quinta-feira, 27 de março de 2014

Tesouros e pedrinhas

O calor abafado dá o tom de preguiça maior da tarde.
Tento esquecê-lo, mas me parece impossível.
Um improvável personagem vem descendo a rua, imerso na solidão de sua fala a ninguém. Gesticula amplamente, com certo vagar, como que imprimindo sua ação com dramaticidade extrema para algo que queira frisar ao interlocutor imaginário.
Está tão sujo, daquela sujeira encardida e antiga, que sua pele parece ter vários tons, várias idades. Incontáveis impregnações.
Como se eu tivesse pedido, para bem próximo e senta junto ao meio fio. E quando resolveu sentar veio com o olhar fixo em algo ali, no chão.
Ato contínuo começa a remexer a areia cinza chumbo, de tanta cidade e poluição e encontra umas pedrinhas. Pega-as com interesse maior, como se tivesse encontrado ouro ou coisa parecida. Faz um gesto de escondê-las na concha da mão, com alguma discrição, enquanto olha ao redor, procurando algum observador, talvez.
Volta a remexer o chão sujo e a cada pedrinha lhe dispensa o cuidado que mereceria uma pepita de ouro. Conversa baixinho e exibe ainda de forma sutil o que vai juntando na mão. Faz menção de guarda-las no bolso da camisa, mas desiste no meio do caminho.
Olha para o outro lado da rua, que para mim está vazio e reage a algo que não consigo perceber, jogando as pedras de volta na areia e levanta bruscamente, saindo em passo firme, pisoteando a calçada.
Sinto o odor desagradável da miséria, mas a despeito disto, ele sai em passo firme, com a cabeça erguida, com altivez determinada e sorriso irônico nos lábios.

O cheiro ainda resiste na falta da brisa e ele já vai longe, procurando outros tesouros no chão de ninguém. Ou pedrinhas, não sei.

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