quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Carnaval

Estava excitadíssima com a experiência que estava para experimentar.
Já tinha ouvido de amigas que era sensacional. Via pela televisão toda aquela animação, sem contar a beleza e o luxo.
Não era lá um carnaval na Marques de Sapucaí, mas era carnaval no sambódromo em São Paulo. Bem mais respeitado que no passado.
A ponto de sambistas de lá virem sambar aqui. Puxadores de samba de lá idem. O carnaval paulistano, afinal, já vinha sendo bem agitado e com certo glamour, por que não.
O bastante para ser concorrido e desejado por quem não tinha tanta afinidade com samba no asfalto, mas a diversão e a experiência única de desfilar por uma escola justificariam aquele estado de excitação.
Agravado por um fato importante, senão fundamental: a fantasia não fora enviada pela escola até o dia do desfile.
Foram vários telefonemas, promessas não cumpridas, considerações. Enfim, tudo o que pode fazer com que uma mulher, prestes a realizar uma grande vontade, se sentisse ameaçada.
O resultado foi que precisou recorrer ao extremo de ir ao galpão da escola, na região da Penha, buscar a fantasia.
Não sabia para que lado ficava a Penha e muito menos a zona leste, mas, em busca da fantasia de carnaval, tudo valeria.
Era o tipo de mulher bonita, ao redor de seus trinta, trinta e cinco anos, profissional bem sucedida, solteira convicta e autossuficiente. Apesar da aura de autonomia e determinação, por vezes se sentia vítima da sorte insuficiente, de conspirações cósmicas contra suas vontades, coisas do tipo.
E, de fato, quando chegou ao galpão da escola, teve um primeiro choque ao saber que sua fantasia não estava lá. Pagara caro por uma belíssima fantasia com plumas coloridas, paetês, e tudo o mais que se necessite para uma fantasia reluzente e maravilhosa. Sairia num bloco com mais de duzentos integrantes. Sairia. A fantasia desaparecera. Além disto, precisou lidar com pessoas tensas e afobadas. Imagine o galpão de uma escola paulistana de respeito a algumas horas de entrar na avenida. Ainda mais quando aparece por lá uma branquela, que além de bonita, tem razão: cadê a minha fantasia? – não bem aos gritos, mas perto disto.
Gente bufando, senhoras não sabendo o que responder, fato é que puseram na mão da mulher outra fantasia. Provavelmente de alguém que não viera buscar.
Uma fantasia de dinheiro. Uma nota enorme, com apliques dourados, na qual se ficava dentro, só com o rosto para fora, por um buraco. Tinha o dourado. Aqui e ali, mas nem de longe era aquela fantasia maravilhosa que a fizera sonhar em estar na avenida.
Sem alternativas, sem ter a quem recorrer, era o que tinha em mãos e atirou-se com tudo. Houve um esforço adicional do motorista do taxi para conseguir colocar a alegoria no carro, pequeno para a empreitada, mas com jeitinho a fantasia foi para a avenida. Meio dentro, meio fora, a sua dona também, segurando a fantasia, se segurando para ela própria não cair do carro.
Aquela situação, que para outra pessoa qualquer poderia se tornar pura diversão, para ela doía. Tinha fama de pé frio entre os amigos e a família. Ela concordava e propagava até.
No ano anterior, contra a vontade dos pais e apesar de todas as recomendações, ela fora fazer um mergulho noturno no réveillon, com um pessoal experiente, mas ela passou um aperto porque se perdeu do grupo e o ar quase chegou ao fim. Foi resgatada no escuro, em algum lugar da baía de Santos, necessitando partilhar o ar do cilindro da sua dupla.
Em uma viagem pela Capadócia com a mãe, o navegador do balão em que estava, sobrevoando a paradisíaca região, fez um quase pouso e resolveu arremeter sem avisar o homem do solo, que ficou pendurado à corda de amarração e, não tendo forças para suportar ficar tanto tempo assim, soltou-se num voo fatal até o chão, machucando-se gravemente. Ela, sendo médica, acorreu ao incauto, com massagem cardíaca e respiração boca a boca. Havia mais de vinte pessoas nele e quase todos saíram para assistir o socorro. Quase porque ficou um casal no balão. De idosos. Por sorte alguém viu os dois subindo para os céus da Turquia, enquanto a doutora atendia o acidentado. Parte do grupo assistindo, parte correndo atrás da corda que ficara pendurada do balão, com os dois velhinhos em choque.
Na maioria das vezes, levava a coisa no bom humor. Em outras ficava um pouco chateada. Como num feriado prolongado, em que descera para o litoral com o namorado. O namoro estava no início. Na primeira semana. A falta de intimidade da coisa que começa ainda presente, o que deixa o processo até mais gostoso, com todas as descobertas e tal.
Ali entre uma cidade e outra, na Rio-Santos, um enorme barreira se colocou entre ela e o fim de semana. Ficou parada por doze horas. O mistério saboroso do início de namoro se transformou em tédio. Piorado por uma vontade louca de fazer xixi. Que foi no copo descartável mesmo, com ele olhando para o outro lado. O papo que acabou e a chuva que não parava.
Voltando ao delírio carnavalesco, a noite foi inesquecível. Nunca pulara tanto na vida. As bolhas nos pés foram a comprovação material da diversão impar. E também o trabalho todo que teve para levar sua fantasia para casa. Nenhum taxista estava disposto. Talvez tenha conseguido por haverem fantasias maiores circulando no entorno do sambódromo também à procura de condução.
Deixou a fantasia na área de serviço – que ocupou todo o recinto - e foi visitar a mãe na sua terra natal. Não teve a oportunidade de conversar com a empregada – ela morava só. Deixou um bilhete com mil recomendações a respeito da alegoria, dizendo, inclusive, que se sua escola fosse campeã ela, a empregada, poderia usar a fantasia e aproveitar o desfile.
Quando voltou, não encontrou nem fantasia, nem empregada. Só um bilhete:
“Patroa, sua escola perdeu. Foi rebaixada. Joguei a fantasia fora. Beijo.”

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