sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Vida e morte

Era uma manhã de domingo com todo o seu esplendor.
Sol radiante, movimento nas ruas, dia de feira, de mercado, de ir à praça, de encontrar os amigos.
O médico recém-formado estava de plantão no hospital. Um hospital grande e tradicional, que o enchera de orgulho quando fora aprovado no exame de residência.
Apesar da pouca experiência, já tinha vivido várias situações nos estágios anteriores, mas ali estava já como médico. Médico residente, mas médico.
Um chamado no centro cirúrgico; um bebê estava nascendo. Ao invés de ir pelo elevador, subiu pelas escadas amplas, para ganhar tempo e passou pelo saguão, onde havia também uma sala de espera e se deparou com uma cena triste. Um grupo, silenciosamente chorando, consolando os pais de um garoto que acabara de se acidentar na loja da família.
Entrou no setor procurando a sala de parto, local ainda desconhecido para ele. O lugar era amplo, com oito salas e logo na primeira uma equipe médica em frenesi, tentando reanimar o corpo de um jovem que jazia sobre a mesa, os braços suspensos, soltos, os campos cirúrgicos o cobrindo parcialmente, e um cirurgião fazendo-lhe massagem cardíaca a céu aberto. Tinha o coração do jovem nas mãos e era possível perceber seu desespero.
Ficou tão hipnotizado com a cena que só retornou a si quando ouviu o choro de um bebê, numa sala mais ao fundo. Levou um susto. Um enfermeiro que estava saindo da sala em que ele estava parado junto à porta disse que aquele que estava lá, massageando o coração do garoto de dezesseis anos era seu tio. Uma prateleira inteira caiu sobre ele, quando foi pegar uma mercadoria e a escada em que estava escorregou e ele tentara se segurar numa das tábuas, desabou tudo e ele teve esmagamento de tórax. E o tio era o cirurgião.
Ato contínuo correu para a sala de parto e foi recebido por um obstetra aborrecido com o seu atraso, talvez nem sabendo o que ocorria na outra sala.
Pegou nas mãos o pequenino, que chorava a altos brados avisando que era sua vez de sentir a dor do ar lhe penetrando os pulmões, de se incomodar com aquele mundo barulhento e estranho, aquelas mãos indelicadas o revirando e limpando. Aquele tecido àspero lhe envolvendo o corpo.
A mãe chorando de alegria ali na mesa cirúrgica, enquanto ele aproximava o bebê o bastante para que o beijasse. O jovem fixou o olhar nas lágrimas de alegria com que ela dava as boas vindas ao seu esperado filhinho e pensou nas lágrimas que aquela mãe ali fora vertia de aflição pelo filho que ainda não sabia estar morto.
Que linha sutil, essa, que separa as duas lágrimas, pensou ele muitos anos mais tarde. Naquela hora ele experimentava a simultaneidade da alegria e da tragédia numa manhã de domingo, nada mais.

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