quinta-feira, 27 de março de 2014

Tesouros e pedrinhas

O calor abafado dá o tom de preguiça maior da tarde.
Tento esquecê-lo, mas me parece impossível.
Um improvável personagem vem descendo a rua, imerso na solidão de sua fala a ninguém. Gesticula amplamente, com certo vagar, como que imprimindo sua ação com dramaticidade extrema para algo que queira frisar ao interlocutor imaginário.
Está tão sujo, daquela sujeira encardida e antiga, que sua pele parece ter vários tons, várias idades. Incontáveis impregnações.
Como se eu tivesse pedido, para bem próximo e senta junto ao meio fio. E quando resolveu sentar veio com o olhar fixo em algo ali, no chão.
Ato contínuo começa a remexer a areia cinza chumbo, de tanta cidade e poluição e encontra umas pedrinhas. Pega-as com interesse maior, como se tivesse encontrado ouro ou coisa parecida. Faz um gesto de escondê-las na concha da mão, com alguma discrição, enquanto olha ao redor, procurando algum observador, talvez.
Volta a remexer o chão sujo e a cada pedrinha lhe dispensa o cuidado que mereceria uma pepita de ouro. Conversa baixinho e exibe ainda de forma sutil o que vai juntando na mão. Faz menção de guarda-las no bolso da camisa, mas desiste no meio do caminho.
Olha para o outro lado da rua, que para mim está vazio e reage a algo que não consigo perceber, jogando as pedras de volta na areia e levanta bruscamente, saindo em passo firme, pisoteando a calçada.
Sinto o odor desagradável da miséria, mas a despeito disto, ele sai em passo firme, com a cabeça erguida, com altivez determinada e sorriso irônico nos lábios.

O cheiro ainda resiste na falta da brisa e ele já vai longe, procurando outros tesouros no chão de ninguém. Ou pedrinhas, não sei.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vinte vírgulas

Discutiam com fervor. Os humores alternavam entre mau e bom com velocidade de raio. Momentos de trégua fugazes. Nada a negociar.
- Você é pretensiosa. Não sabe do que está falando.
- Você é quem não sabe, seu bobo.
- Bobo? Bobo? Sei quem é. Não é capaz de finalizar um assunto sem começar outro ou devanear sobre o mesmo.
- Como assim? Devanear? E você que só por orgulho infantil fica aí, recusando me usar, vamos! Alongue, estenda, amplie, use ideias. Sou a vírgula, meu caro. Sou eu quem permite a você ser mais do que é.
- Não sei como te suporto, prolixa assim – falou o ponto final com voz entediada.
- Muito bem! – exclamou feliz a vírgula.
- O quê?
- Até que enfim você me usou!
- Você ainda vai pagar caro. Vai gozando com a minha cara e vai ver – estava aborrecido.
- Que coisa, não? Você ainda não percebeu? Estamos juntos há tanto tempo e você fica aí, fugindo da realidade.
- Como assim? O que está falando desta vez? – tinha incredulidade na voz. O ponto final estava aborrecido mesmo – Tudo o que você faz é ficar possibilitando a firula. Possibilita a enrolação, a falácia, os desvios.
- Usou de novo!
- Pare de brincar! Falo sério. Tudo o que pode ser adiado, procrastinado, obscurecido, vem contigo. Aí eu chego e acabo com isto. E ponto final.
- Deixe disto, seu rabugento. Sou a pausa que te dá fôlego. Separo as repetições, realço o que for importante, sirvo para deixar algo no ar ou para trazer dele, permito frases umas nas outras, torno os textos mais ricos e belos.
- Aí eu chego e acabo com a farra. Ponto – o rabugento sentenciou com ar autoritário.

- Você é o fim – finalizou a vírgula.