domingo, 24 de novembro de 2013

Subir

Chegou ao início da subida já bem aquecido e naquele dia estava determinado a subir tudo. Fosse parando algumas vezes, três, no máximo, mas iria subir de qualquer forma.
Eram seis quilômetros de subida e a altitude desta, uns quinhentos metros, o que significava subidas de inclinação muito acentuada.
Com a temperatura agradável, apesar do ar seco, iniciou o primeiro ataque, que seria um trajeto mais ameno de quase três quilômetros, mas onde já era possível prever o que haveria pela frente.
Tinha tentado outras duas vezes, sem sucesso, de modos que conhecia o trajeto e tinha noção dos momentos mais críticos.
Com vinte e sete marchas, procurou deixar as mais leves para utilizar o mais próximo possível do fim, quando estaria extenuado. Uma tática útil para quem quer se poupar.
Sempre que você começa a pedalar numa subida, precisa ter noção do tamanho dela, já que o seu físico não é aquele de trinta anos atrás, quando não importava quanto ou como, pois havia energia de sobra. Precisa empregar uma força tal que não te leve à estafa, assim como não pedalar lento demais, pois isto também faz com que se canse mais rapidamente.
O início é mais doloroso e os músculos anteriores da coxa começam a queimar, avisando que é preciso utilizar mais as panturrilhas, puxando os pedais com a mesma força com que se os preme. O suor já vai escorrendo pela fronte e na nuca. Um fio se desprende por trás da orelha e desce lentamente pelo pescoço.
A mata é densa e sempre tem um pássaro cantando aqui e ali e não raro dá para ouvir o súbito barulho de algum animal que sai em disparada por entre a vegetação. Isto ajuda a distrair um pouco, pois o automático está ligado, um-dois-um-dois-um-dois-um-dois. Às vezes a roda passa sobre cascalhos e dá uma patinada, afetando o rendimento da pedalada e o equilíbrio. É muito importante não perder o equilíbrio nesta hora por que se for preciso colocar os pés no chão num lugar muito inclinado, para retomar a marcha é complicado: seus músculos estão fervendo, a amplitude da pedalada é reduzida – como se três pedaladas para um giro do pneu – resultando em você não conseguir andar de novo.
À medida que a subida progride a concentração torna-se vital, incentivando a si próprio a puxar o ar compassada e profundamente, apesar do coração disparado parecer que vai sair pela boca.
Por sorte há trechos em que a terra não está tão seca e, sem cascalhos, é possível ficar em pé na bicicleta, usar outros músculos e também o peso do próprio corpo para impulsionar o pedal. Querer ficar em pé em lugares diferentes deste é pedir para patinar e cair.
E ganhar o chão era a ultima coisa em que ele pensava no meio daquele suor todo e daquela batucada cardíaca na cabeça. Tentava pensar mais alto que as batidas: “vai que dá”, “vai que dá”, “a igrejinha está chegando”! “Vai”, “vai”, “vai”, “vai”, “vai!”.
Existem pontos de curvas, em que a inclinação parece acentuar, a à medida em que se pedala, com olhar fixo no chão, mas num ponto adiante de onde se está, parece que a desânimo quer te pegar, mas tem algum lugar extra no seu pulmão que pode ir um pouco a mais de oxigênio e aquele músculo ali que estava doendo agora pouco parece ter melhorado, e aquela flor cor-de-abobora pendurada na cerca é linda, e vai, vai, vai, vai.
A igrejinha, graças a Deus!
Não se deve parar de imediato, pelo menos era seu jeito de abrandar a adrenalina. Ficava no plano, pedalando em círculos, até que a frequência cardíaca amainasse o suficiente para conseguir beber a água sem engasgar.
- Três quilômetros, já foram três. A metade. Falta pouco – disse para si, otimista, sabedor de que o mais difícil estava por vir.
Teria que ser uma arrancada que o levasse uns mil e quinhentos metros adiante e sabia-se quanto acima, com inclinação para bode montês. Então daria mais uma parada, a última antes do topo e da vitória.
Ficou mais otimista ao perceber sua recuperação rápida.
Na ultima tentativa fora um desastre e  o sabia desde a hora em que saiu de casa, mas hoje estava indo bem.
- E pare de pensar no que já era, meu! – bradou para si, enquanto subia na magrela.
A retomada naquele ponto já lhe colocava num desafio, pois que a subida e a curva para a esquerda eram muito acentuadas, com fino cascalho no chão. A cada giro do pedal, quase um terço dele era perdido pelo escape da roda e não se afobar era tudo naquele momento.
O sol mais alto, quente, era disfarçado pela brisa perene naquela altitude e naquele ponto logo mais acima, seria possível avistar a cidade, ainda que por alguns instantes, então nada melhor que focar nisto para conseguir progredir mais uns metros.
- Vai, sobe, vamos ver a cidade, vai, vai.
A cada fincada de pé no pedal, com a bicicleta avançando alguns centímetros – estamos falando de um lugar muito inclinado e de velocidade média de cinco quilômetros por hora, um metro a cada três segundos ou ainda vinte metros a cada minuto. Resumindo, quase nada.
É preciso ainda manter a coluna ereta, ainda que inclinada para frente para auxiliar a força e cada pequena oportunidade de se pedalar em pé tem que ser aproveitada com toda alegria.
Isto mesmo, alegria. Sem ela não dá para subir. É não tirar os olhos da parte mais alta à sua frente e ficar feliz a cada centímetro adiante.
Chega um ponto do cansaço em que ele parece estabilizar e passa-se a ter noção clara de que pior não vai ficar desde que se tome conta da fadiga, de não ir além do que está sendo exigido. Foco puro na chegada sem pressa: “assim dá, assim vai dar, assim vai dar, está chegando, assim vai dar”.
Existia um ponto crítico no caminho – pelo menos eleito por ele, que subia num ritmo cadenciado e no limite do seu esforço – um lugar que poderia ser chamado de tiro de misericórdia e que se por ele se passasse, a linha de chegada estaria perto da conquista.
E qual não foi a sua surpresa – aliás, quase perdeu o passo e o compasso – ao perceber que já o visualizava, o que significava que não tinha feito a segunda parada. Suas pernas ainda estavam inteiras e o coração estava naquele bate-bate forte, mas sem querer mais pular peito afora e a boca não estava insuportavelmente seca, só não dando para engolir.
Teve um momento de dúvida: “preciso parar neste ponto difícil de retomar o embalo, ou, apesar da sede e da fadiga devo seguir e chegar logo lá em cima, pelo amor de Deus?”.
Levou alguns segundos, que significaram mais alguns metros, e mais outros, e outros ainda, e olha ele ali, já tendo vencido o primeiro terço da tal reta mais inclinada do trajeto. Uns trezentos metros de pura reta, inclinada como uma tendência política radical, como a Ladeira Porto Geral.
- É muito inclinada, pô! – gritou para o nada naquelas alturas.
A dor nas panturrilhas tinha diminuído e as coxas queimando já não eram novidade. O que estava mais atrapalhando agora era o cérebro. As ideias começam a se misturar e aquele ímpeto de manter o foco vai relaxando e agora o olhar também se dirige para trás, como se procurasse incentivo naquilo que já passou: “olha só o quanto você já subiu! Tá brincando que vai querer parar agora? Mas ainda falta muito. Acho que não vai dar... Olhe para cima! Para cima, ouviu! Olhe, vamos! Para cima! Não pare!”.
A visão parece ter menos alcance e a bicicleta mais lenta. As costas estão ardendo, mas não é do sol: são os músculos. Parecem ser um depósito de ácido. O suor já não se sente. Só o geladinho da brisa batendo na pele molhada, mas o efeito é quase zero.
- Vai... vai... vai... – falando com a voz bem cansada, da fadiga, levantando mais os olhos que a cabeça.
É uma hora difícil, em que a razão parece ir se despedindo e a ideia fixa de parar quer tomar conta de tudo, te convencendo que, de fato, nada mais resta a não ser parar. Entretanto parar significa desistir e é inacreditável como esta palavra tem o efeito de provocar um movimento interno de busca das causas impossíveis ou o que seja.
Subitamente o barulho dos pneus nos pedriscos parece ficar mais alto e a sua mente, como que retornando à estrada, tomou consciência do tempo espaço e o folego se renovou o bastante para fazê-lo olhar à frente e acima, no ponto em que a terra da estrada anuncia seu fim e você chega à pedra.
Sim, senhor, a Pedra Grande. Ali. A uns poucos metros.
E ali a câimbra cobra, as coxas queimando cobram, as costas cobram, mas ele ri, sem folego, e grita – um grito tímido, pelo folego curto – como se tivesse cruzado a linha de chegada de um campeonato mundial.
Pedalou até o ponto em que podia enxergar todo o vale e a cidade no seu esplendor. O suor inundava o seu rosto alegre e sem ar. o coração já tinha saído pela boca e devia estar rolando pedra abaixo. O sorriso quase roxo:


- A descida vai ser demais.

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