sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Só uma lâmpada

Era duro reconhecer, mas a escada já estava um pouco pesada para ele. Ninguém precisava ficar sabendo disto, mas o esforço era considerável. Ainda mais que ela seria devolvida ao seu lugar, naqueles ganchos altos sob a água furtada. A outra, de alumínio, nem chegaria perto da lâmpada queimada. Uma inútil mais leve, isso sim.
Tudo bem, nada de pedir para ninguém também. Todos tinham muitas coisas para fazer e não tinham que perder tempo com uma bobagem destas.
Com calma – não tinha alternativa – e muita manha, levou-a para dentro de casa até a sala de visitas, onde habitava a queimada lâmpada em questão. Nada menos que a uns três e meio a quatro metros do chão. Colocou a escada bem embaixo dela, tendo dispendido uma força extra para colocá-la nesta posição.
Olhou para cima, não se lembrando de quando tinha sido a última vez que subira tão alto e sorriu para si, desafiando-se a responder se, afinal, apesar de octogenário, não seria capaz de trocar uma simples lâmpada – a quatro metros do chão.
Subiu vagarosamente, com a lâmpada nova no bolso direito e pensou que não era uma boa tática, pois retiraria a queimada com a direita, então a nova teria que estar no bolso esquerdo. Parou durante a subida, já a sete degraus do chão e fez a troca. Olhou para cima e continuou. Ao atingir o último degrau com a mão, percebeu que a lâmpada estava um pouco mais alta do que havia imaginado e só conseguiria trocá-la se ficasse em pé sobre os dois últimos, que acima deles somente aquela haste de ferro, que tem um gancho numa das extremidades para se pendurar uma lata ou uma ferramenta. Subiu mais dois, ficando com meio corpo livre, mas ainda faltava quase um braços para chegar lá.
Não quis olhar para baixo, pressentindo a tontura. Venceu o medo e avançou mais um. Estava quase lá. Olhou para os pés evitando a todo custo permitir que o seu cérebro lhe desse a posição espacial exata de onde estava – o que os olhos não veem – e viu que os joelhos já estavam na altura do último.
Fez a conta: subo mais um direto com a mão direita na lâmpada queimada. Tiro a lâmpada, coloco no bolso direito e pego a outra, sempre olhando para cima e pronto.
Deu a volta com um pé no degrau do lado oposto, ficando com a escada toda entre suas pernas e fez um movimento lento e determinado de subida até seu alvo. Pegou-a. Sentiu um forte alívio. Desenroscou-a e neste átimo de tempo, quando ela se soltou do bocal, ele sentiu seu corpo solto no ar: o único apoio eram seus pés, que já estavam doídos e começando a tremer nos tornozelos. Imediatamente embocou a lâmpada no bocal novamente e ficou ali paralisado.
Vontade de rir e de chorar. A primeira por se achar um palhaço mesmo e a segunda por ser um velho, com limitações. Estas reflexões duraram minutos suficientes para sentir o braço começar a doer também. E a tremer também. Analisou sua situação: a mão direita sustentando seu equilíbrio no bocal, seu braço esquerdo solto, sem utilidade nenhuma, pois não havia o que segurar e suas pernas ficando cada vez mais cansadas. Nem pensava em olhar para baixo e abaixar-se para segurar-se na escada estava fora de cogitação. Naquela idade já não suava muito, mas sentiu um cheiro forte desprendendo de sua pele e começou a achar que estava em grandes apuros. A vontade de chorar foi ficando maior que a de rir, ou seja, o pânico avizinhou.
Estava no meio da tarde ainda e ninguém apareceria para ajuda-lo, com certeza.
O medo foi aumentando e a possibilidade de se machucar e sentir dor fazia se sentir muito humilhado e por último, para completar, aquela vontade de urinar. Na verdade a bexiga estava cheia mesmo. Doendo.
Se tinha rezado umas poucas vezes durante a vida toda, aquela foi uma ocasião para zerar suas dívidas com o divino, já que estava mesmo suplicando por um milagre.
Nisto, ouviu um pássaro voando dentro da sala com grande alvoroço, procurando a saída. Fazia um grande alarde, com as asas batendo nas paredes e emitindo sons de desespero. Não conseguia ver qual seria o intruso, mas era grande, um bem-te-vi talvez, e foi neste momento em que o incauto pássaro bateu contra suas costas e o susto foi tão grande que ele se soltou daquele tênue apoio quase sem perceber, tão rápida que foi a situação e quando percebeu, estava agachado nos últimos degraus, agarrado à haste de ferro.
E começou a rir muito, de não se aguentar, e o pássaro conseguiu saiu pela janela, rápido como entrou.
Quando desceu, constatou que a lâmpada nova ainda estava no bolso.
- Essa fica para outro dia – falou, indo para o seu quarto tirar uma soneca porque estava cansado demais.

Um comentário :

  1. Acho um absurdo deixar a gente pendurado na expectativa de um novo post. Mesmo.

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