segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Chuva

- Poxa, meu, vou chegar atrasado. – esta frase ele falou em voz alta, chamando a atenção de quem estava na calçada. Então continuou conversando consigo em pensamento: “Que mancada. Eu nem imaginava que ela fosse aceitar meu convite e agora essa: estou atrasado. Era só o que me faltava. E estou longe ainda. Imagine... É só subir a Brigadeiro inteirinha e ainda ter que chegar ao boteco. Tô ferrado, só isso. É muito azar, meu! Não é possível! Aí teve a história do celular. Quem imaginaria que ele iria cair na poça d’água. Eu sou um desastrado do caramba. Meu Deus, e como!. Vou pegar o celular e ele caiu bem dentro da fossa! Como um mergulho olímpico. Acertou bem no meio dela e eu fiquei com aquela cara de tonto olhando. Mergulhou inteirinho. Vontade de chutar ele lá no outro lado da rua. Mas tem o lance de você deixar secando por uns três dias e ele voltar a funcionar. É... só que daqui a três dias, seu ridículo, e claro que se fosse querer ligar deste aparelho ela já teria ido embora do bar há pelo menos setenta e uma horas e quarenta minutos. E você não tem o numero dela porque está no celular que acabou de morrer afogado. Parece piada. Eu sou uma piada. De mal gosto. Pra completar, quando você foi pegar o aparelho, com a raiva que estava, não viu que a poça era um buraco bem mais fundo e que ele estava na beirada, e, claro, você enfiou o pé até o joelho na poça, seu tênis ficou preso no fundo e sua blusa nova, de manga comprida, agora tem uma das mangas cor de barro. Um pequeno inventário, aliás: molhado feito um pinto que saiu do ovo, um tênis branco e o outro cor ocre – do barro – uma manga da camisa na cor do tênis. Daqui a pouco vão começar a te dar esmola ou vão chamar a polícia. E ela é tão demais; você ficou um tempão criando coragem pra falar. Aliás, levou tanto tempo que foi ela quem fez o convite, né? E agora nesta situação. Dá vontade de chorar mesmo. E se eu voltar pra casa e mandar um e-mail? Também é mal, porque você já está muito atrasado. Aí todas as suas chances vão para o buraco. Que coisa! Imagine a cara dela quando eu aparecer neste estado? Não tem nem o que explicar. Pareço um daqueles malucos de um hospício que fica no pátio na hora da chuva fazendo troça com a enfermagem e as visitas. Sem chance, meu. Ela vai me olhar e cair na gargalhada. Que vergonha. Vontade de sumir. Mas você é um homem ou um verme? Fale logo? Tem que ir lá e enfrentar. E essa subida é boa porque me deixa suado, mais ainda, e o desodorante vai sendo diluído. Um trapo fedido. Hoje está demais! Vai ser ótimo. Sem falar que ela, além de rir da tua cara, vai contar pra todo mundo. Bom. Isso eu acho que não, porque ela é gente boa. Mas vai rir muito da tua cara. Ai, meu Deus, que sina! Eu devia era virar um monge, fazer voto de castidade, qualquer coisa assim, mas não! Fico insistindo nisso de me amarrar em alguém. Também espere um pouco, que ela é demais. Então iria ficar pior: eu ia ser um monge que iria trair a batina e a igreja, porque eu seria tonto do mesmo jeito, só que de vestido de padre. Quarenta minutos. Ela vai me matar. Bom, ela nem deve mais estar lá me esperando. Assim, meio de semana, nove e meia da noite, levando um cano daqueles. Deve estar se sentindo o máximo esperando há tanto tempo. Imagine só. Só xingando mesmo. Ai, ai, o bar é ali naquela esquina. Meu Deus, olhe o seu estado. Não vão deixar você entrar no bar, só isso.”
Entrou no local bastante acanhado e percebeu que os garçons olharam meio incrédulos, meio indignados, que o fizeram esperar por ser barrado. Fez uma ronda por todo o ambiente e nada da garota.
“Que merda! Foi embora. Não sei se dou graças a Deus ou se choro.” – saiu desiludido e tomou o rumo de casa.
Uma hora antes, quando estava na Avenida Paulista, quase chegando à Brigadeiro, mandou um e-mail do celular: “E aí, tudo bem? Espero que não fique triste comigo, pois não vou conseguir chegar a tempo. Minha mãe me ligou e pediu para ir com ela ao médico e não tive como recusar. Tentei falar com você várias vezes e só deu caixa postal. A gente combina outra, tudo bem? Beijo”.
Colocou o celular na bolsa e foi para o ponto de ônibus.
“Imagine que vou deixar ele me ver desse jeito, com o cabelo todo espetado por causa desse tempo maldito! Nem morta, meu bem, nem morta! É só o tempo virar e fica essa coisa horrorosa! Tudo bem que fui eu que o convidei para sair, né? Mas mãe doente dá perdão fácil.”

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