terça-feira, 19 de novembro de 2013

Banal

Aquele garoto ali, sentado no meio fio, olhando para tudo e para lugar nenhum. Segura com a ponta dos dedinhos magros um saquinho de plástico com algumas balas dentro e parece que tamborila a embalagem, aguardando o tempo passar e o semáforo fechar novamente.
Usa uma camiseta clara, encardida, um short escuro e chinelos de vão de dedos sem cor. Ele olha ao redor e parece ter encontrado seu amigo, do outro lado da rua, jogando futebol com algo que arremeda uma bola. Ele dá dribles, corre aos pulinhos como um pardal.
O que está sentado leva uma feição cansada consigo, de desânimo, de falta de esperança, que combina com sua magreza, da fome crônica, porque a fome aguda dá uma cara diferente, agressiva, de urgência, de desvario.
O sinal fecha e o de lá pega seus saquinhos de doces e sai pendurando nos espelhos retrovisores dos carros, esperando que alguém compre.
O outro continua sentado, sem expressão e tamborilando. Olha para o chão, fala sozinho, remexe a areia suja no meio fio.
Percebendo seu estado, seu parceiro atravessa correndo, no meio dos carros, causando um furor momentâneo, próprio do paulistano – compenetrado, apressado, ocupadíssimo – e ao se aproximar, ele o pega pelos ombros, chacoalha, balança e acaba gritando para um terceiro, que vejo sair do portão da casa abandonada. Vem com alguma coisa nas mãos, e entrega ao garoto imóvel, ou quase, porque ele pega e traga. Ato contínuo ele arregala os olhos e fica em pé num salto. Quer sair vendendo suas coisas com o trânsito em movimento, um sorriso estranho nos lábios e os outros dois o seguram achando graça.

O sinal fecha, os garotos o liberam e a vida continua.

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