sábado, 28 de dezembro de 2013

Nobreza

Não sei exatamente qual a sensação que tive, mas preciso compartilhar.
Os Jardins, talvez a região mais charmosa de São Paulo, dos restaurantes mais badalados, os imóveis mais valorizados, gente bonita, supermercado chique, alfaiate chique, tudo chique.
As mulheres são lindas, bem arrumadas; as mais maduras, digo, bem mais maduras com seus cabelos armados e brincos que ficariam grandes até nas orelhas de Buda, anéis com pedras dignas de serem levadas por eunucos em almofadas de veludo.
Os homens, paulistanos típicos da mais elevada estirpe, orgulhosos de terem seu ponto para uma cerveja nas esquinas mais ricas e nobres da capital. Usando camisas polo de marca, relógios caríssimos, o carro importado em alguma garagem próxima ou em algum local não permitido para a ralé, com alguma placa inconveniente no poste, proibindo estacionar. Olhar confiante e o aparelho nasal voltado para o céu.
Civilizado, este tipo de paulistano leva seus cães para passear portando saquinhos plásticos para o cocô necessário – melhor na rua do que em casa, claro – em coleiras ornadas e casaquinhos charmosos. Desconsidere as perpétuas manchas e o cheirinho típico do xixi nas calçadas. Creio até que pode existir pouco mais de metro quarado m que não haja urina canina, em todo o bairro.
Por ter muitas árvores, sabiás-laranjeira entoam seu canto logo nas primeiras horas da manhã, dando ao local uma atmosfera única. Alguns se incomodam: sabiás madrugadores deveriam ir para a Serra da Cantareira.
A polícia está presente mais que em qualquer outro lugar, exceto o quartel talvez. Claro que ocorre um roubo aqui, um assalto ali, mas é a melhor estatística da capital.
Diz-se que uma considerável parte do PIB brasileiro está morando ali, as mais finas grifes. A verdadeira tradução do bom gosto paulistano. E, como que dando uma cancha, vários movimentos culturais, pontos descolados, ótimos hospitais. Os melhores hotéis, grandes livrarias, a Avenida Paulista.
Paira no ar um humilde sentimento de centro do mundo, afinal.
E com toda esta nobreza, numa bela e quente tarde de novembro – um recorde de calor para os últimos anos – por volta de três da tarde, com aquele movimento que parece de uma entressafra, como que meando a hora do almoço e jantar, um terrível cheiro começa a se espalhar numa badalada esquina. Cheiro de fezes muito forte. Não aquele nosso conhecido do Tietê ou do Pinheiros, que fica insuportável após dias sem chover. Muito pior. Cheiro de merda pura, fresca e abundante.
Pessoas começaram trocando aqueles olhares do tipo quem-foi-pelo-amor-de-Deus, mas o fato é que por ser tão intenso e estar inundando a região, ficou a perplexidade e uma careta geral.
Num determinado momento, como se não bastasse à situação constrangedora, uma tampa de esgoto que fica no meio do cruzamento foi levantada por um fluxo de água marrom, tornando o ar tão intragável que parecia estar sólido e aquela sujeira toda brotando com intensidade tal que foi se espalhando para todos os lados, saindo com força suficiente para formar um jato de quase meio metro de altura.
Aquela substância meio pastosa, saindo como a lava de um vulcão, das profundezas, constante, maligna, arrastando-se para todos os lados como uma ameba que cresce rapidamente. Num determinado instante torna-se liquida, escorrendo pelo meio fio de três vertentes do cruzamento.
Um horror olfativo. Creio que nem um inglês, no auge da revolução industrial, sentiu ao lado do Tâmisa o que se sentiria ali.
Uma personagem frequentadora da fina padaria, do mercadinho dos ricos, das finas boutiques de senhoras, indignou-se, não sem passar muito mal, e foi auxiliada a sentar numa das cadeiras do bar da esquina, uma cadeira singela, de boteco, mas não menos útil no momento.
O balconista, educado e solícito, tentou pegá-la pelo braço para ajuda-la, mas foi discretamente rechaçado, fazendo ela uma cara de nojo, que já não se saberia se do cheiro ou das mãos gentis do rapaz, aquelas mãos de pobre.
Abanava-se com um leque de madrepérola, sem perceber que, ao faze-lo aumentava a intensidade do cheiro – mais moléculas em menos tempo a estimular os sensores da mucosa nasal.
Mas que horror é este, o senhor pode me dizer – perguntou a nobre velhinha ao não menos assustado e rechaçado balconista.
Sei não, senhora, mas olhe que isso aí é merda todinha daqui, fabricação de vocês, com certeza! - e retornou rapidamente para o seu local de trabalho.
À noitinha o cheiro ainda era insuportável, apesar dos vários caminhões pipa lavando as ruas atingidas.
O cheiro, ainda que menos intenso, durou mais uns dois dias, lembrando impiedosamente a todos que somos iguais. E como.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Merry Christmas

Linda, charmosa, agitada. Gentil, por não fazer diferença entre rico e pobre; cão ou gato; carro, bicicleta ou ônibus; banqueiro, bancário, camelô. A Avenida Paulista é assim, hospitaleira, agregadora, confluente.
Principalmente no Natal, com tantas luzes e cores, que encantam e hipnotizam. Os bares cheios nestas quentes tardes com a rapaziada batendo papo, tomando chope e beliscando um aperitivo qualquer, seja qual dia da semana for.
Mas à noite e no fim de semana, mais gente acorre a ela. Milhares de celulares, máquinas portáteis, semiprofissionais, profissionais, milhões de fotos que viajarão o mundo exibindo tanta gente contente, em frente aos enfeites que disputam em tamanho e beleza.
Mas, verdade é que, em determinados momentos, quem vê uma foto lá na china, não poderia jurar que aqui não é uma típica cidade americana. Um vídeo, com a gravação do som, menos ainda.
Justifico. Ao se aproximar do imenso enfeite de Natal que atravessa a avenida de lado a lado, vê-se um Papai Noel gigante, com uma roupa polar e aquela barba branca, cercado por elefante, zebra, pinguim, urso, rato gigante, alces, neve. Na avenida, onde faz trinta graus. Nem um único animal da nossa fauna. E ininterruptamente, musicas natalinas cantadas em inglês.
Não senhores, não sou Policarpo Quaresma, nem pretendo ser um arremedo dele, sequer.
Entretanto, cá entre nós, é por isso que está cada vez mais insuportável este tal de Natal. Todo mundo louco, correndo comprar, comprar, comprar, ouvindo Jingle Bell interpretada em inglês, tirando fotos com o gorduchinho simpático, pois admitamos, o que é bom para os Estados Unidos, é bom para nós, e eles são o povo mais consumista que existe.
Feliz Natal my ass! Então que seja Merry Christmas!
Enquanto isso vamos ultrapassando o sinal vermelho, pisando no acelerador para não dar passagem ao outro carro, não olhando para o vizinho no elevador para não precisar falar bom dia, não agradecendo algo que lhe tenha sido bem feito, ainda que por obrigação ou profissão, sonegando um sorriso ou um abraço, se envergonhando de declarar amor, ficando com preguiça de pegar o telefone e ligar para alguém só para dizer que está com saudade, não perguntando se está tudo bem para alguém que chora sentado no banco da praça, deixando de ser gentil, amável, carinhoso, caridoso, compreensivo, bem humorado, altruísta, humilde, atencioso.

Por favor, vamos fazer um Natal feliz. Nós temos que fazer o Natal feliz e não desejar que os outros o tenham. Tentarei a minha parte. E você?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Fim de relação

É um absurdo que eu chegue a casa e você, além de ficar furtivamente escondida, de repente se atire em mim desta forma, oferecida e vulgar, quase me matando de susto, inclusive.
Coabitamos o mesmo espaço, e eu vou levando minha vida, e você a sua, mas não consigo ficar assim, vivendo como se você não existisse, com esse seu comportamento.
Concordo que cada um tem seus limites, seus espaços. Ao longo do tempo acabei aceitando, afinal faz tanto tempo, e você foi ficando.
Entretanto você há de concordar que é folgada mesmo, pois nem teve a humildade de pedir. Simplesmente foi ficando. Chegou assim, como quem veio para ficar, na cara dura. E foi tomando espaço.
Você acha isto justo? Acha isto, sequer, possível? Desculpe-me, mas eu não.
Afinal, eu sou um homem ou sou um verme?
Entro no meu quarto, e você aí, esparramada na minha cama, como se fosse sua. Aí, quando me vê se agita toda, fazendo tipo de afobada e corre para procurar um cantinho para se esconder, como se não quisesse me atrapalhar, e voltar a passar despercebida.
Já te disse um milhão de vezes que a nossa relação é impossível.
Eu sei que um cadáver não escuta, mas ainda assim eu te falo e, quer saber? Nem culpado eu me sinto, vendo você estendida no chão.
Frio, calculista, um miserável, você deve ter pensado antes de morrer envenenada, mas pelo terror que você sentiu ao me ver, é um sinal de que você sabia que não fomos feitos um para o outro.
Isto, aliás, me traz alívio. Não! Redime toda e qualquer culpa que eu possa ter.
Eu acho que você já está morta, a despeito de suas pernas, aqui e ali terem minúsculos espasmos, como que estivessem dando os últimos acordes da sua existência.

E agora só tenho uma coisa para finalizar: morra barata nojenta!­­