quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um conto perverso - PARTE II

- E eu achando que tinha perdido a estrada e o dia com meu caminhão... – falou olhando fixo nos olhos da garota.
Sua mãe, que veio até a janela com o barulho, estacou preocupada com o que via.
- Que é que foi, hein, Santa?
- Nada não, mainha, só o moço aqui que tá perdido.
E quando falou, também olhando para ele, sentiu que as pernas bambearam e se apoiou na cerca de bambu pintada de branco, que separava sua casa da rua de terra.
Fugiu de casa com ele dois meses depois.
E o tempo foi passando...
Desceu do ônibus por volta de cinco e quarenta da tarde, carregando sua bolsa e duas sacolas de compras. A esta hora, já com dores nas costas e as pernas queimando, subia as três quadras a passos lentos, pensando com preguiça na casa por arrumar e janta por fazer. Seu filho Deivid decerto ainda estava por chegar, com aquele jeito barulhento, espalhafatoso e todo alegre como ela fora um dia. De sua filha mais velha tinha poucas notícias, depois que se mudara para Palmas, há uns poucos meses, com o marido transferido pela empresa onde trabalhava. Sentia muita saudade daquela que se transformara em sua grande companheira. Desde criança Luana fora muito apegada a ela. Parecida com o pai fisicamente, era do tipo longilíneo, com ombros largos, cabelos claros.
Abriu o portão da garagem e entrou pela sala. Preferia entrar pela cozinha, assim já deixaria as compras na mesa, no entanto, como os ladrões entraram uma vez por ali, foi colocada uma travessa de ferro na porta, além de grades nas janelas dos dois quartos e duas fechaduras na porta por onde entrou. Deixaram a maior bagunça e ainda levaram o que foi comprado com muito esforço. Paulo Afonso, furioso por natureza, acabou de arrebentar o que tinha sobrado. Levaram outro tempo longo para recolocar a casa em ordem. Pelo menos a casa era deles e não tinham aluguel para pagar.
Após colocar uma roupa mais à vontade, deu uma ordem no quarto do rapaz, que não era bagunceiro, facilitando sua vida, e foi para o fogão fazer a janta. Gostava de fazer sopa no jantar. Na verdade gostava mesmo era de cozinhar. Talvez fosse por isto que o marido engordara tanto desde que fugiram de Muritiba, na Bahia, há trinta anos. Além do peso que fora uma mudança, surpreendera-se também com um temperamento difícil, ciumento, possessivo que o deixava cada vez mais agressivo e indelicado. Bebia demais, não fazia companhia, chegava a casa fedendo e a obrigava a fazer as coisas que há muito tempo tinha perdido toda e qualquer vontade, passando mesmo a ter repulsa do marido.
A cada noite, quando chegava cheirando à bebida e a perfumes estranhos e enjoativos, ela acumulava seu asco e ia à igreja somente para rezar pedindo a Santo Antônio que a ouvisse e levasse Paulo Afonso a arrumar outra mulher que o suportasse. Ela mesma se sentia incapaz de mudar a situação.
A culpa por ter deixado a casa dos pais sem o seu consentimento, fugindo em pecado, sem casamento a transformara numa mulher amargurada, cheia de medos e inseguranças. Só teve noção do tamanho de suas tristezas, quando numa festa de São João, no Largo do Forró, no bairro de São Miguel Paulista, encontrara ninguém menos que Mazinho carregando um lindo menino nos ombros, felizes da vida. Apesar de já fazer um tempo, mantinha a cena viva na memória e a dor pujante no peito.
Surpresos, os dois deram-se de frente, no meio do público e quase trombaram, já que ele vinha cantarolando e olhando para cima, como que a pedir que o garoto o acompanhasse na cantoria, e ela, conduzindo o casal de filhos pelas mãos.
Sem graça, ela olhou para ele, que imediatamente assumiu uma feição carrancuda de ódio, e falou para os filhos de um jeito muito tímido e inseguro:
- Meninos, este é um amigo de infância da mãe.
- Amigo? – perguntou Mazinho em voz alta, incisivo. Não fez mais do que se virar de costas e ir embora como veio.
- Amigo, mãe? Que amigo? – perguntou Deivid, olhando para ela.
- Deixe para lá, filho, acho que mãe se enganou. Vamos embora, vamos.
Naquele dia, o trajeto do ônibus parecia muitas vezes mais longo. Ficou estarrecida demais com a reação do homem que um dia fora seu amigo e só então percebeu o mal que tinha feito a ele e talvez a si própria. Fez de tudo para segurar o choro, todavia quando teve a oportunidade desabou na cama e chorou tanto que dormiu exausta nem vendo o marido chegar. Constatou que estava mesmo ali, longe de onde fugira pela manhã, quando acordou e se levantou para fazer o café sentindo o cheiro forte de bebida no quarto, sem contar o chulé e o cheiro de suor.
Há tempos tinha esquecido de como era humilhante sua situação, e o encontro com aquele homem na noite passada, deixara-a aos trapos. Enquanto ele tinha se mostrado um homem bonito, alinhado, forte e com um semblante de calma, o outro, ali deitado como uma capivara gigante, roncando e fedendo. Não podia imaginar como Paulo Afonso conseguia sobreviver no seu emprego. “Acho que é porque ninguém sabe como ele é” – pensou em voz alta - “será que ninguém sente o cheiro?”
Depois desta vez, o sentimento de culpa em relação aos pais, a saudade da casa deles, dos irmãos, do cheiro da relva sob o ingazeiro, somaram-se à sua conhecida infelicidade, endurecendo de vez qualquer traço de alegria que pudesse ter.
E o tempo foi passando, como a água de um rio calmo, bem devagar, e a falta de perspectiva já nem a assolava tanto. Sua atitude resignada de pecadora em penitência dava suporte para que mantivesse uma atitude frente aos filhos e sua casa.
Pediu tanto a Santo Expedito, cuja igreja fica no Bom Retiro, que um dia achou que tivesse sido atendida, pois ligaram do Hospital São Paulo dizendo que Paulo Afonso estava no Pronto-Socorro entre a vida e a morte. De início teve um choque, e a primeira coisa em que pensou foi na falta de dinheiro, nos filhos, esquecendo-se de seu trabalho como diarista e do seu filho, que também estava empregado.
Chegou ao Pronto-Socorro e se deparou com um homem deitado sobre uma maca. Tão grande era que tinha os pés para fora e, por ser tão gordo, parecia que ia escorregar pelos lados dela. Não atendia aos chamados, nem se o estapeasse. Mal piscava os olhos. Parecia roncar acordado, além de ficar imóvel o tempo todo.
Ela e o filho esperaram mais de três horas até que o médico viesse:
- Ele teve um derrame grave e estamos esperando uma vaga de UTI para ele. – falou o doutor, de um jeito educado e acolhedor.
- E como será que ele vai ficar, doutor? Ele tem chance? – Santa parecia meio passada.
- Só o tempo, senhora. Nós vamos fazer o melhor, mas temos que esperar para ver como ele vai reagir, porque a situação é muito delicada. – pediu licença e saiu.
Ficaram os dois, Santa e Deivid, olhando para aquele corpo sobre a maca, sem saber mais o que falar.
Depois de quase dois meses e uns vinte quilos mais magro, recebeu alta e chegou em casa de ambulância. Ela recebeu da prefeitura uma cama hospitalar para poder acomodar Paulo Afonso e teve a promessa de que, quando ele chegasse em casa, seria visitado por um médico e uma enfermeira. Foi difícil levá-lo até a cama, e os homens da ambulância contaram com voluntários da vizinhança. Ela não sabia o que pensar.
Durante o tempo que antecedeu sua vinda, a casa ficara até um pouco mais alegre, organizada, com ar mais leve, cheirosa, com astral diferente. A poltrona sebenta, onde ele se sentava sem camisa foi lavada e até parecia de outra cor. Além do sebo e do suor, seus cantos e frestas das almofadas foram se acumulando farelos e restos de comida, até que a partir de um dia Santa se recusara a ficar limpando – “Vai sujar mesmo... Porco tem que ficar no chiqueiro.” concluiu.

Santa tinha a atitude de sempre, o mesmo mau humor e a mesma atitude retraída. Ia à igreja regularmente, mas pouco ou quase nada falava com estranhos. Apesar dos seus quase quarenta e sete anos, conservava um corpo invejável, torneado e com as ancas largas, que ainda arrancavam suspiros por onde passasse, no entanto isso já era coisa morta para ela, e quando se olhava no espelho, pouco observava sua beleza. No máximo seria: “E daí? Tudo isto pra quê?” – o que era dito com desprezo e rancor.

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