quarta-feira, 5 de março de 2014

Vinte vírgulas

Discutiam com fervor. Os humores alternavam entre mau e bom com velocidade de raio. Momentos de trégua fugazes. Nada a negociar.
- Você é pretensiosa. Não sabe do que está falando.
- Você é quem não sabe, seu bobo.
- Bobo? Bobo? Sei quem é. Não é capaz de finalizar um assunto sem começar outro ou devanear sobre o mesmo.
- Como assim? Devanear? E você que só por orgulho infantil fica aí, recusando me usar, vamos! Alongue, estenda, amplie, use ideias. Sou a vírgula, meu caro. Sou eu quem permite a você ser mais do que é.
- Não sei como te suporto, prolixa assim – falou o ponto final com voz entediada.
- Muito bem! – exclamou feliz a vírgula.
- O quê?
- Até que enfim você me usou!
- Você ainda vai pagar caro. Vai gozando com a minha cara e vai ver – estava aborrecido.
- Que coisa, não? Você ainda não percebeu? Estamos juntos há tanto tempo e você fica aí, fugindo da realidade.
- Como assim? O que está falando desta vez? – tinha incredulidade na voz. O ponto final estava aborrecido mesmo – Tudo o que você faz é ficar possibilitando a firula. Possibilita a enrolação, a falácia, os desvios.
- Usou de novo!
- Pare de brincar! Falo sério. Tudo o que pode ser adiado, procrastinado, obscurecido, vem contigo. Aí eu chego e acabo com isto. E ponto final.
- Deixe disto, seu rabugento. Sou a pausa que te dá fôlego. Separo as repetições, realço o que for importante, sirvo para deixar algo no ar ou para trazer dele, permito frases umas nas outras, torno os textos mais ricos e belos.
- Aí eu chego e acabo com a farra. Ponto – o rabugento sentenciou com ar autoritário.

- Você é o fim – finalizou a vírgula.

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