quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Memória de menino

A gente quando é criança guarda coisas que assumem imagens, formas, sons que ficam, às vezes, impregnados para sempre, recorrendo aqui e ali sem maiores motivos, mas com intensidade de coisa real e acontecida.
Ainda garoto, minha avó me contava uma história – eu sempre pedia que ela me contasse de novo – de um irmão que ela perdera ainda criança, vitima de tétano.
O garoto estava doente fazia dias, cada vez pior, apenas aguardando que os anjinhos do céu lhe viessem buscar e a tristeza rondava a casa do sítio onde moravam.
Faço conta que até a fumaça do fogão a lenha saía da chaminé com má vontade. Um garoto de dez anos, com a idade que eu próprio tinha quando ouvi pela primeira vez este caso, com uma doença que o levaria à morte, faria tudo em volta ficar triste. Imagino a bisa chorando, inconformada com a sina de perder um filho tão jovem, o nono amuado, consolando os outros filhos, acolhendo o apoio dos vizinhos de bom grado.
Uma doença severa e letal, que acomete sua vítima com dores terríveis causadas por contrações musculares involuntárias, às vezes tão fortes que fazem fraturar ossos do corpo somente por sua força.
Ela contava que ele adorava melancia, e num dos poucos momentos em que conseguira falar, revelara a mãe este último desejo.
Sabendo disto, um tio e um irmão mais velho selaram as montarias e saíram em busca da fruta, enquanto quem ficara, rezava para que o pequeno conseguisse ter seu desejo realizado.
Dois dias se passaram com a febre e as crises de dor torturando o menino até que finalmente eles retornaram com a fruta no embornal, após vasculharem todas as roças da região, já que não era o tempo dela ainda.
Toda vez que me contava, ela se emocionava com o retorno dos homens com a fruta, como se fossem heróis. Os que realizaram o ultimo desejo, algo assim.
Mais que depressa a nona pegou a pequena melancia, uma pequena e desbotada fruta temporã, que por obra de Deus estava lá num canto da grota esperando ser encontrada, partiu-a e colocou seus pedaços num pano limpo e a espremeu, fazendo um suco.
Com paciência de mãe, a nona foi dando o suco às colheradas ao garoto enfermo que, apesar da gravidade da doença, dos espasmos terríveis, tomou o suficiente para saciar a vontade e acalmar seu espírito.
As dores e o sofrimento o deixaram no fim da tarde. Morreu em paz, sem vontade de melancia.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Vida e morte

Era uma manhã de domingo com todo o seu esplendor.
Sol radiante, movimento nas ruas, dia de feira, de mercado, de ir à praça, de encontrar os amigos.
O médico recém-formado estava de plantão no hospital. Um hospital grande e tradicional, que o enchera de orgulho quando fora aprovado no exame de residência.
Apesar da pouca experiência, já tinha vivido várias situações nos estágios anteriores, mas ali estava já como médico. Médico residente, mas médico.
Um chamado no centro cirúrgico; um bebê estava nascendo. Ao invés de ir pelo elevador, subiu pelas escadas amplas, para ganhar tempo e passou pelo saguão, onde havia também uma sala de espera e se deparou com uma cena triste. Um grupo, silenciosamente chorando, consolando os pais de um garoto que acabara de se acidentar na loja da família.
Entrou no setor procurando a sala de parto, local ainda desconhecido para ele. O lugar era amplo, com oito salas e logo na primeira uma equipe médica em frenesi, tentando reanimar o corpo de um jovem que jazia sobre a mesa, os braços suspensos, soltos, os campos cirúrgicos o cobrindo parcialmente, e um cirurgião fazendo-lhe massagem cardíaca a céu aberto. Tinha o coração do jovem nas mãos e era possível perceber seu desespero.
Ficou tão hipnotizado com a cena que só retornou a si quando ouviu o choro de um bebê, numa sala mais ao fundo. Levou um susto. Um enfermeiro que estava saindo da sala em que ele estava parado junto à porta disse que aquele que estava lá, massageando o coração do garoto de dezesseis anos era seu tio. Uma prateleira inteira caiu sobre ele, quando foi pegar uma mercadoria e a escada em que estava escorregou e ele tentara se segurar numa das tábuas, desabou tudo e ele teve esmagamento de tórax. E o tio era o cirurgião.
Ato contínuo correu para a sala de parto e foi recebido por um obstetra aborrecido com o seu atraso, talvez nem sabendo o que ocorria na outra sala.
Pegou nas mãos o pequenino, que chorava a altos brados avisando que era sua vez de sentir a dor do ar lhe penetrando os pulmões, de se incomodar com aquele mundo barulhento e estranho, aquelas mãos indelicadas o revirando e limpando. Aquele tecido àspero lhe envolvendo o corpo.
A mãe chorando de alegria ali na mesa cirúrgica, enquanto ele aproximava o bebê o bastante para que o beijasse. O jovem fixou o olhar nas lágrimas de alegria com que ela dava as boas vindas ao seu esperado filhinho e pensou nas lágrimas que aquela mãe ali fora vertia de aflição pelo filho que ainda não sabia estar morto.
Que linha sutil, essa, que separa as duas lágrimas, pensou ele muitos anos mais tarde. Naquela hora ele experimentava a simultaneidade da alegria e da tragédia numa manhã de domingo, nada mais.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Quem quer ser feliz?

Seis da tarde, ar abafado, fumaça de caminhões e ônibus colonizando a pista. O ponto não está muito cheio. Três garotos com roupas muito iguais: bermudões largos, parecendo pendurados por milagre na cintura, camisetas não menos largas e tênis grandes e desamarrados. O celular de um deles tocando um rap rasgado e eles curtindo. Têm pulseiras e correntes nos pescoços, prateadas e grossas.
Duas mulheres conversam e dão risadas, balançam os corpos de tanto rir. Falam coisas engraçadas, fazem troça de si mesmas, falam da fulana que tem as pernas toras como alicates e se acha linda. Uma fala da dureza de andar de moto com o marido. Aquela moto pequena, barulhenta e velha, atrapalhando o trânsito e o capacete dela grande, que fica sambando na cabeça enquanto a moto vai chacoalhando pelo caminho.
Eu, possesso. Não me conformo com o fato de ter saído de casa sem minha carteira. Ainda mais que peguei uma carona até aqui e estou a uns vinte quilômetros de casa. E com aquela cara sem graça, tive que ligar e pedir para alguém me trazê-la até onde estou. Voltar é impossível. Alguém tem que vir até aqui para me buscar ou me trazer a carteira. Não tenho um tostão no bolso para voltar.
Elas continuam ali, se matando de rir e não estão bêbadas. Agora corre solta outra fofoca. O marido da outra, que não é o da moto, tem uma amante. O safado. Mas ela, a lambisgoia, é zarolha e manca. Aí elas voltam a se matar de rir. Ele, o marido, é alcoólatra – pelo que entendo de um sujeito que bebe todo santo dia, de cair – dorme uns dias em casa e noutros na casa da amante e deixa lá todo seu salário. Mas elas morrem de rir com o jeito da amante andar e dos seus olhos vesgos.
Um ônibus chega e os garotos vão nele. Descem uma senhora bem velhinha e um rapaz. Este espera quase dez minutos para atravessar a rodovia, que é exatamente onde estou. Numa rodovia, do lado contrário a uma favela, que sobe o morro até seu cume. Quando ele finalmente atravessa, correndo risco de ser atropelado, a velhinha vai longe pelo acostamento até entrar por uma viela e desaparecer.
Outros coletivos vão parando e pessoas descem, até que num deles uma das mulheres sobe, se despedindo da que ficou, e minutos depois chega um carro e dele desce outra senhora idosa. Apeou com umas cinco sacolas de supermercado e foi recebida com festa por aquela que ficou no ponto. Elas conversam alegremente e vão se afastando pelo acostamento.
A noite vem chegando sem pedir licença e o movimento fica mais intenso do outro lado, que vai para a cidade. Do meu lado aqui, só a carona me interessa.
A senhora retornou e ainda não fui embora. Chegou se sentando e falando boa noite. Ela é uma simpatia. Parece ser uma mulher ativa e me admiro quando ela me diz que tem mais de setenta anos. Recebe uma pensão de seiscentos reais do governo por fazer hemodiálise – ela tem diabete – e como o dinheiro é pouco, ela faz uns bicos como diarista. Setenta e três anos.
Diz que tem umas dores que atrapalham um pouco e que fica “meio cansada” – ela fala exatamente isto – quando vai fazer as hemodiálises três vezes por semana. Levanta da cama as quatro e a perua da prefeitura passa entre quatro e quatro e quarenta e cinco da manhã e retorna lá pelas sete da noite, pois tem mais gente que vai junto e até deixar todo mundo em casa já é tarde.
Nos outros dois dias que sobram ela faz bico como diarista. Arruma a casa e lava roupa. Não gosta de passar.
E agora ela veio trazer umas comprinhas para a filha, porque ela está desempregada e tem uma filha de quatorze anos que não ajuda e o marido é um bêbado safado que até amante tem e não põe um tostão em casa. Mas tudo bem, porque ela fica feliz em poder ajudar a filha. Uma pessoa tão boa, ela diz com admiração.

Quando minha carona chega entro no carro pensativo, tentando saber como é que se pode medir a felicidade.