligna, arrastando-se para todos os lados como uma ameba que cresce rapidamente. Num determinado instante torna-se liquida, escorrendo pelo meio fio de três vertentes do cruzamento.
Um horror olfativo. Creio que nem um inglês, no auge da revolução industrial, sentiu ao lado do Tâmisa o que se sentiria ali.
Uma personagem frequentadora da fina padaria, do mercadinho dos ricos, das finas boutiques de senhoras, indignou-se, não sem passar muito mal, e foi auxiliada a sentar numa das cadeiras do bar da esquina, uma cadeira singela, de boteco, mas não menos útil no momento.
O balconista, educado e solícito, tentou pegá-la pelo braço para ajuda-la, mas foi discretamente rechaçado, fazendo ela uma cara de nojo, que já não se saberia se do cheiro ou das mãos gentis do rapaz, aquelas mãos de pobre.
Abanava-se com um leque de madrepérola, sem perceber que, ao faze-lo aumentava a intensidade do cheiro – mais moléculas em menos tempo a estimular os sensores da mucosa nasal.
Mas que horror é este, o senhor pode me dizer – perguntou a nobre velhinha ao não menos assustado e rechaçado balconista.
Sei não, senhora, mas olhe que isso aí é merda todinha daqui, fabricação de vocês, com certeza! - e retornou rapidamente para o seu local de trabalho.
À noitinha o cheiro ainda era insuportável, apesar dos vários caminhões pipa lavando as ruas atingidas.
O cheiro, ainda que menos intenso, durou mais uns dois dias, lembrando impiedosamente a todos que somos iguais. E como.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Merry Christmas

Linda, charmosa, agitada. Gentil, por não fazer diferença entre rico e pobre; cão ou gato; carro, bicicleta ou ônibus; banqueiro, bancário, camelô. A Avenida Paulista é assim, hospitaleira, agregadora, confluente.
Principalmente no Natal, com tantas luzes e cores, que encantam e hipnotizam. Os bares cheios nestas quentes tardes com a rapaziada batendo papo, tomando chope e beliscando um aperitivo qualquer, seja qual dia da semana for.
Mas à noite e no fim de semana, mais gente acorre a ela. Milhares de celulares, máquinas portáteis, semiprofissionais, profissionais, milhões de fotos que viajarão o mundo exibindo tanta gente contente, em frente aos enfeites que disputam em tamanho e beleza.
Mas, verdade é que, em determinados momentos, quem vê uma foto lá na china, não poderia jurar que aqui não é uma típica cidade americana. Um vídeo, com a gravação do som, menos ainda.
Justifico. Ao se aproximar do imenso enfeite de Natal que atravessa a avenida de lado a lado, vê-se um Papai Noel gigante, com uma roupa polar e aquela barba branca, cercado por elefante, zebra, pinguim, urso, rato gigante, alces, neve. Na avenida, onde faz trinta graus. Nem um único animal da nossa fauna. E ininterruptamente, musicas natalinas cantadas em inglês.
Não senhores, não sou Policarpo Quaresma, nem pretendo ser um arremedo dele, sequer.
Entretanto, cá entre nós, é por isso que está cada vez mais insuportável este tal de Natal. Todo mundo louco, correndo comprar, comprar, comprar, ouvindo Jingle Bell interpretada em inglês, tirando fotos com o gorduchinho simpático, pois admitamos, o que é bom para os Estados Unidos, é bom para nós, e eles são o povo mais consumista que existe.
Feliz Natal my ass! Então que seja Merry Christmas!
Enquanto isso vamos ultrapassando o sinal vermelho, pisando no acelerador para não dar passagem ao outro carro, não olhando para o vizinho no elevador para não precisar falar bom dia, não agradecendo algo que lhe tenha sido bem feito, ainda que por obrigação ou profissão, sonegando um sorriso ou um abraço, se envergonhando de declarar amor, ficando com preguiça de pegar o telefone e ligar para alguém só para dizer que está com saudade, não perguntando se está tudo bem para alguém que chora sentado no banco da praça, deixando de ser gentil, amável, carinhoso, caridoso, compreensivo, bem humorado, altruísta, humilde, atencioso.

Por favor, vamos fazer um Natal feliz. Nós temos que fazer o Natal feliz e não desejar que os outros o tenham. Tentarei a minha parte. E você?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Fim de relação

É um absurdo que eu chegue a casa e você, além de ficar furtivamente escondida, de repente se atire em mim desta forma, oferecida e vulgar, quase me matando de susto, inclusive.
Coabitamos o mesmo espaço, e eu vou levando minha vida, e você a sua, mas não consigo ficar assim, vivendo como se você não existisse, com esse seu comportamento.
Concordo que cada um tem seus limites, seus espaços. Ao longo do tempo acabei aceitando, afinal faz tanto tempo, e você foi ficando.
Entretanto você há de concordar que é folgada mesmo, pois nem teve a humildade de pedir. Simplesmente foi ficando. Chegou assim, como quem veio para ficar, na cara dura. E foi tomando espaço.
Você acha isto justo? Acha isto, sequer, possível? Desculpe-me, mas eu não.
Afinal, eu sou um homem ou sou um verme?
Entro no meu quarto, e você aí, esparramada na minha cama, como se fosse sua. Aí, quando me vê se agita toda, fazendo tipo de afobada e corre para procurar um cantinho para se esconder, como se não quisesse me atrapalhar, e voltar a passar despercebida.
Já te disse um milhão de vezes que a nossa relação é impossível.
Eu sei que um cadáver não escuta, mas ainda assim eu te falo e, quer saber? Nem culpado eu me sinto, vendo você estendida no chão.
Frio, calculista, um miserável, você deve ter pensado antes de morrer envenenada, mas pelo terror que você sentiu ao me ver, é um sinal de que você sabia que não fomos feitos um para o outro.
Isto, aliás, me traz alívio. Não! Redime toda e qualquer culpa que eu possa ter.
Eu acho que você já está morta, a despeito de suas pernas, aqui e ali terem minúsculos espasmos, como que estivessem dando os últimos acordes da sua existência.

E agora só tenho uma coisa para finalizar: morra barata nojenta!­­

sábado, 30 de novembro de 2013

Conto perverso - EPÍLOGO

“Deus meu, será que fui tão ruim assim, que meu castigo agora não tem fim? E daí que bebi tudo e mais um pouco? E daí que tive tantas mulheres? Elas é que me queriam , isto sim! Era só eu chegar e pronto, lá vinham elas.
E essa idiota da Santa, que mais parece uma tarada louca que não me dá sossego! Ai, meu Deus, leve-me de uma vez, eu te imploro!

Eu não posso enxergar, mas conheço bem o barulho que ela faz. E não sei que maldição é essa, que ele fica duro assim, quando ela vem pra perto. E como dói. Ai, meu Deus, como dói! Chega eu choro, mas não adianta  nada, porque essa burra, idiota acha que eu tô vibrando, mas eu tô é gritando de dor. Pelo amor de Deus, alguém me ajude! E quando ele fica duro e começa a queimar, essa dor queima até nas costas, e os braços e as pernas começam a ter tanta câimbra que eu choro, e essa diaba me lambe o choro achando que eu tô gozando. Gozando! Pode, meu Senhor? Gozando! Eu quero gargalhar de tanta graça que eu acho dessa idiotice, mas eu também não consigo. Eu não consigo nada. Só consigo ficar com essa coisa dura assim. E doendo. Ai, meu Deus! Amanheceu! E ela já vai acordar, vai pro banheiro, depois vem pra cá com aquele perfume, e vai começar tudo de novo. Será que se eu aprendesse a rezar, e rezasse muito, eu morreria? Será?

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Um conto perverso - PARTE III

Após saírem todos, a equipe que o trouxe e os ajudantes de última hora, ela foi até o quarto e se sentou ao lado da cama pousando seu olhar naquela figura patética: um homem em coma, de olhos abertos e que, aparentemente, não conseguia se comunicar. Às vezes emitia uns gemidos baixos, misturados com um pigarro e tosse, soltando catarro. Uma coisa era certa: não fedia como antes. Estava cheirando à urina, e o cheiro de suor era devido a todo trajeto naquela ambulância quente. “Talvez ele até tivesse ficado nervoso, sabe lá.” – comentou consigo mesma.
Preparou, ao lado do leito, um banho quente com balde, bacia e sabonete perfumado.Limpou o homem, deixou novo em folha e percebeu que se cansava mais fazendo isso que limpando duas ou três casas onde estava acostumada a trabalhar. Mas a vida era assim mesmo. O fardo, contudo, parecia menos pesado. A cruz parecia menor e mais leve. Acabaram as brigas, as raivas. Já não tinha que suportar aquele sujeito bêbado e cheirando mal sobre ela, tratando-a como um animal.
A nova rotina foi se estabelecendo e após algumas semanas ela tinha tudo acertado. Uma senhora da vizinhança ficaria com ele três vezes por semana, enquanto ela fosse fazer suas faxinas e ganhar seu dinheiro. Isto somado ao benefício do marido inválido e parte do salário do filho bastaria para que tivesse uma vida tranquila e sem surpresas. Daria o banho nele na hora em que chegasse, no fim da tarde. A comida estaria pronta de véspera. Bastava mantê-lo limpo e alimentado. Até Deivid parecia outro moço. Mais calmo e tolerante com a mãe, cooperando no que ela pedisse.
Paulo Afonso tinha vindo do hospital com uma ferida se formando nas costas, um pouco abaixo dos rins, porque permanecia muito tempo deitado de costas. Ela ia, habilmente, mudando sua posição e fazendo curativos com a pomada receitada pelo médico que o havia visitado, até que ela desapareceu.
Ele agora vivia perfumado, arrancando elogios de quem o visitasse, mas que na verdade eram dirigidos à bela mulher que dele cuidava. Seu aspecto melhorou bastante, tornando-se corado e, apesar da paralisia que o acometera, a nova dieta trouxera seu físico muito próximo do que foi um dia. As unhas perfeitamente cortadas e o cabelo impecável.
Um dia, enquanto o banhava, percebeu, e não teria como evitar, que o marido estava tendo uma ereção. Começou a rir e, conforme ria, aquilo ia ficando maior, mais duro, e o homem gemia baixinho. Continuou lavando, meio que ignorando o fato, pois precisava terminar de lavar justamente ali. Lavou, esfregou, enxaguou, esfregou de novo até que ele ejaculou e, com um gemido alto, agudo, os braços paralisados paralelamente ao corpo esboçaram um balançar débil, cíclico e foram acalmando, até que ele dormiu. Ainda abriu rapidamente os olhos, quando ela precisou enxugá-lo e cobrir seu corpo cansado.
Ela foi ao banheiro e constatou toda a sua excitação: suada, cheirando a prazer, louca para ter um orgasmo, como há uns trinta anos não tinha. Entrou sob a água gelada do chuveiro e ficou até que sentisse seu coração calmo e o calor dissipado. Ficou chocada com aquele fato inusitado, desconcertante, febril. Foi para o quarto envolvida na toalha e, ao soltá-la no chão e abrir a porta do guarda-roupas, parou para se deixar admirar o próprio corpo. De início tímida, depois foi se soltando e descobriu o que escondia com as mãos. Meio virada de costas, observou suas curvas e a falta de celulite. Seus seios ainda rijos, os longos cabelos negros caindo pelas costas.
Achou incrível aquela reação de Paulo Afonso. Ele já não era mais aquele homem de pouco tempo atrás e muito menos aquele que conhecera, quando ainda era menina. Era como se fosse um terceiro, diferente dos outros dois, quieto, apartado do mundo, somente olhando para o teto, ou então para um ponto fixo na parede, quando era colocado sentado na sala, ajudada pelo filho, mais parecendo um vegetal, com vida, mas sem comunicação.
Entretanto, constatou naquele dia que algo no homem estava vivo, viril, potente. E só dela. “Só meu...” – já na cozinha, ainda meio atônita com tantos sentimentos ambíguos e incertos, procurando de toda maneira alguma coisa que a proibisse, que a censurasse. Mas nada encontrou. Foi até a porta do quarto e ficou olhando para ele que dormia profundamente sob o lençol somente, a respiração profunda e compassada. Ali então começou vasculhar a memória para encontrar algum sentimento que a fizesse enojar-se dele novamente, como fizera durante tantos anos, contudo também lhe foi impossível.
Ainda cedo terminou o almoço, fez uma sopa forte para Paulo Afonso, com carne, abóbora, macaxeira e inhame, que ela também apreciava, e a seguir foi arrumar a casa.
O dia passava lento e sua cabeça não parava de pensar, enquanto seu corpo sentia tremores e calores, seu pensamento disperso, sem conseguir atinar o raciocínio. Teve vontade de correr à igreja e se confessar. Fez menção de pegar o terço e iniciar uma reza, porém não o fez. O que fez sim foi pegar o balde e começar a enchê-lo com a água quente do chuveiro e, até que enchesse, preparou a toalha, sabonete e creme hidratante. Levou ao quarto e o percebeu acordado. Num dia de surpresas, um terno e suave beijo na testa do marido era uma das menores.
Assim que retornou com a água do banho e lhe tirou o lençol, lá estava ele, Paulo Afonso em toda a sua força e natureza. Foi tirando sua própria roupa, vagarosamente, enquanto se lembrava de como ficava quando Mazinho a perseguia gritando e quase a tocando por trás. Uma sensação tão excitante como a de agora, que não conseguia comparar a nenhuma outra que tivesse sentido, enquanto estivera à mercê deste que estava ali na cama, no entanto tão diferente do que fora.
Gemia ele baixinho. Quanto mais rijo, mais prolongados ficavam seus gemidos, dando-lhe a sensação de que o homem gozava sem parar, num idílio sem fim.
Suando e com as mãos trêmulas, aproximou-se dele e foi tocando todas as partes do seu corpo com uma liberdade jamais sentida. Passava primeiro as pontas dos dedos e depois as mãos espalmadas em cada centímetro daquele corpo que, de certa forma, parecia mais vivo que nunca, pulsando, com pequenos tremores e espasmos descompassados. Percorreu tudo, sem deixar um único local sem ser tocado. Só então viu que conhecia pouco daquele corpo que dormia a seu lado há tanto tempo depois de praticamente forçá-la a se sentir uma escrava sem o menor direito ao prazer. Mas não conseguia ter raiva. Pensou ainda em como ele deveria se comportar com as outras, se as maltratava como a ela.
Vagarosamente foi montando sobre seu marido, cada vez mais excitada, percebendo que os olhos dele se arregalavam e ele gemia mais grosso.
Quando o colocou dentro de si, sentiu uma coisa tão forte que soltou um grito e depois silenciou, arfando, suando, esperando que algum vizinho viesse saber o que estava acontecendo. Contudo, nada disso aconteceu, e Paulo Afonso continuava ali, mais homem que nunca, e isto a deixou mais e mais excitada, conseguindo esquecidos e abandonados orgasmos por tantas vezes que perdeu as contas. Quando terminou, estava entregue, e seu homem lavado em suor, com o rosto vermelho e a boca tesa. Notou um fio de lágrimas nos cantos dos seus olhos.
Sem dizer palavra, levantou-se e foi para o banheiro, depois de abrir a janela do quarto que abrigava um cheiro forte. Tomou outro banho e desta vez mais demorado, e um sorriso tomou-lhe os lábios e não queria devolvê-los. Tanto que seu filho zombou quando chegou do trabalho:
- Ué, mãe, que foi? – perguntou com uma feição entre zombeteiro e desconfiado. – Viu o passarinho verde, é?
- Você me respeite, seu menino atrevido! Tem barba na cara, mas se precisar te dou umas palmadas! – em tom severo, porém nem tanto.
- Relaxa, mãe, que só estou perguntando!
Teve uma noite de sono agitado, alternando entre estados de arrependimento e prazer. Pensava estar cometendo pecado, mas como poderia? Tantas vezes tinha se confessado, tantas penitências tinha cumprido, e o padre jurara-lhe que estava perdoada e que bastava a eles se casarem para que tudo fosse esquecido. Entretanto, seu marido era um sujeito rude e dava pouca importância a estas futilidades, tendo evitado a igreja como o diabo à cruz. Ainda assim, o pároco garantira-lhe que tendo feito sua parte, aos olhos de Deus ela não estaria mais em pecado e que rezasse para um dia conseguir a bênção divina.
No meio da madrugada, cheia de medo e excitação, levantou-se da cama de solteiro do seu filho, que havia colocado ao lado da cama hospitalar onde estava o marido, pegou a mão dele, que imediatamente respondeu com o som que ela já conhecia. Ficou se divertindo com ele até o dia amanhecer e, quando seu filho se levantou para ir ao trabalho, ela estava saindo do banheiro, cheirando a sabonete e lavanda.
Desconfiado, perguntou o que acontecia.
- Tome tento, menino. Tua mãe não pode tomar um banho na própria casa? Tome aí seu café que você vai se atrasar. – nem deu bola a ele, voltou para a cama e acordou tarde.
E outra surpresa grande: pegou o aparelho de som do filho e se pôs a procurar uma emissora de que gostasse e deixou numa em que estava tocando as músicas de sua terra.
Pouco tempo depois, as pessoas que a conheciam mal podiam acreditar no que viam. Santa tornou-se uma mulher mais comunicativa, sem excessos, mas conversando com vizinhos, no mercado, na igreja. Passou a usar roupas mais coloridas, nada vulgar, sua casa parecia mais alegre depois da pintura nova, o que não era feito desde que mudara para lá.
Seu filho ficou enciumado no início, achando e externando a ela num momento mais exaltado que ela deveria estar com outra pessoa, mas tudo passou, ficou para trás. Ele agora iria se casar, e sua noiva era uma pessoa muito boa e carinhosa com ele. Sua filha retornara a São Paulo depois de um tempo longe, mas agora estava ali perto novamente e com dois netos para lhes encherem a casa de barulho e alegria.
Com a pensão que recebia por causa da doença de Paulo Afonso, mais o que recebia por fazer faxina nas casas de suas freguesas de tantos anos, levava uma vida farta, com tudo de que precisava.
Cuidava do marido acamado com tanto amor e desvelo, que emocionava todos ao seu redor, pois sempre estava limpo, cheirando bem, de barba feita e cabelo penteado. Sentia-se uma mulher feliz e realizada.
- Incrível! Desse jeito esse homem vai chegar aos cem anos fácil. Eu posso mandar umas famílias aqui para aprenderem com a senhora como se cuida de um acamado? – brincava o Doutor Joaquim, sempre que passava em visita a cada dois ou três meses.

Ela era feliz sim! Demais. Todos esses elogios, esse reconhecimento, ainda por cima tinha a total posse daquele corpo de macho que era só seu e de mais ninguém. Deus ouvira as suas preces. Também pudera, depois de tanta reza, promessas e penitências, a retribuição veio do céu. Amém!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um conto perverso - PARTE II

- E eu achando que tinha perdido a estrada e o dia com meu caminhão... – falou olhando fixo nos olhos da garota.
Sua mãe, que veio até a janela com o barulho, estacou preocupada com o que via.
- Que é que foi, hein, Santa?
- Nada não, mainha, só o moço aqui que tá perdido.
E quando falou, também olhando para ele, sentiu que as pernas bambearam e se apoiou na cerca de bambu pintada de branco, que separava sua casa da rua de terra.
Fugiu de casa com ele dois meses depois.
E o tempo foi passando...
Desceu do ônibus por volta de cinco e quarenta da tarde, carregando sua bolsa e duas sacolas de compras. A esta hora, já com dores nas costas e as pernas queimando, subia as três quadras a passos lentos, pensando com preguiça na casa por arrumar e janta por fazer. Seu filho Deivid decerto ainda estava por chegar, com aquele jeito barulhento, espalhafatoso e todo alegre como ela fora um dia. De sua filha mais velha tinha poucas notícias, depois que se mudara para Palmas, há uns poucos meses, com o marido transferido pela empresa onde trabalhava. Sentia muita saudade daquela que se transformara em sua grande companheira. Desde criança Luana fora muito apegada a ela. Parecida com o pai fisicamente, era do tipo longilíneo, com ombros largos, cabelos claros.
Abriu o portão da garagem e entrou pela sala. Preferia entrar pela cozinha, assim já deixaria as compras na mesa, no entanto, como os ladrões entraram uma vez por ali, foi colocada uma travessa de ferro na porta, além de grades nas janelas dos dois quartos e duas fechaduras na porta por onde entrou. Deixaram a maior bagunça e ainda levaram o que foi comprado com muito esforço. Paulo Afonso, furioso por natureza, acabou de arrebentar o que tinha sobrado. Levaram outro tempo longo para recolocar a casa em ordem. Pelo menos a casa era deles e não tinham aluguel para pagar.
Após colocar uma roupa mais à vontade, deu uma ordem no quarto do rapaz, que não era bagunceiro, facilitando sua vida, e foi para o fogão fazer a janta. Gostava de fazer sopa no jantar. Na verdade gostava mesmo era de cozinhar. Talvez fosse por isto que o marido engordara tanto desde que fugiram de Muritiba, na Bahia, há trinta anos. Além do peso que fora uma mudança, surpreendera-se também com um temperamento difícil, ciumento, possessivo que o deixava cada vez mais agressivo e indelicado. Bebia demais, não fazia companhia, chegava a casa fedendo e a obrigava a fazer as coisas que há muito tempo tinha perdido toda e qualquer vontade, passando mesmo a ter repulsa do marido.
A cada noite, quando chegava cheirando à bebida e a perfumes estranhos e enjoativos, ela acumulava seu asco e ia à igreja somente para rezar pedindo a Santo Antônio que a ouvisse e levasse Paulo Afonso a arrumar outra mulher que o suportasse. Ela mesma se sentia incapaz de mudar a situação.
A culpa por ter deixado a casa dos pais sem o seu consentimento, fugindo em pecado, sem casamento a transformara numa mulher amargurada, cheia de medos e inseguranças. Só teve noção do tamanho de suas tristezas, quando numa festa de São João, no Largo do Forró, no bairro de São Miguel Paulista, encontrara ninguém menos que Mazinho carregando um lindo menino nos ombros, felizes da vida. Apesar de já fazer um tempo, mantinha a cena viva na memória e a dor pujante no peito.
Surpresos, os dois deram-se de frente, no meio do público e quase trombaram, já que ele vinha cantarolando e olhando para cima, como que a pedir que o garoto o acompanhasse na cantoria, e ela, conduzindo o casal de filhos pelas mãos.
Sem graça, ela olhou para ele, que imediatamente assumiu uma feição carrancuda de ódio, e falou para os filhos de um jeito muito tímido e inseguro:
- Meninos, este é um amigo de infância da mãe.
- Amigo? – perguntou Mazinho em voz alta, incisivo. Não fez mais do que se virar de costas e ir embora como veio.
- Amigo, mãe? Que amigo? – perguntou Deivid, olhando para ela.
- Deixe para lá, filho, acho que mãe se enganou. Vamos embora, vamos.
Naquele dia, o trajeto do ônibus parecia muitas vezes mais longo. Ficou estarrecida demais com a reação do homem que um dia fora seu amigo e só então percebeu o mal que tinha feito a ele e talvez a si própria. Fez de tudo para segurar o choro, todavia quando teve a oportunidade desabou na cama e chorou tanto que dormiu exausta nem vendo o marido chegar. Constatou que estava mesmo ali, longe de onde fugira pela manhã, quando acordou e se levantou para fazer o café sentindo o cheiro forte de bebida no quarto, sem contar o chulé e o cheiro de suor.
Há tempos tinha esquecido de como era humilhante sua situação, e o encontro com aquele homem na noite passada, deixara-a aos trapos. Enquanto ele tinha se mostrado um homem bonito, alinhado, forte e com um semblante de calma, o outro, ali deitado como uma capivara gigante, roncando e fedendo. Não podia imaginar como Paulo Afonso conseguia sobreviver no seu emprego. “Acho que é porque ninguém sabe como ele é” – pensou em voz alta - “será que ninguém sente o cheiro?”
Depois desta vez, o sentimento de culpa em relação aos pais, a saudade da casa deles, dos irmãos, do cheiro da relva sob o ingazeiro, somaram-se à sua conhecida infelicidade, endurecendo de vez qualquer traço de alegria que pudesse ter.
E o tempo foi passando, como a água de um rio calmo, bem devagar, e a falta de perspectiva já nem a assolava tanto. Sua atitude resignada de pecadora em penitência dava suporte para que mantivesse uma atitude frente aos filhos e sua casa.
Pediu tanto a Santo Expedito, cuja igreja fica no Bom Retiro, que um dia achou que tivesse sido atendida, pois ligaram do Hospital São Paulo dizendo que Paulo Afonso estava no Pronto-Socorro entre a vida e a morte. De início teve um choque, e a primeira coisa em que pensou foi na falta de dinheiro, nos filhos, esquecendo-se de seu trabalho como diarista e do seu filho, que também estava empregado.
Chegou ao Pronto-Socorro e se deparou com um homem deitado sobre uma maca. Tão grande era que tinha os pés para fora e, por ser tão gordo, parecia que ia escorregar pelos lados dela. Não atendia aos chamados, nem se o estapeasse. Mal piscava os olhos. Parecia roncar acordado, além de ficar imóvel o tempo todo.
Ela e o filho esperaram mais de três horas até que o médico viesse:
- Ele teve um derrame grave e estamos esperando uma vaga de UTI para ele. – falou o doutor, de um jeito educado e acolhedor.
- E como será que ele vai ficar, doutor? Ele tem chance? – Santa parecia meio passada.
- Só o tempo, senhora. Nós vamos fazer o melhor, mas temos que esperar para ver como ele vai reagir, porque a situação é muito delicada. – pediu licença e saiu.
Ficaram os dois, Santa e Deivid, olhando para aquele corpo sobre a maca, sem saber mais o que falar.
Depois de quase dois meses e uns vinte quilos mais magro, recebeu alta e chegou em casa de ambulância. Ela recebeu da prefeitura uma cama hospitalar para poder acomodar Paulo Afonso e teve a promessa de que, quando ele chegasse em casa, seria visitado por um médico e uma enfermeira. Foi difícil levá-lo até a cama, e os homens da ambulância contaram com voluntários da vizinhança. Ela não sabia o que pensar.
Durante o tempo que antecedeu sua vinda, a casa ficara até um pouco mais alegre, organizada, com ar mais leve, cheirosa, com astral diferente. A poltrona sebenta, onde ele se sentava sem camisa foi lavada e até parecia de outra cor. Além do sebo e do suor, seus cantos e frestas das almofadas foram se acumulando farelos e restos de comida, até que a partir de um dia Santa se recusara a ficar limpando – “Vai sujar mesmo... Porco tem que ficar no chiqueiro.” concluiu.

Santa tinha a atitude de sempre, o mesmo mau humor e a mesma atitude retraída. Ia à igreja regularmente, mas pouco ou quase nada falava com estranhos. Apesar dos seus quase quarenta e sete anos, conservava um corpo invejável, torneado e com as ancas largas, que ainda arrancavam suspiros por onde passasse, no entanto isso já era coisa morta para ela, e quando se olhava no espelho, pouco observava sua beleza. No máximo seria: “E daí? Tudo isto pra quê?” – o que era dito com desprezo e rancor.

Um conto perverso - PARTE I

Toda vez que descia correndo aquela ladeira atrás da igreja para ver se conseguia chegar primeiro que Mazinho em casa, ela acabava quase batendo na janela da casa de Dona Glória, daquelas que fica praticamente no meio da rua, pois a calçada era bem estreita, não tinha recuo, e se abrissem a janela com força, poderiam acertar a cabeça de alguém. E no embalo que vinha, passava raspando pelo canto da casa de esquina. Caso estivesse na janela conferindo o movimento, Glória gritava:
-Eita, menina! Que ainda um dia você se arrebenta toda pelo chão!
Com esse grito, sentia algo como quem tivesse tomado um fortificante poderoso e disparava pela ruela plana até chegar perto do rio e virar à direita, passar embaixo do ingá, onde havia uma trilha estreita, de caber os pés somente, linda, com a relva verde emoldurando-a e um cheiro forte de mato.
Não tinha jeito. Ele sempre chegava primeiro. Competiam sempre na saída da escola. Eram vizinhos, então a chegada era bem na cerca que dividia os terrenos. E mesmo que ela escolhesse vir por outro caminho, perdia a corrida e tinha que capitular àquele sorriso largo e sincero, enquanto se entreolhavam de um jeito gostoso. O máximo que acontecia a seguir era uma despedida tímida, um aceno, um ”até” sufocado na garganta. Então ela entrava, e a mãe reclamava de alguma coisa, uma dor, um fastio, a calça rasgada do irmão.
Pendurava na parede do quarto minúsculo que dividia com os dois irmãos mais velhos, Raimundo e Cícero, o embornal de brim feito em casa, onde levava seus cadernos. O primeiro nome foi dado em homenagem a Raimundo Nonato, e o segundo, claro, a Padre Cícero. Casa de católicos, pois não?
Mais nova que eles, sempre aceitou com simpatia e desprendimento as duas duras verdades a que fora submetida: irmã mais nova e mulher. Filha de uma mulher submissa, cresceu acostumada a ter que agradar o homem na sua plenitude, tendo ficado a parte da mulher mais adulta para depois do seu casamento, aos dezesseis anos. Até então, aprendera tudo que fosse preciso para fazer um homem feliz, desde o chão da casa limpo ao lençol cheirando a alecrim. Mesmo que fosse um tanto primitivo, como era o pai, que pouco falava e vivia de cara amarrada. Parecia mais um macaco, coisa assim. Sua fala era povoada de sons guturais, monossilábicos, sussurrados. As conversas ali aconteciam até que ele pusesse os pés em casa, para então todos assumirem uma postura resignada de silêncio, esperando para atender às solicitações do chefe da casa. Falava um pouco mais quando bebia, mas ainda assim quase perderia para um mudo.Sua mãe conhecia falando bastante, baixinho e rápido. Olhar ligeiro e riso tímido. Quando falava, franzia o cenho, parecendo que fosse chorar.
Com onze para doze anos, quando ficou mocinha quase morreu de susto, pois acordou pela manhã com a sensação de ter urinado na cama, mas se viu lavada de sangue. Chamou a mãe aos berros, apavorada, e ao vê-la, acariciou seus longos cabelos negros, e sorrindo disse:
- Agora tu já é mocinha, minha filha. Vai se lavar que eu vou te arrumar o pano.
E só então percebeu que tinha uma dor fina no pé da barriga, que ia durar uns dias, segundo a mãe, porém ia voltar só no outro mês. A esta altura, suas roupas iam ficando apertadas, tanto nas ancas quanto no peito, de um jeito que a deixava sem graça, porque seus irmãos não perdiam a oportunidade de fazer gozação com ela. Mesmo com isto, percebia que os homens sempre elogiavam seu corpo, seu sorriso amplo com dentes perfeitos.
Começou a acordar no meio da noite com sensações indecifráveis, uma aflição, uma gastura que dava nas partes íntimas, fazendo-a ficar triste e perdida. Tinha vergonha da mãe. Falasse com ela, poderia passar por doida ou coisa assim.
As corridas da escola até a casa ainda persistiam, só que Mazinho preferia sempre deixá-la chegar na frente. Eles passavam muito tempo juntos, e suas mães já traçavam planos futuros, tanto ali, por cima da cerca, enquanto penduravam a roupa no varal, como quando voltavam da igreja, aos domingos. Ela sentia por ele um carinho muito grande, e eram bons amigos.

Tudo ia assim, tranquilo e sem surpresas, até que um dia surgiu aquele homem numa carreta vermelha enorme e que havia se perdido pelas estradas do interior. Parou defronte à casa de Santa, quando a viu no portão com o sol do fim de tarde que lhe acentuava o tom moreno da pele, destacando seus lábios vermelhos e carnudos. Por um instante Paulo Afonso ficou hipnotizado, mas tão logo se recobrou, saltou da cabine como a rapidez de um raio chegando perto dela, a ponto de sentir seu hálito, fazendo-a recuar, envergonhada.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Chuva

- Poxa, meu, vou chegar atrasado. – esta frase ele falou em voz alta, chamando a atenção de quem estava na calçada. Então continuou conversando consigo em pensamento: “Que mancada. Eu nem imaginava que ela fosse aceitar meu convite e agora essa: estou atrasado. Era só o que me faltava. E estou longe ainda. Imagine... É só subir a Brigadeiro inteirinha e ainda ter que chegar ao boteco. Tô ferrado, só isso. É muito azar, meu! Não é possível! Aí teve a história do celular. Quem imaginaria que ele iria cair na poça d’água. Eu sou um desastrado do caramba. Meu Deus, e como!. Vou pegar o celular e ele caiu bem dentro da fossa! Como um mergulho olímpico. Acertou bem no meio dela e eu fiquei com aquela cara de tonto olhando. Mergulhou inteirinho. Vontade de chutar ele lá no outro lado da rua. Mas tem o lance de você deixar secando por uns três dias e ele voltar a funcionar. É... só que daqui a três dias, seu ridículo, e claro que se fosse querer ligar deste aparelho ela já teria ido embora do bar há pelo menos setenta e uma horas e quarenta minutos. E você não tem o numero dela porque está no celular que acabou de morrer afogado. Parece piada. Eu sou uma piada. De mal gosto. Pra completar, quando você foi pegar o aparelho, com a raiva que estava, não viu que a poça era um buraco bem mais fundo e que ele estava na beirada, e, claro, você enfiou o pé até o joelho na poça, seu tênis ficou preso no fundo e sua blusa nova, de manga comprida, agora tem uma das mangas cor de barro. Um pequeno inventário, aliás: molhado feito um pinto que saiu do ovo, um tênis branco e o outro cor ocre – do barro – uma manga da camisa na cor do tênis. Daqui a pouco vão começar a te dar esmola ou vão chamar a polícia. E ela é tão demais; você ficou um tempão criando coragem pra falar. Aliás, levou tanto tempo que foi ela quem fez o convite, né? E agora nesta situação. Dá vontade de chorar mesmo. E se eu voltar pra casa e mandar um e-mail? Também é mal, porque você já está muito atrasado. Aí todas as suas chances vão para o buraco. Que coisa! Imagine a cara dela quando eu aparecer neste estado? Não tem nem o que explicar. Pareço um daqueles malucos de um hospício que fica no pátio na hora da chuva fazendo troça com a enfermagem e as visitas. Sem chance, meu. Ela vai me olhar e cair na gargalhada. Que vergonha. Vontade de sumir. Mas você é um homem ou um verme? Fale logo? Tem que ir lá e enfrentar. E essa subida é boa porque me deixa suado, mais ainda, e o desodorante vai sendo diluído. Um trapo fedido. Hoje está demais! Vai ser ótimo. Sem falar que ela, além de rir da tua cara, vai contar pra todo mundo. Bom. Isso eu acho que não, porque ela é gente boa. Mas vai rir muito da tua cara. Ai, meu Deus, que sina! Eu devia era virar um monge, fazer voto de castidade, qualquer coisa assim, mas não! Fico insistindo nisso de me amarrar em alguém. Também espere um pouco, que ela é demais. Então iria ficar pior: eu ia ser um monge que iria trair a batina e a igreja, porque eu seria tonto do mesmo jeito, só que de vestido de padre. Quarenta minutos. Ela vai me matar. Bom, ela nem deve mais estar lá me esperando. Assim, meio de semana, nove e meia da noite, levando um cano daqueles. Deve estar se sentindo o máximo esperando há tanto tempo. Imagine só. Só xingando mesmo. Ai, ai, o bar é ali naquela esquina. Meu Deus, olhe o seu estado. Não vão deixar você entrar no bar, só isso.”
Entrou no local bastante acanhado e percebeu que os garçons olharam meio incrédulos, meio indignados, que o fizeram esperar por ser barrado. Fez uma ronda por todo o ambiente e nada da garota.
“Que merda! Foi embora. Não sei se dou graças a Deus ou se choro.” – saiu desiludido e tomou o rumo de casa.
Uma hora antes, quando estava na Avenida Paulista, quase chegando à Brigadeiro, mandou um e-mail do celular: “E aí, tudo bem? Espero que não fique triste comigo, pois não vou conseguir chegar a tempo. Minha mãe me ligou e pediu para ir com ela ao médico e não tive como recusar. Tentei falar com você várias vezes e só deu caixa postal. A gente combina outra, tudo bem? Beijo”.
Colocou o celular na bolsa e foi para o ponto de ônibus.
“Imagine que vou deixar ele me ver desse jeito, com o cabelo todo espetado por causa desse tempo maldito! Nem morta, meu bem, nem morta! É só o tempo virar e fica essa coisa horrorosa! Tudo bem que fui eu que o convidei para sair, né? Mas mãe doente dá perdão fácil.”

domingo, 24 de novembro de 2013

Subir

Chegou ao início da subida já bem aquecido e naquele dia estava determinado a subir tudo. Fosse parando algumas vezes, três, no máximo, mas iria subir de qualquer forma.
Eram seis quilômetros de subida e a altitude desta, uns quinhentos metros, o que significava subidas de inclinação muito acentuada.
Com a temperatura agradável, apesar do ar seco, iniciou o primeiro ataque, que seria um trajeto mais ameno de quase três quilômetros, mas onde já era possível prever o que haveria pela frente.
Tinha tentado outras duas vezes, sem sucesso, de modos que conhecia o trajeto e tinha noção dos momentos mais críticos.
Com vinte e sete marchas, procurou deixar as mais leves para utilizar o mais próximo possível do fim, quando estaria extenuado. Uma tática útil para quem quer se poupar.
Sempre que você começa a pedalar numa subida, precisa ter noção do tamanho dela, já que o seu físico não é aquele de trinta anos atrás, quando não importava quanto ou como, pois havia energia de sobra. Precisa empregar uma força tal que não te leve à estafa, assim como não pedalar lento demais, pois isto também faz com que se canse mais rapidamente.
O início é mais doloroso e os músculos anteriores da coxa começam a queimar, avisando que é preciso utilizar mais as panturrilhas, puxando os pedais com a mesma força com que se os preme. O suor já vai escorrendo pela fronte e na nuca. Um fio se desprende por trás da orelha e desce lentamente pelo pescoço.
A mata é densa e sempre tem um pássaro cantando aqui e ali e não raro dá para ouvir o súbito barulho de algum animal que sai em disparada por entre a vegetação. Isto ajuda a distrair um pouco, pois o automático está ligado, um-dois-um-dois-um-dois-um-dois. Às vezes a roda passa sobre cascalhos e dá uma patinada, afetando o rendimento da pedalada e o equilíbrio. É muito importante não perder o equilíbrio nesta hora por que se for preciso colocar os pés no chão num lugar muito inclinado, para retomar a marcha é complicado: seus músculos estão fervendo, a amplitude da pedalada é reduzida – como se três pedaladas para um giro do pneu – resultando em você não conseguir andar de novo.
À medida que a subida progride a concentração torna-se vital, incentivando a si próprio a puxar o ar compassada e profundamente, apesar do coração disparado parecer que vai sair pela boca.
Por sorte há trechos em que a terra não está tão seca e, sem cascalhos, é possível ficar em pé na bicicleta, usar outros músculos e também o peso do próprio corpo para impulsionar o pedal. Querer ficar em pé em lugares diferentes deste é pedir para patinar e cair.
E ganhar o chão era a ultima coisa em que ele pensava no meio daquele suor todo e daquela batucada cardíaca na cabeça. Tentava pensar mais alto que as batidas: “vai que dá”, “vai que dá”, “a igrejinha está chegando”! “Vai”, “vai”, “vai”, “vai”, “vai!”.
Existem pontos de curvas, em que a inclinação parece acentuar, a à medida em que se pedala, com olhar fixo no chão, mas num ponto adiante de onde se está, parece que a desânimo quer te pegar, mas tem algum lugar extra no seu pulmão que pode ir um pouco a mais de oxigênio e aquele músculo ali que estava doendo agora pouco parece ter melhorado, e aquela flor cor-de-abobora pendurada na cerca é linda, e vai, vai, vai, vai.
A igrejinha, graças a Deus!
Não se deve parar de imediato, pelo menos era seu jeito de abrandar a adrenalina. Ficava no plano, pedalando em círculos, até que a frequência cardíaca amainasse o suficiente para conseguir beber a água sem engasgar.
- Três quilômetros, já foram três. A metade. Falta pouco – disse para si, otimista, sabedor de que o mais difícil estava por vir.
Teria que ser uma arrancada que o levasse uns mil e quinhentos metros adiante e sabia-se quanto acima, com inclinação para bode montês. Então daria mais uma parada, a última antes do topo e da vitória.
Ficou mais otimista ao perceber sua recuperação rápida.
Na ultima tentativa fora um desastre e  o sabia desde a hora em que saiu de casa, mas hoje estava indo bem.
- E pare de pensar no que já era, meu! – bradou para si, enquanto subia na magrela.
A retomada naquele ponto já lhe colocava num desafio, pois que a subida e a curva para a esquerda eram muito acentuadas, com fino cascalho no chão. A cada giro do pedal, quase um terço dele era perdido pelo escape da roda e não se afobar era tudo naquele momento.
O sol mais alto, quente, era disfarçado pela brisa perene naquela altitude e naquele ponto logo mais acima, seria possível avistar a cidade, ainda que por alguns instantes, então nada melhor que focar nisto para conseguir progredir mais uns metros.
- Vai, sobe, vamos ver a cidade, vai, vai.
A cada fincada de pé no pedal, com a bicicleta avançando alguns centímetros – estamos falando de um lugar muito inclinado e de velocidade média de cinco quilômetros por hora, um metro a cada três segundos ou ainda vinte metros a cada minuto. Resumindo, quase nada.
É preciso ainda manter a coluna ereta, ainda que inclinada para frente para auxiliar a força e cada pequena oportunidade de se pedalar em pé tem que ser aproveitada com toda alegria.
Isto mesmo, alegria. Sem ela não dá para subir. É não tirar os olhos da parte mais alta à sua frente e ficar feliz a cada centímetro adiante.
Chega um ponto do cansaço em que ele parece estabilizar e passa-se a ter noção clara de que pior não vai ficar desde que se tome conta da fadiga, de não ir além do que está sendo exigido. Foco puro na chegada sem pressa: “assim dá, assim vai dar, assim vai dar, está chegando, assim vai dar”.
Existia um ponto crítico no caminho – pelo menos eleito por ele, que subia num ritmo cadenciado e no limite do seu esforço – um lugar que poderia ser chamado de tiro de misericórdia e que se por ele se passasse, a linha de chegada estaria perto da conquista.
E qual não foi a sua surpresa – aliás, quase perdeu o passo e o compasso – ao perceber que já o visualizava, o que significava que não tinha feito a segunda parada. Suas pernas ainda estavam inteiras e o coração estava naquele bate-bate forte, mas sem querer mais pular peito afora e a boca não estava insuportavelmente seca, só não dando para engolir.
Teve um momento de dúvida: “preciso parar neste ponto difícil de retomar o embalo, ou, apesar da sede e da fadiga devo seguir e chegar logo lá em cima, pelo amor de Deus?”.
Levou alguns segundos, que significaram mais alguns metros, e mais outros, e outros ainda, e olha ele ali, já tendo vencido o primeiro terço da tal reta mais inclinada do trajeto. Uns trezentos metros de pura reta, inclinada como uma tendência política radical, como a Ladeira Porto Geral.
- É muito inclinada, pô! – gritou para o nada naquelas alturas.
A dor nas panturrilhas tinha diminuído e as coxas queimando já não eram novidade. O que estava mais atrapalhando agora era o cérebro. As ideias começam a se misturar e aquele ímpeto de manter o foco vai relaxando e agora o olhar também se dirige para trás, como se procurasse incentivo naquilo que já passou: “olha só o quanto você já subiu! Tá brincando que vai querer parar agora? Mas ainda falta muito. Acho que não vai dar... Olhe para cima! Para cima, ouviu! Olhe, vamos! Para cima! Não pare!”.
A visão parece ter menos alcance e a bicicleta mais lenta. As costas estão ardendo, mas não é do sol: são os músculos. Parecem ser um depósito de ácido. O suor já não se sente. Só o geladinho da brisa batendo na pele molhada, mas o efeito é quase zero.
- Vai... vai... vai... – falando com a voz bem cansada, da fadiga, levantando mais os olhos que a cabeça.
É uma hora difícil, em que a razão parece ir se despedindo e a ideia fixa de parar quer tomar conta de tudo, te convencendo que, de fato, nada mais resta a não ser parar. Entretanto parar significa desistir e é inacreditável como esta palavra tem o efeito de provocar um movimento interno de busca das causas impossíveis ou o que seja.
Subitamente o barulho dos pneus nos pedriscos parece ficar mais alto e a sua mente, como que retornando à estrada, tomou consciência do tempo espaço e o folego se renovou o bastante para fazê-lo olhar à frente e acima, no ponto em que a terra da estrada anuncia seu fim e você chega à pedra.
Sim, senhor, a Pedra Grande. Ali. A uns poucos metros.
E ali a câimbra cobra, as coxas queimando cobram, as costas cobram, mas ele ri, sem folego, e grita – um grito tímido, pelo folego curto – como se tivesse cruzado a linha de chegada de um campeonato mundial.
Pedalou até o ponto em que podia enxergar todo o vale e a cidade no seu esplendor. O suor inundava o seu rosto alegre e sem ar. o coração já tinha saído pela boca e devia estar rolando pedra abaixo. O sorriso quase roxo:


- A descida vai ser demais.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Só uma lâmpada

Era duro reconhecer, mas a escada já estava um pouco pesada para ele. Ninguém precisava ficar sabendo disto, mas o esforço era considerável. Ainda mais que ela seria devolvida ao seu lugar, naqueles ganchos altos sob a água furtada. A outra, de alumínio, nem chegaria perto da lâmpada queimada. Uma inútil mais leve, isso sim.
Tudo bem, nada de pedir para ninguém também. Todos tinham muitas coisas para fazer e não tinham que perder tempo com uma bobagem destas.
Com calma – não tinha alternativa – e muita manha, levou-a para dentro de casa até a sala de visitas, onde habitava a queimada lâmpada em questão. Nada menos que a uns três e meio a quatro metros do chão. Colocou a escada bem embaixo dela, tendo dispendido uma força extra para colocá-la nesta posição.
Olhou para cima, não se lembrando de quando tinha sido a última vez que subira tão alto e sorriu para si, desafiando-se a responder se, afinal, apesar de octogenário, não seria capaz de trocar uma simples lâmpada – a quatro metros do chão.
Subiu vagarosamente, com a lâmpada nova no bolso direito e pensou que não era uma boa tática, pois retiraria a queimada com a direita, então a nova teria que estar no bolso esquerdo. Parou durante a subida, já a sete degraus do chão e fez a troca. Olhou para cima e continuou. Ao atingir o último degrau com a mão, percebeu que a lâmpada estava um pouco mais alta do que havia imaginado e só conseguiria trocá-la se ficasse em pé sobre os dois últimos, que acima deles somente aquela haste de ferro, que tem um gancho numa das extremidades para se pendurar uma lata ou uma ferramenta. Subiu mais dois, ficando com meio corpo livre, mas ainda faltava quase um braços para chegar lá.
Não quis olhar para baixo, pressentindo a tontura. Venceu o medo e avançou mais um. Estava quase lá. Olhou para os pés evitando a todo custo permitir que o seu cérebro lhe desse a posição espacial exata de onde estava – o que os olhos não veem – e viu que os joelhos já estavam na altura do último.
Fez a conta: subo mais um direto com a mão direita na lâmpada queimada. Tiro a lâmpada, coloco no bolso direito e pego a outra, sempre olhando para cima e pronto.
Deu a volta com um pé no degrau do lado oposto, ficando com a escada toda entre suas pernas e fez um movimento lento e determinado de subida até seu alvo. Pegou-a. Sentiu um forte alívio. Desenroscou-a e neste átimo de tempo, quando ela se soltou do bocal, ele sentiu seu corpo solto no ar: o único apoio eram seus pés, que já estavam doídos e começando a tremer nos tornozelos. Imediatamente embocou a lâmpada no bocal novamente e ficou ali paralisado.
Vontade de rir e de chorar. A primeira por se achar um palhaço mesmo e a segunda por ser um velho, com limitações. Estas reflexões duraram minutos suficientes para sentir o braço começar a doer também. E a tremer também. Analisou sua situação: a mão direita sustentando seu equilíbrio no bocal, seu braço esquerdo solto, sem utilidade nenhuma, pois não havia o que segurar e suas pernas ficando cada vez mais cansadas. Nem pensava em olhar para baixo e abaixar-se para segurar-se na escada estava fora de cogitação. Naquela idade já não suava muito, mas sentiu um cheiro forte desprendendo de sua pele e começou a achar que estava em grandes apuros. A vontade de chorar foi ficando maior que a de rir, ou seja, o pânico avizinhou.
Estava no meio da tarde ainda e ninguém apareceria para ajuda-lo, com certeza.
O medo foi aumentando e a possibilidade de se machucar e sentir dor fazia se sentir muito humilhado e por último, para completar, aquela vontade de urinar. Na verdade a bexiga estava cheia mesmo. Doendo.
Se tinha rezado umas poucas vezes durante a vida toda, aquela foi uma ocasião para zerar suas dívidas com o divino, já que estava mesmo suplicando por um milagre.
Nisto, ouviu um pássaro voando dentro da sala com grande alvoroço, procurando a saída. Fazia um grande alarde, com as asas batendo nas paredes e emitindo sons de desespero. Não conseguia ver qual seria o intruso, mas era grande, um bem-te-vi talvez, e foi neste momento em que o incauto pássaro bateu contra suas costas e o susto foi tão grande que ele se soltou daquele tênue apoio quase sem perceber, tão rápida que foi a situação e quando percebeu, estava agachado nos últimos degraus, agarrado à haste de ferro.
E começou a rir muito, de não se aguentar, e o pássaro conseguiu saiu pela janela, rápido como entrou.
Quando desceu, constatou que a lâmpada nova ainda estava no bolso.
- Essa fica para outro dia – falou, indo para o seu quarto tirar uma soneca porque estava cansado demais.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dúvidas

- De verdade mesmo? Bem, acho que nunca. Se for mesmo para confirmar, tipo sim-ou-não, então é não. Mas é que só vontade não vale, né? Bem que poderia. Enfim. Então eu acho que é não. Mas também não é tipo cem por cento, sabe? Aquela coisa, tipo, sei lá, entende? Nossa! Você às vezes me confunde. Tudo bem, tudo bem, você nem perguntou nada, eu já sei. É que conheço seu jeito, então eu acho que é isso que está pensando. Viu só como eu sei? Agora, sobre aquela outra coisa de ter vontade ou necessidade, quem sabe, como você falou, talvez até uma coisa tipo compulsão – acho meio exagerado, sei lá – eu acho que é meio difícil eu te dar uma posição assim fechada porque eu ainda meio que não digeri essa coisa ainda, sabe? Então, aí fica complicado eu querer concluir algo que não foi digerido ainda, mas tipo, assim que eu concluir eu te falo, lógico. Eu estou naquela fase de dar uma repaginada na minha vida, relendo meus momentos mais profundos, tipo assim, com aquele significado especial, que possam ter feito algum estrago no meu ego, que já não é lá aquelas coisas, né? Não faz essa cara, poxa! Espere eu concluir, por favor! Você nem espera e já vai falando, quer dizer, fazendo essas caras. Tudo bem! Nem precisa falar, vá. Eu te conheço mesmo e sei perfeitamente o que está querendo dizer, nem precisa abrir a boca. Do mesmo jeito que eu sei que falo um pouco demais, tipo verborragia e tal, mas é que eu sou assim e pronto. Pelo menos nisso eu tenho certeza absoluta. Falo demais, penso demais. Quer dizer, acho que falo, não sei. Até as pessoas às vezes ficam um pouco impacientes comigo, tipo fala-logo-que-já-to-saindo, sabe como é? Então. Às vezes rola algo assim, entende. Eu sei que você sabe também. Aliás, você sabe tudo, que saco! E não faz essa cara de novo. Sorte sua que nem estou na TPM, né? Então. O que eu estava falando mesmo? Nem eu sei... Ah, a coisa da verborragia. Isto não me chateia, sabe? O que me chateia mesmo é essa coisa do tempo voar e eu nem perceber que ele passou. E agora você me aponta o relógio com esta cara de cínico? E eu te pago pra isto? Não vai dizer uma palavra sequer? Uma só, por favor, vá. 
- Tchau.
- Ás vezes eu te acho um traste, sabia? – ato contínuo, levantou-se do divã e foi embora, deixando o dinheiro da sessão sobre a mesa do consultório.