quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Limiar

Logo que saí do banheiro após fazer minha barba, senti o cheiro de cigarro queimando e fui até a sala.
Tinha sido recém-apagado, dava para notar ainda a fumaça se desprendendo da cinza e o cinzeiro estava quente ainda, pude senti-lo.
Fiquei intrigado. Fui até a janela da sala, abri uma fresta na cortina e o jardim estava vazio. Aliás, não sei por que fiz este movimento; a porta não tinha sido aberta. Não ouvi barulho nenhum.
A cozinha, pensei. Também vazia, mas outra coisa me intrigou: tinha água no fogo e o coador estava com o pó e sobre a garrafa. A porta estava destrancada. Não me lembrei, nem me lembro ainda se a tranquei antes de ir dormir.
O dia começara estranho. Eu sentia algo estranho. Eu, no entanto, era o mesmo de sempre. Sem estranhezas.
Fui notar que as ruas estavam mais vazias somente quando cheguei à firma, ou me atentei para isto quando, na portaria, o porteiro não estava. Tinha deixado um bilhete: volto já.
Apesar de eu chegar sempre cedo, antes de todos, menos do porteiro, senti como se fosse um feriado e ninguém fosse aparecer.
O departamento tinha as suas onze mesas vazias e somente eu, tentando ligar o computador e me irritei um pouco quando ele não me obedeceu. Falta de energia não era. As luzes estavam acesas.
Pensei ter ouvido um barulho de descarga no banheiro do fundo da nossa sala e quando me virei a porta estava aberta. O som que ouvi era de uma descarga no banheiro de porta fechada e agora eu olhava a porta aberta.
Ninguém poderia ter saído de lá sem que eu visse e minha reação foi ir verificar. O banheiro estava com cheiro de que havia sido ocupado havia pouco, instantes talvez. A caixa da descarga estava enchendo.
Ao voltar para minha mesa, percebo a porta da sala se fechando, como se alguém tivesse acabado de sair. Chamei, sem resposta. Fui até ela e a abri: corredor vazio. Estava, definitivamente, ficando cansativo. Estavam querendo brincar comigo.
Lembrei-me da copeira. Ela chegava antes para termos o café quentinho logo que chegássemos e estaria no refeitório.
Estava lá a garrafa com o café quentinho, sobre a pia. No fogão o bule e a caneca ainda quentes e o aroma forte e agradável envolvendo o ambiente. Ela devia estar levando café para as salas.
Na volta para o meu lugar, vi a portaria ainda vazia e o bilhete sobre o balcão.
Pensei ter ouvido passos de alguém subindo as escadas para o pavimento superior e calculei que fosse a copeira. Ainda não querendo dar o braço a torcer, pensei em não correr até lá para ver quem era, mas a curiosidade foi maior.
Ao subir pelas escadas eu ouvi passos no fim do corredor acima de mim e acelerei. Pisando no último degrau a porta lá do fundo, onde o corredor terminava se fechou suavemente. Quando me aproximei, pensei ter ouvido vozes, mas ao abri-la o que vi foi um lugar vazio.
Entretanto, a sensação era a de que soubessem que eu estava chegando e foram se esconder, fazendo graça. Não sei de que, a graça, mas foi assim que senti.
No canto direto desta ficava o banheiro e claro que o verifiquei, constatando o mesmo que tudo até então: vazio.
Ao retornar, olhei o computador desligado e nem tentei nada para reanima-lo. Senti um cansaço súbito, uma preguiça enorme e vontade de me deitar.
Pensei em lavar o rosto com água fria.
A água da torneira parecia bastante agradável e mergulhei nas minhas próprias mãos, deixando com que o frescor me reanimasse, mas ao me levantar e olhar o espelho soltei um grito de pavor.
Não vi nada nem ninguém, como se olhasse por uma janela e o pânico me dominou, pois fiquei sem saber se ainda não tinha chegado ou se já tinha saído.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Simples assim...

Eu jurei para ela que não demoraria muito.
Era o tempo de sair, ir até lá e voltar no ato.
Nem sei porque escrevo sobre uma futilidade destas, mas enfim. Quando o impulso vem, eu me rendo.
Saí a pé, pois não compensava ir de carro por alguns quarteirões somente e ficar ali dentro, cozinhando e assistindo um trânsito congelado não é dos meus programas favoritos.
O dia estava quente, com o ar seco como de um deserto – quem já foi a um deserto? – e o suor grudava a roupa no corpo.
O ar muito quente parecia entrar rasgando a garganta. Os pulmões pareciam aceita-lo por falta de opção somente.
Quando fui chegando no cruzamento com a avenida, perto de casa, notei que aquele senhor novamente.
Encurvado. Aliás, muito encurvado – devia ter um grave problema de coluna, pois parecia que a qualquer momento cairia de cara no chão – e a mão direita segurando a anca e com a outra fazia movimentos circulares para a frente, como se tentasse nadar.
Sempre estava ali na esquina e parecia que algo o atraía para a grande árvore que ali residia há algumas décadas. Ficava parado em frente ao caule, com o corpo encurvado daquele jeito, esperando ou procurando sabe o quê.
Mais de uma vez eu vira o velhinho ali e pensara sobre aquilo. Até pensei em perguntar, mas sabe como é, a gente só pensa, pensa e pensa. Fazer mesmo...
Bem, ali estava eu, indo rapidamente resolver uma pendência para voltar logo. Ela estava esperando.
Mas o velhinho estava parado de frente para a arvore, olhando para algum lugar que podia ser para baixo, ou, no máximo, naquela altura em que sua cabeça conseguia se erguer.
E percebi que sempre eu o vira de dentro do carro, de passagem, com o sinal para esverdear no semáforo, buzinas atrás e toda a gente estressada a te pressionar.
Deu uma vontade enorme de me aproximar dele. Mais vontade de conversar.
Em meio ao barulho que aquela esquina fabricava e envolvia todo e qualquer som, cheguei bem próximo e precisei me curvar para falar com ele.
Ele virou os olhos primeiro, na minha direção e em seguida deu um pequeno giro com o corpo para o meu lado. Não respondeu logo à minha oferta de ajuda. Voltou a se virar para o tronco.
- A forquilha – ele falou e me custou um pouco a entender.
Como devo ter feito uma cara de bobo, ele apontou para cima com a mão esquerda, mantendo a curvatura imposta pela sua condição. Olhei para cima sem saber o que olhar ou procurar: quantas forquilhas deveriam existir naquela arvore?
- Eu me sentava nela há oitenta anos atrás.
- Ah... sei – fiquei desarmado – faz tempo, não?
- E pra comemorar eu quero subir lá...
- Como? – e ao que indaguei, ele sorriu com certa ironia.
- Tudo bem. Você só é mais um. Quando se aproximam eu falo e todo mundo vai embora. Antes de eu morrer alguém me ajuda.
- Mas é muito alto! Como acha que vai conseguir?
- Não sei. Por isto estou aqui esperando. Alguém vai me dizer.
Olhei o relógio. Já era para eu estar quase a ponto de retornar.
- Boa sorte! – foi o que consegui dizer, achando graça, enquanto que ele voltou à posição original, virado para o tronco.
Fiquei com isto na cabeça. Não sei porque, uma coisa tola como esta, um capricho de um homem velho, um disparate.
A coisa consumiu meu resto de dia.
Quanto ao compromisso, deu tempo.
Na volta eu tirei uma foto e publiquei, comentando a vontade do vovô, no meu perfil da rede.
Dois dias depois, saindo de carro para o trabalho e pensando no dia corrido que teria pela frente, quase provoquei um acidente ao ver o vovô sentado a uns três, quatro metros do chão, olhando tudo embaixo com um sorriso largo e contagiante, sentado na forquilha da árvore.
Para minha sorte o sinal fechou e tive uns dois minutos para curtir aquela feição de alegria e realização.
Próximo à arvore havia um carro da companhia de energia elétrica, daqueles que têm uma plataforma elevatória e que serve para levar os técnicos aos postes e fios mais altos.
Ele, o vovô, estava amarrado com aqueles cintos de segurança à arvore e estava tão bem e seguro que se inclinava para frente e para trás para olhar tudo ou para fazer uma graça, não sei.
Subi no meio fio e deixei o transito prosseguir. Fiquei ali por mais um tempo até que descessem o homem da árvore.
Quando chegou ao chão, arqueado daquele jeito, pegou as mãos dos dois homens que o elevaram e as segurou balançado-as emocionado. Achei até que estivesse chorando.
Retomei meu caminho em meio ao calor a às buzinas.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A crônica de ontem - Lançamento de Dias estranhos


A crônica de ontem foi escrita a muitas mãos e tem muitos personagens.

É uma crônica especial, que reverencia amizade, bem querer e amor.

Foi escrita por muitos queridos que estiveram comigo. Uns atendendo minha eterna carência de atenção, outros me causando a alegria da surpresa, do inesperado, da súbita saudade que percebi sentir no momento do encontro.

Foi escrita também pelos que não estiveram de corpo presente, mas que lá foram com seus pensamentos positivos e corações.


Aos escritores-personagens desta crônica o meu eterno obrigado, pois eu me recordarei para sempre deste momento que foi único, marcante, indelével.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Infinito meu - FINAL

Um dia, de tanto se fazer essa pergunta, pegou-se abrindo discretamente caixas e caixas, fazia de uma forma delicada, como que evitando barulho para não se denunciar. Abriu a maior, abaixo da janela, que ficava com a tampa dobrável sempre solta, mas o que viu foi uma porção de pequenas coisas guardadas, como brinquedos de montar, carrinhos, alguns livros de contos infantis. Havia uma pequena luz no fundo? Como se uma pequena lanterna tivesse caído por entre os objetos? Devo estar louca mesmo...
Passou para outra caixa, na lateral da cama, meio metro acima do nível do colchão. Ela ficava encaixada de forma a deixar para fora quase sua metade, permitindo levantar meia tampa e foi o que fez: gibis de Walt Disney até em cima sem espaços livres. Voltou-se para o guarda roupas e o abriu. Tudo arrumado; nada fora do lugar. Teve a vontade, e o fez, de deslocar as roupas penduradas e ver que a tampa posterior do armário estava ali. Riu de si mesma achando-se tola ao pensar que por ali seu filho entrasse em algum lugar secreto.
Bem mais ousada que seu marido, chamou pelo garoto em frente a caixa e ao guarda roupas. Posicionou a cabeça de lado, apurando o ouvido.
Ao fazer isso e se voltar para a cama, que ficava na mesma direção da janela, quase morreu de susto ao ver o filho do lado de fora dela, olhando-a pela vidraça. Tinha aquela expressão de sempre no rosto, deixando-a com a face pegando fogo, como se tivesse sido flagrada num grave delito, apesar de o olhar dele não parecer focá-la diretamente.
Disfarçou ralhando:
- Quase me mata de susto, moleque! Onde você estava? Nem vi sair? Saiu por onde? – falou apressadamente e saiu com a mesma velocidade, dispensando as respostas. Tanta coisa pra eu fazer e vou ficar aqui me preocupando com esse moleque. Verdade é que raramente perdia a paciência com ele.
Passava de um estado a outro – da curiosidade extrema ao evita-la a qualquer custo – em segundos. No fim a possuía uma frustração que surgia lá no fundo e ficava martelando; uma dor latejante e fina, um pensamento doído, incômodo e ao mesmo tempo tênue o bastante para não lhe tirar dos afazeres. Cheio de segredos esse menino. Ai, meu Deus, que ele não me venha com esquisitices. Será que é louco como meu pai foi? Mas ele não come flor nem conversa com passarinho, que nem fazia o velho. Fica tão quieto o tempo todo. O velho não ficava.
Quando foi para nascer, a criança levou quase um dia e uma noite para sair e respirar o ar do mundo e ainda assim, depois de nascido levou mais uns minutos até soltar aquele choro fraco e cansado, como se estivesse implorando em soluços para o deixarem dormir.
Andou rápido, aos oito meses, mas foi falar para lá dos três anos, e muito pouco ou quase nada.
Frases curtas, objetivas, economizando o verbo, como se as palavras custassem fortuna para sair. Falava em tom baixo, quase desaparecendo a voz antes do final. Parecia tão distraído o tempo todo que tinha de se oferecer tudo. Comida, água, suco, doce, bolacha, salgadinho. Comia com gosto, mas não sentia falta. O olhar vago. Não era um olhar morto ou triste ou de quem está perdido. Era indiferente sem ser, pois prestava atenção no nada. Não parecia estar seguindo alguém que não existia, mas também não olhava as coisas que todos olhavam. Algo assim, estranho e incomum, misturado com o corriqueiro e banal.
Brincava o tempo todo, emitindo ruídos baixos, ora imitando o motor de um carro, ora evocando os sons de um rifle de assalto, de cavalos relinchando. Ficava assim um dia inteiro se o deixasse.
Não era aquela criança que se entusiasma com as novidades. Sempre que se deparava com algo novo assumia aquele olhar, percorrendo lentamente todos os quadrantes, como que analisando desde a superfície até seus planos mais profundos, tentando, pela forma depreender o que viria no conteúdo.
Um dia o pai apareceu com um lindo cãozinho, ativo, brincalhão, com energia para deixar a casa de ponta cabeça se lhe fosse permitido. A esposa achou ruim, que seria mais trabalho para ela e ninguém iria dar a mínima.
O garoto ficou boquiaberto, parado junto ao tapete da sala vendo o cãozinho rodopiar, latir desafinadamente, correr atrás do próprio rabo, tudo numa velocidade estonteante e que parecia não tomar conhecimento de quem estava ao redor, até que descobriu o menino. Latiu, abanou o rabo, e como era bem desengonçado, ficou requebrando mais que o normal até cair sentado sobre uma das patas traseiras e ato contínuo partiu para os pés do garoto que, imóvel, observava a cena. Mordeu rosnando, pegou o cadarço e puxou até que, fazendo soltar o laço de repente, caiu para trás e soltou um pequeno gemido de desapontamento. A seguir ficou de barriga para cima, olhando seu novo dono de soslaio.
O garoto olhou para o pai, que o observava em silencio e acenou afirmativamente com a cabeça, indicando que era um presente.
Ele se sentou no tapete e desde aquele instante o animal parecia entender o garoto. Não se desgrudaram mais e quase um ano depois era daquele jeito intenso como havia começado.
Um dia quando chegou na escola no final da tarde não foi recebido pelo seu amigo de pelos como era o usual. Não procurou fora da casa; o cão nunca saía sem ele. Foi até o quarto e ao colocar o material escolar sobre a cama ouviu um latido distante. Pulou para junto da janela olhando no quintal. Ouviu outro latido abafado, que parecia vir do canto do quarto. O canto à direita da janela, que fazia angulo com a parede da porta. Mais uma vez o chamado parecia sair por entre as caixas. Não poderia ter entrado por um vão, pois vão não havia, pegou a lanterna e iluminando por entre as frestas esperava localizá-lo.
O mais curioso é que o latido não era de um cão aflito ou em perigo. O danadinho devia estar brincando, mas como? Sem ele? Simplesmente estava em algum lugar sem ele e brincando. A pontinha de ciúmes que sentiu era inusitada e lhe causou grande desconforto.
Pegou uma escada pequena que ficava atrás da porta e o permitia alcançar as caixas mais altas. Subiu usando ainda a lanterna, porque apesar de ser dia claro lá fora, seu quarto já estava mais acostumado à penumbra.
Por ali não teria acesso. Desceu e se sentou a cama, pensando no trabalho que seria tirar caixa por caixa para alcançar o amigo. E dali, mergulhado em pensamentos, fixou o olhar na caixa que estava no rés do chão, a que tinha umas seis ou sete sobre ela. Parecia ouvir os passos apressados dele roçando o papelão. Não era possível. Reparou também que a caixa sob a janela, a grande, tinha uma das folhas aberta.
Ele abriu as outras. Os brinquedos estavam desarrumados e pareciam estar assim até o fundo. Foi retirando os de cima e colocando sobre a cama. E mais outros. Alguns livros infantis, uma bola de couro murcha, um carrinho de rolimã em miniatura. Como de hábito, à medida em que retirava cada objeto de dentro, lembranças a ele associadas vinham à sua mente como um filme e com imagens nítidas e coloridas. Já tirara um monte e ainda parecia haver mais. Havia colocado tantos assim? A caixa foi ficando mais funda, parecendo estar o seu fundo abaixo do nível do chão. Achou engraçado. Já estava precisando segurar com uma das mãos na borda da caixa, tal a sua profundidade.
Quase morreu de susto quando o latido lhe atingiu os ouvidos como um raio. Alto a ponto de parecer que ele sentia a respiração do animal junto ao seu corpo. Descobriu de repente que era real e não uma simples impressão. O cão chegou ao seu lado e começou a lhe lamber as orelhas. Ele segurava uma caixa com as duas mãos, estava quase de ponta cabeça dentro da caixa e agora era lambido na orelha. Protestou pedindo calma ao amigo e assim que falou ele saiu correndo voltando a latir de longe. Chamou por ele espantado com o que parecia ser um corredor, forçou a visão, esticou o mais que pode o pescoço sem largar a caixa e o que aconteceu foi que ele desabou dentro da caixa. Assustado, percebeu que não estava machucado nem sentindo dor alguma. Os olhos foram se acostumando com aquela luz que parecia fraca, mas lhe possibilitava ver tudo. Haviam corredores com brinquedos de toda a espécie formando as paredes, como se fossem prateleiras, reconhecia os objetos, vendo que eram de outras caixas e ali pareciam estar todos num único recipiente. Um grande depósito. Admirou-se com a ordem. A que ele gostaria que tivessem os das caixas. Mas eram os mesmos, então estavam arrumados.
Voltou ao ponto da entrada, olhou para cima e teve e impressão de que ele próprio estava menor. Claro! Senão como você ia caber aqui dentro? Satisfez-se com a resposta e saiu em busca do cachorro que a esta altura latia no lado oposto. Foi atravessando os corredores não menos espantado com a quantidade de coisas que havia, parecendo uma imensa loja e não havia ninguém. De gente, ninguém.
Pareceu-lhe ouvir a voz da mãe chamando lá no quarto. Achou melhor ficar quieto para não se denunciar. Sentia assim, apesar de não ter feito nada de errado, supunha, mas quando a mãe chama tem que responder logo.
Ela, ao entrar no quarto viu alguns brinquedos sobre a cama e a caixa aberta. Buscou o quintal através da vidraça, concluindo que seu filho já devia ter encontrado o cãozinho e estaria brincando lá fora. Retornou aos seus afazeres.
Avançando pelo corredor, o garoto passou para um ambiente parecido com o quintal da casa, onde, sobre a grama verde seu cão corria de um lado a outro, latindo e resfolegando sem parar. Parecia estar se divertindo muito. Apesar de muito claro, não identificou o sol e logo notou que não havia sombras. Olhando para cima, sabia exatamente onde estava. Ora embaixo do seu próprio quarto, ora abaixo da cozinha e assim por diante. O mais intrigante era que não via as coisas por baixo. Só sabia que estavam acima de sua cabeça.
Ouviu a mãe gritando, reconhecendo a voz que entrava pela caixa. E chegava aos seus ouvidos como se ouvisse através de uma parede, nítido e abafado.
Não tinha vontade de regressar. Ali estava quieto e lhe dava uma sensação confortável de aconchego e sossego. Deixou-se sentar na grama macia e seus olhos perderam-se no horizonte, que ficava lá onde a vista se perdia e ainda assim parecia tão perto. Tudo, aliás, tinha esta aparência ou sensação de longe e perto. Como se estivesse contido na caixa ao mesmo tempo em que vislumbrava a amplitude daquela paisagem.
Sua mente de menino não se intrigou nada com o fato de ali não haver nenhum som da cidade, pelo contrário. Nem tampouco o canto dos pássaros ou o som do vento. Parecia mesmo estar num estúdio, onde o ambiente à prova de som pode, para uns, trazer tranquilidade, ao passo que para outros pode passar algo de claustrofóbico. Ele estava com a primeira, sentia um bem estar; parecia ter encontrado o seu lugar.
Não fosse seu amigo cachorro, estaria lá no quarto como todo dia. Aqui podia colocar, como estava fazendo agora, todos os brinquedos e objetos guardados nas caixas sobre o gramado e a cada peça que pegava, lembrava nitidamente do instante em que a conquistara, fosse simplesmente pegando para si por estar abandonada, fosse um presente de alguém que quisesse agradar.
Achava incrível, divertido. Seria capaz de dizer que roupas estavam usando as pessoas que estavam presentes quando havia ganhado algo. Assim, por exemplo, quando ganhou este pequeno caminhão betoneira de cor vermelha e laranja. O pai estava com aquele terno cinza claro, a camisa branca e a gravata azul marinho que usava sempre às segundas-feiras; a mãe com o vestido vermelho e pequenas flores brancas e por fim a amiga dela, que usava a camiseta amarela bem apertada – decerto pra segurar os peitos grandes – e a calça jeans que nunca deixava seu corpo. O vasinho de margaridas murchas no armário da copa.
Um tempo depois de ter ido ao quarto, ouviu os latidos no lado de fora e saindo para o quintal viu seu filho sentado, com o olhar vago de sempre, sob a jabuticabeira, num banco de madeira que ali ficava. E o cãozinho correndo como louco. Disparava pelo quintal dando duas ou três voltas beirando o muro e depois pela lateral da casa, voltado para o lado do garoto. Enfiava-se entre seus braços, imóveis, estimulando algum carinho. Esfregava a cabeça no seu peito, lambia seu rosto, latia.
Como que a muito custo, sem desviar o olhar do nada, o menino esboçava um afago, passando vagarosamente a mão na cabeça do animalzinho, que resfolegava feliz, com a língua de fora. Parecia mesmo estar feliz e grato lambia a mão do amigo.
Sua mãe chegou até ele, acariciou seus cabelos:
- Ah, meu filho querido, por onde você anda, hein? Está tudo bem? Acho que sim – e beijando-o voltou para a sua rotina.
Ouviu mais uma vez a voz da mãe entrando pela caixa, mas percebeu que ela não estava aborrecida: que bom... vou poder brincar mais um pouco.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O infinito meu - PARTE 1

A mãe tinha sempre a sensação de coisa nova e parecia estar chegando ali pela primeira vez.
De fato, não podia se recordar.
Um longo tempo já ia e não conseguia lhe avistar o começo, como a imagem de um imenso dragão chinês o qual lhe era possível somente avistar a cauda, pois a cabeça adiantava-se a ponto de já não deixar lembrança da carranca que ostentava.
O quarto, no início, era assim, um quarto comum. De gente comum. De uma criança comum. Uma cama, uma mesinha de cabeceira com um pequeno abajur de porcelana e a cúpula branca adornada com filó da mesma cor e pequenos bordados imitando flores; o guarda roupas de três portas, antigo, de madeira pesada e puxadores amarelados nos pontos de contato com as mãos e com azinhavre nos pinos que os fixavam nas portas. A luminária bem básica, dessas baratas com um bojo branco e o plafon fosco. No chão um tapete pequeno, que servia para se colocar os pés fora da cama sem tomar um susto com o chão frio. A janela de madeira, com vidraças e persianas não menos comuns. O cheiro também, com cheiro de cera recém aplicada e o armário com cheirinho de sabonete.
Ouvia-se que desde que iniciara engatinhar pela casa, já juntava coisas e as levava para o seu quarto. Foi ocupando os espaços de tal modo que de tempos em tempos a mãe tinha que fazer uma limpa.
Aprendeu, com o tempo, que não devia guardar restos de comida, papeis de embrulho, tubos vazios de pasta de dente, caixa de ovos, mas de fato, portava-se como um bichinho obsessivo, que tudo o que encontrasse fora do lugar seria levado para seu quarto.
Certo afirmar que com isto a casa ficou mais em ordem, ou, pelo menos, com quase nada fora de gavetas, caixas e armários, pois bastava algo à vista para ir parar no infinito particular de Serginho.
Quando entrou na escola, sua mãe nutria a esperança de que ele mudaria, deixando de lado aquela mania de guardar o que lhe viesse pela frente, mas qual.
Com toda a paciência, em muitas ocasiões o ajudou a organizar a confusão que se formara e o via meio perdido, com o olhar vago. Aflita, sentava-se ao seu lado e propunha uma organização, qualquer uma. Ele escutava atento, como que se grudando às palavras da mãe para esquecer o seu recente problema e então ele esboçava um sorriso tímido, suspirava. Tá vendo, mãe? Eu sabia que dava! E ela lhe devolvia o sorriso com espirito aflito. Não sabia o que ele estava pensando, mas os olhinhos e as mãos pareciam ter voltado ao seu estado normal.
Em pouco tempo estava organizando as coisas sistematicamente, em caixas, embrulhos, sacos resistentes, poderia guardar suas coisas de um jeito mais fácil de saber onde tudo estava, afinal, era o que parecia ter importância. Saber onde tudo estava, mesmo que não fosse para seu uso. Importante era saber onde estava. O quê e onde.
Na adolescência, o seu grau de organização era tal, que seu pai lhe entregara a guarda de várias coisas que ele próprio vivia procurando quando era necessário, como uma chave de fenda ou um recibo do aluguel. Recebera um local no quarto só para suas coisas. Assim acontecera com seu irmão, que já não habitava o mesmo quarto havia alguns anos, desde que se mudara para longe e coisas ficaram para trás que sua mãe não quisera dispor. Ela mesma lhe pediu um cantinho e ali tinha também algumas quinquilharias inúteis, mas que a faziam se sentir parte daquilo tudo.
Ele falava cada vez menos, mas todos ali pareciam entende-lo e curiosamente desde cedo não foi pressionado a ser mais claro, como se tivessem entendido seu jeito desde sempre.
A esta altura as paredes já não eram possíveis de se enxergar e a janela estava emoldurada por caixas e prateleiras. Sua cama estava num espaço pequeno e apertado. Caixas e prateleiras a rodeavam e para se chegar nela era necessário fazer duas pequenas curvas entre tudo o que se amontoava com razoável ordem, por incrível que possa parecer, além de se ter a sensação de que a distancia percorrida era bem maior que a real. O estreito corredor acabava nos pés da cama e sua cabeceira ficava em frente a janela, a uma distancia desta de um metro e meio, mais ou menos, ou o comprimento de três caixas grandes, ou cinco menores.
Serginho dava tão pouco trabalho que em algumas ocasiões seus pais se perguntavam quando teria sido a ultima vez que o viram. Foi hoje pela manhã quando voltou da escola ou ontem quando foi dormir?
Assustados com tanta displicência, chegavam a porta do quarto chamando de mansinho e ele sempre estava por ali -  falavam assim baixinho porque tinham a impressão de que ele estava num lugar mais distante, com a voz abafada por um longo corredor ou passadiço.
- Você está bem, filho?
- Você não vem comer?
Em alguns minutos ele surgia com o mesmo ar tranquilo, sempre tão quieto que tinham dúvidas de que ele entendesse as coisas, apesar de nunca ter apresentado a menor dificuldade para aprender. Suas notas escolares e elogios dos professores falavam de algo oposto ao que receavam.
Desde pequeno ele agia como se estivesse olhando um mundo à parte. Passava longos momentos olhando para o vazio e seus olhos se moviam como se estivesse enxergando coisas que não podia ver também. Ficavam aflitos. Chamavam por ele e até que lhes voltasse a atenção, parecia relutar em faze-lo, não querendo deixar de olhar ou atender o que lhe prendia.
Chorava pouco ou quase nada quando bebê. Não se irritava com facilidade. Sorria sempre. Nunca ficava doente. Mas faltava alguma coisa. Assim sentiam. Sentiam, mas não dividiam entre si. Pareciam saber que o outro sabia. Entretanto, esse era um assunto de pouca fluência e que se esgotava nas primeiras palavras.
Uma coisa que intrigava o pai era o fato de que, com o passar dos anos, mesmo não contabilizando com a razão e sim vitimando-a com a complacência paterna que minimiza e subestima fatos e contas, desde que sejam de filhos, era que tinha certeza de que tudo o que seu filho carregara para dentro daquele quarto sobrava em relação ao que de lá saíra. Mas o tempo vai passando e dúvidas maiores tornam-se menores, o que aflige agora e chega a tirar o sono, logo que amanhece e vai embora com o dia.
Houve até uma ocasião em que, tendo chamado o garoto várias vezes sem resposta, chegou até a cama dele, passando por aquele vão chamado de corredor, e ao chamar mais uma vez, teve a nítida impressão de que ouvira a resposta dele saindo de uma caixa maior, que ficava abaixo da janela e podia jurar que havia uma fraca luminosidade saindo pelas frestas da tampa, mas de pronto desviou o olhar e ao retornar à mesa do almoço, onde sua mulher os aguardava, simplesmente tomou seu lugar nada comentando sobre o fato estranho, apesar de, no início do trajeto, ter imaginado confessar a ela este pequeno desassossego que o acometera.
De fato o filho preferia ficar por trás das caixas de um dos cantos, que formava um cubículo escuro e silencioso.
Cria ter adicionado mais um segredo em relação a esposa. Mais um entre tantos outros que se acumulam à medida em que a convivência pacífica muitas vezes significa pequenas omissões e até discretas inverdades. Nada que se iguale a um pecado mortal ou coisa assim, mas é o suficiente para, aqui e ali, ser tomado por um remorso de ter perdido oportunidades de dividir o fardo.
Por seu turno, talvez ela, a mãe e esposa, tivesse mais segredos ainda. Afinal estava ali o dia todo. Entrava e saía do quarto com mais frequência, inclusive quando ele estava na escola.

Quando ele era menor, a mãe mexia nas caixas toda vez em que precisava por uma ordem no quarto, mas conforme ele foi crescendo e os espaços foram diminuindo no cômodo, ela entrava com a desculpa da arrumação necessária. A curiosidade a movia. O menino não tinha saído, pelo menos que o visse. A cama vazia e a janela fechada deixavam suspensa no ar a pergunta: onde tinha se enfiado?

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Seja sincero

Aquele gosto azedo não quer largar minha boca, fazendo com que minha língua tenha uma sensação insuportável nas beiradas e a parte que encosta na garganta pareça estar coberta por areia.

Não sei porque hoje estou sentindo isto de maneira mais intensa. O gosto ruim, vez por outra acontece, mas não incomoda tanto; e olhe que hoje o gosto não está mais intenso, entretanto incomoda mais. Como ainda não tinha incomodado, aliás.

Tem dias que acordar é constatar que o dia vai ser como a minha boca está hoje: azedo. O dia azedo, porque a boca é azeda.

Além de azedo estou também um tanto rabugento, percebi agora.

Percebi agora e o verbo já é passado. Acabei de perceber e conjugo percebi e acabei. Estou fazendo um relato e a cada fato já é passado. Bem, por isto é fato. O presente acontece e ainda não foi.

Quando abri os olhos, senti que ia ser desse jeito e os dias assim são mais penosos, como se as horas se grudassem nas coisas, nas paredes, no chão, na cama e deles não se soltassem, ou se o fizessem seria de má vontade, como que soltando aos poucos para ver se te irrita mais.

Já estou querendo muito, para alguém que acabou de acordar: gosto ruim na boca, o azedume do meu humor, minha rabugice, e as horas que estão e vão se arrastar o tempo que elas resolverem que assim será.

Para tentar me convencer que talvez não seja assim tão ruim, aquele pequeno pássaro entrou pela janela e fica dando pequenos voos para todos os lugares do quarto, num canto meio desesperado, é certo, mas não sei se comemora a aventura ou se não consegue encontrar a saída.

Está tão afobado que não percebeu os farelos de torrada sobre a mesa de cabeceira e fico imaginando se uma horas destas ele não poderia fazer uma aterrisagem exploratória bem na minha testa. Seria inusitado, vibrante, e, porque não, extremamente excitante, ter aquele pequeno inquieto bem na minha testa, saltitando e cantando.

Que pena, ela entrou e espantou o passarinho. Tinha que ser. Tem que pegar aqui a bandeja do café da manhã e leva-la embora, para daqui a pouco eu tomar meu banho.

A vantagem de sentir somente a língua é que não consigo associar o mau cheiro que sai das minhas feridas à dor. Como posso estar apodrecendo sem sentir nada, eu me pergunto. Bem certo também que não faço nenhum movimento. Em compensação não sinto dor.

Mais uma vantagem: a de não saberem da minha consciência. Não preciso fazer media com ninguém. E acabei conhecendo todos os que se aproximam sem disfarces. São o que são sem dó nem piedade.

Só faço rir. Rir não, gargalhar. É o que faço o tempo todo.

Aqui todos entram e se mostram, e se eu conseguisse escrever sobre cada um deles o mundo teria vergonha de acordar, porque afinal, somos todos nós assim, hipócritas, medíocres e previsíveis.

Juro que a surpresa e o horror foram enormes no começo disto tudo. O tempo, artesão que é, foi moldando minha experiência e, não me pergunte como, estou hoje mais liberto do que quando, antes de passar a morar neste corpo inerte, eu vagava pelo mundo feito alma penada. Feito esses daí que me rodeiam e esperam minha morte.


E fico pensando se não estamos aqui só esperando a nossa hora. Ou fazendo hora. E você aí, lendo esse texto? Não está fazendo hora também? Seja sincero. Ninguém vai saber, juro.