quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Amarração

O balançar do ônibus dava mais sono, somado com o calor àquela hora da madrugada. Imagine como vai estar às dez horas.
Quando o ônibus parou num semáforo da Avenida São Miguel, viu um pequeno cartaz fixado no poste: “Amarração forte no Amor. Também Amarração Super Forte. Faço e desfaço qualquer trabalho”.
Anotou o número do celular. Passava por ali todos os dias e não tinha visto. Vira em outros lugares, mas nunca tão próximo do seu rosto, pouco acima da janela onde estava sentado, e o poste a menos de um metro da calçada. Quase no seu colo. Achou que fosse uma mensagem.
Chegou ao trabalho no horário habitual freguesia aos montes e com fome, esperando pão com manteiga e a média – mais escura, mais clara, quase branca de leite, quase preta de café. Um monte de xícaras e pratos para lavar.
Enquanto lavava, olhava o relógio que ficava na parede oposta ao balcão. O tempo custava a passar, apesar do trabalho que não dava tempo de nada. A cada olhadela o relógio parecia rir, zombando: não ando e não ando.
Até que enfim deram nove horas. Pediu ao patrão um minutinho, que precisava ligar. O português fez a cara de sempre. Parecendo ter até ter ficado vermelho de raiva.
Ligou e esperou:
- Alô.
- É sobre o anúncio – falou.
- Que anúncio? Ah, o anúncio, das amarrações, né? – dava para perceber o sono, ou devia estar dormindo, mesmo, pensou.
- Sim. Quanto é que custa? – queria resolver logo.
- Depende querido. Depende do que é pra fazer, entende? Se for uma amarração só para garantir, é um preço. Se for uma forte, sobe um pouquinho, até chegar na super. Aí o bicho pega, mas nada faz soltar – falava com desenvoltura de quem sabe o que está falando.
- A super, quanto é?
- Trezentos.
- Nossa.
- Serviço garantido. Tão garantido que não dá pra soltar depois, entendeu? Tipo assim, pra sempre.
- Nossa – falou admirado.
- Então... Vem aqui conhecer. Sem compromisso. Que tal?
Pegou o endereço. Era no caminho de volta, não muito distante da rota da condução. Tinha que resolver de uma vez.
Não tirava a mulher da cabeça. Estava mesmo desesperado. Desde que soubera da existência do outro, não conseguia pensar em outra coisa. E agora estava mais tranquilo, tendo conhecido aquela mãe de santo ou o que fosse e que parecia saber das coisas. Não ia deixar escapar, de forma alguma, afinal, parecia ser a oportunidade que tinha de reverter tudo. A situação o estava deixando doido, esta era a pura verdade.
O dia afinal chegou ao fim e ele voou para a o ponto e foi contando as quadras até chegar ao destino.
Era uma casa simples, com um pequeno jardim à frente, bem cuidado e que conferiu com a senhora que veio atender. Sorriso largo, sem muito falar, o conduziu a uma saleta iluminada por um abajur, com teto escuro e estrelinhas fluorescentes no teto. Sentiu ter entrado num ambiente que parecia fazer contato com o outro mundo. Seria passar pela outra porta ali e estaria do lado de lá, pensou, sentindo um arrepio descer a coluna.
- E o seu nome, meu filho? – ela perguntou com voz maternal do lado oposto de uma pequena mesa redonda, coberta com tecido vermelho, parecido com veludo e sobre ela uma peneira de palha com búzios e colares dentro.
Falou o nome e a data de nascimento, conforme lhe foi solicitado.
- É caso de amor, então?
- Sim – ele falou decidido, apesar de se lhe perceber sua timidez.
- E vai ser qual?
- Super.
- Hã – respondeu ela, satisfeita – então é trezentos. Vou precisar do seu nome e o dela.
- Mas não é pra mim, não.
- Como assim? Não entendi – falou a mística mulher, com alguma surpresa no seu olhar.
- É pra minha mulher e o amante dela. Quero que você amarre os dois pra sempre. Só assim eu me livro dela, da sogra e até do gato.
- Mas assim é mais caro – ela falou, olhando de lado e fazendo cara de mistério.
- Quanto?
- Trezentos e cinquenta.

- Fechado – falou sorrindo e tirando o dinheiro do bolso.

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