quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um conto perverso - PARTE I

Toda vez que descia correndo aquela ladeira atrás da igreja para ver se conseguia chegar primeiro que Mazinho em casa, ela acabava quase batendo na janela da casa de Dona Glória, daquelas que fica praticamente no meio da rua, pois a calçada era bem estreita, não tinha recuo, e se abrissem a janela com força, poderiam acertar a cabeça de alguém. E no embalo que vinha, passava raspando pelo canto da casa de esquina. Caso estivesse na janela conferindo o movimento, Glória gritava:
-Eita, menina! Que ainda um dia você se arrebenta toda pelo chão!
Com esse grito, sentia algo como quem tivesse tomado um fortificante poderoso e disparava pela ruela plana até chegar perto do rio e virar à direita, passar embaixo do ingá, onde havia uma trilha estreita, de caber os pés somente, linda, com a relva verde emoldurando-a e um cheiro forte de mato.
Não tinha jeito. Ele sempre chegava primeiro. Competiam sempre na saída da escola. Eram vizinhos, então a chegada era bem na cerca que dividia os terrenos. E mesmo que ela escolhesse vir por outro caminho, perdia a corrida e tinha que capitular àquele sorriso largo e sincero, enquanto se entreolhavam de um jeito gostoso. O máximo que acontecia a seguir era uma despedida tímida, um aceno, um ”até” sufocado na garganta. Então ela entrava, e a mãe reclamava de alguma coisa, uma dor, um fastio, a calça rasgada do irmão.
Pendurava na parede do quarto minúsculo que dividia com os dois irmãos mais velhos, Raimundo e Cícero, o embornal de brim feito em casa, onde levava seus cadernos. O primeiro nome foi dado em homenagem a Raimundo Nonato, e o segundo, claro, a Padre Cícero. Casa de católicos, pois não?
Mais nova que eles, sempre aceitou com simpatia e desprendimento as duas duras verdades a que fora submetida: irmã mais nova e mulher. Filha de uma mulher submissa, cresceu acostumada a ter que agradar o homem na sua plenitude, tendo ficado a parte da mulher mais adulta para depois do seu casamento, aos dezesseis anos. Até então, aprendera tudo que fosse preciso para fazer um homem feliz, desde o chão da casa limpo ao lençol cheirando a alecrim. Mesmo que fosse um tanto primitivo, como era o pai, que pouco falava e vivia de cara amarrada. Parecia mais um macaco, coisa assim. Sua fala era povoada de sons guturais, monossilábicos, sussurrados. As conversas ali aconteciam até que ele pusesse os pés em casa, para então todos assumirem uma postura resignada de silêncio, esperando para atender às solicitações do chefe da casa. Falava um pouco mais quando bebia, mas ainda assim quase perderia para um mudo.Sua mãe conhecia falando bastante, baixinho e rápido. Olhar ligeiro e riso tímido. Quando falava, franzia o cenho, parecendo que fosse chorar.
Com onze para doze anos, quando ficou mocinha quase morreu de susto, pois acordou pela manhã com a sensação de ter urinado na cama, mas se viu lavada de sangue. Chamou a mãe aos berros, apavorada, e ao vê-la, acariciou seus longos cabelos negros, e sorrindo disse:
- Agora tu já é mocinha, minha filha. Vai se lavar que eu vou te arrumar o pano.
E só então percebeu que tinha uma dor fina no pé da barriga, que ia durar uns dias, segundo a mãe, porém ia voltar só no outro mês. A esta altura, suas roupas iam ficando apertadas, tanto nas ancas quanto no peito, de um jeito que a deixava sem graça, porque seus irmãos não perdiam a oportunidade de fazer gozação com ela. Mesmo com isto, percebia que os homens sempre elogiavam seu corpo, seu sorriso amplo com dentes perfeitos.
Começou a acordar no meio da noite com sensações indecifráveis, uma aflição, uma gastura que dava nas partes íntimas, fazendo-a ficar triste e perdida. Tinha vergonha da mãe. Falasse com ela, poderia passar por doida ou coisa assim.
As corridas da escola até a casa ainda persistiam, só que Mazinho preferia sempre deixá-la chegar na frente. Eles passavam muito tempo juntos, e suas mães já traçavam planos futuros, tanto ali, por cima da cerca, enquanto penduravam a roupa no varal, como quando voltavam da igreja, aos domingos. Ela sentia por ele um carinho muito grande, e eram bons amigos.

Tudo ia assim, tranquilo e sem surpresas, até que um dia surgiu aquele homem numa carreta vermelha enorme e que havia se perdido pelas estradas do interior. Parou defronte à casa de Santa, quando a viu no portão com o sol do fim de tarde que lhe acentuava o tom moreno da pele, destacando seus lábios vermelhos e carnudos. Por um instante Paulo Afonso ficou hipnotizado, mas tão logo se recobrou, saltou da cabine como a rapidez de um raio chegando perto dela, a ponto de sentir seu hálito, fazendo-a recuar, envergonhada.

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