domingo, 19 de janeiro de 2014

Quem quer ser feliz?

Seis da tarde, ar abafado, fumaça de caminhões e ônibus colonizando a pista. O ponto não está muito cheio. Três garotos com roupas muito iguais: bermudões largos, parecendo pendurados por milagre na cintura, camisetas não menos largas e tênis grandes e desamarrados. O celular de um deles tocando um rap rasgado e eles curtindo. Têm pulseiras e correntes nos pescoços, prateadas e grossas.
Duas mulheres conversam e dão risadas, balançam os corpos de tanto rir. Falam coisas engraçadas, fazem troça de si mesmas, falam da fulana que tem as pernas toras como alicates e se acha linda. Uma fala da dureza de andar de moto com o marido. Aquela moto pequena, barulhenta e velha, atrapalhando o trânsito e o capacete dela grande, que fica sambando na cabeça enquanto a moto vai chacoalhando pelo caminho.
Eu, possesso. Não me conformo com o fato de ter saído de casa sem minha carteira. Ainda mais que peguei uma carona até aqui e estou a uns vinte quilômetros de casa. E com aquela cara sem graça, tive que ligar e pedir para alguém me trazê-la até onde estou. Voltar é impossível. Alguém tem que vir até aqui para me buscar ou me trazer a carteira. Não tenho um tostão no bolso para voltar.
Elas continuam ali, se matando de rir e não estão bêbadas. Agora corre solta outra fofoca. O marido da outra, que não é o da moto, tem uma amante. O safado. Mas ela, a lambisgoia, é zarolha e manca. Aí elas voltam a se matar de rir. Ele, o marido, é alcoólatra – pelo que entendo de um sujeito que bebe todo santo dia, de cair – dorme uns dias em casa e noutros na casa da amante e deixa lá todo seu salário. Mas elas morrem de rir com o jeito da amante andar e dos seus olhos vesgos.
Um ônibus chega e os garotos vão nele. Descem uma senhora bem velhinha e um rapaz. Este espera quase dez minutos para atravessar a rodovia, que é exatamente onde estou. Numa rodovia, do lado contrário a uma favela, que sobe o morro até seu cume. Quando ele finalmente atravessa, correndo risco de ser atropelado, a velhinha vai longe pelo acostamento até entrar por uma viela e desaparecer.
Outros coletivos vão parando e pessoas descem, até que num deles uma das mulheres sobe, se despedindo da que ficou, e minutos depois chega um carro e dele desce outra senhora idosa. Apeou com umas cinco sacolas de supermercado e foi recebida com festa por aquela que ficou no ponto. Elas conversam alegremente e vão se afastando pelo acostamento.
A noite vem chegando sem pedir licença e o movimento fica mais intenso do outro lado, que vai para a cidade. Do meu lado aqui, só a carona me interessa.
A senhora retornou e ainda não fui embora. Chegou se sentando e falando boa noite. Ela é uma simpatia. Parece ser uma mulher ativa e me admiro quando ela me diz que tem mais de setenta anos. Recebe uma pensão de seiscentos reais do governo por fazer hemodiálise – ela tem diabete – e como o dinheiro é pouco, ela faz uns bicos como diarista. Setenta e três anos.
Diz que tem umas dores que atrapalham um pouco e que fica “meio cansada” – ela fala exatamente isto – quando vai fazer as hemodiálises três vezes por semana. Levanta da cama as quatro e a perua da prefeitura passa entre quatro e quatro e quarenta e cinco da manhã e retorna lá pelas sete da noite, pois tem mais gente que vai junto e até deixar todo mundo em casa já é tarde.
Nos outros dois dias que sobram ela faz bico como diarista. Arruma a casa e lava roupa. Não gosta de passar.
E agora ela veio trazer umas comprinhas para a filha, porque ela está desempregada e tem uma filha de quatorze anos que não ajuda e o marido é um bêbado safado que até amante tem e não põe um tostão em casa. Mas tudo bem, porque ela fica feliz em poder ajudar a filha. Uma pessoa tão boa, ela diz com admiração.

Quando minha carona chega entro no carro pensativo, tentando saber como é que se pode medir a felicidade.

2 comentários :

  1. É difícil mesmo medirmos a felicidade... Talvez cada um tenha sua ideia própria de felicidade. Gostei do texto, parabéns. lady viana

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