sábado, 20 de setembro de 2014

A Passagem

O dia amanhecera diferente. Como era o inverno chegando, parecia que ele estava se anunciando sem receio nenhum de chocar ou paralisar quem o percebesse.
Coisa de estação que chega assumindo sua hora exata de ali estar, linda, exuberante, com as cores mais para o prata, como se tivessem um brilho a mais, mas ao mesmo tempo dando um tom sutilmente mais escuro a todas as cores.
Aquele tom que define a luz mais fria do inverno.
A temperatura mais baixa o deixou confortável sob o traje de motociclista.
Saí de casa devagar, curtindo tudo a minha volta, pois era um dia diferente começando: sair da rotina estafante e passear com os amigos num lugar maravilhoso.
A rodovia Dom Pedro estava praticamente vazia naquele domingo e a moto parecia uma rainha passando pelos pátios do palácio.
Em pouco menos de uma hora alcancei o ponto de encontro, num posto pouco depois da última entrada para Atibaia. Ali eu me reuniria ao grupo que tocaria até Joanópolis, por uma estrada linda, à beira da represa, cheia de curvas e lindas paisagens.
Era um grupo de umas quatorze motocicletas e todos com a animação e camaradagem de sempre.
O líder da turma era um motociclista experiente, com milhares de quilômetros rodados por todos os cantos e com uma vontade de dividir com todos tudo o que sabia, o que o colocava na condição de líder naturalmente.
Deu as instruções do percurso ali no estacionamento, orientando sobre a necessidade de atenção redobrada quando se está em grupo, as centenas de curvas que teríamos pela frente e o cuidado redobrado com elas, pois naquele horário a humidade deixada pelo sereno ainda estaria presente nas folhas que caíam sobre o asfalto, tornando a pista muito escorregadia.
Qualquer vacilo ou desatenção pode ser fatal.
Os mais afoitos que se cuidassem, mesmo conhecendo a estrada.
Eu estava totalmente excitado já que era a primeira saída com a máquina nova, de mil e cem cilindradas, um ronco apaixonante e que parecia implorar: me acelera!
Além de mim, havia mais dois estreantes, um deles trajando uma roupa de couro novinha em tons de branco e azul, combinando com seu capacete também reluzindo a novo. O outro novato estava com uma roupa parecida com a minha e logo de cara – como fazem alguns novatos – ficamos juntos.
E o da roupa azul foi logo batizado de Jaspion e pareceu que o apelido só servia para ele, pois era um rapaz bem jovem, nissei e ainda por cima, aprovou o apelido. Para coroar, os tons de sua roupa eram semelhantes ao de outro integrante do grupo, só que veterano. E logo alguém disse que Jaspion era filho dele. Pronto. Estava feito o mote do dia. Zeppa seria o pai adotivo de Jaspion.
Tomamos o rumo da SP-036, que nos levaria até a cidade de Joanópolis.
A ida foi tranquila. O pelotão da frente, com os mais ligeiros desapareceu logo da nossa visão e fomos curtindo as curvas com calma, mesmo porque as recomendações do nosso capitão – era como o chamávamos – estavam ali presentes e as folhas molhadas não faltavam no asfalto.
Existe, nestas ocasiões, um diálogo entre os pilotos não verbal, com pequenos gestos que vão contando para quem está mais atrás, o que vai pela frente. É um exercício de camaradagem e solidariedade. Avisos de carro que vem chegando, de buracos, de outros obstáculos, de animais na pista. Enfim, era como se ficássemos a todo instante colocando nossos colegas a par de qualquer pequena ameaça à frente.
Quando chegamos ao portal da cidade, o grupo dos mais rápidos já estava em papo adiantado, todos desmontados das motos e conversando.
As motocicletas foram alinhadas lado-a-lado no acostamento e as fotos foram feitas.
Após um tempo, como não se conhecia nenhum café na cidade, provavelmente porque lá não tinha, o grupo tomou a decisão de voltar pela SP-063, que levava até Bragança Paulista e ali haveria uma parada para o café.
Eu me despedi de todos porque tinha outro compromisso e tinha horário para voltar. O colega novato como eu, com o qual eu havia iniciado uma conversa voltou também comigo.
O domingo continuava radiante e o silêncio da paisagem era quebrado somente pelo ronco dos motores.
Cheguei por volta de meio dia e logo me atirei nas tarefas previstas para aquele dia, quando lá pelas três ou quatro horas, o capitão me liga:
- Coisa chata pra te falar, irmão.
- Sério?
- Sério. O Charles sofreu um acidente, velho.
- Quem?
- O Jaspion! Charles, meu. Que nós apelidamos...
- Como assim? Que merda, velho! Nossa!
- O pior de tudo é que eu fui o primeiro a chegar. Eu pensei que era o Zeppa. Quase morri de aflição. Aí, quando eu retirei o capacete, vi que era o Charles. Coitadinho, meu. Estava tão orgulhoso da moto nova. Tinha vinte e um anos.
- Estou passado...
- Lembra o quanto eu falei das curvas? Então. Foi numa delas. Eu não vi, mas na hora que cheguei no acidente ele estava com a moto embaixo do carro. Não conseguiu fazer a curva e bateu de frente, mas inclinado, como se tivesse feito ela muito aberto, sabe?
- Capitão, que merda.
- Nem fale, garoto. Nem fale.
- Pegamos ele vivo ainda, mas estava muito pálido, sabe? Com todo cuidado levamos para a Santa Casa de Bragança, mas não deu tempo pra nada. O cara morreu, velho.
Silêncio.
- A única coisa que me consola é que ele estava fazendo algo que amava muito e aquela alegria toda dele... o orgulho de ter comprado a moto tão jovem, com recursos próprios, enfim, é isso aí, irmão. Reze por ele.
Quando desligou, eu já estava sentado no chão do quintal e ali devo ter permanecido um tempo.
Uma tristeza profunda se apossou de mim e pensei em Charles por longos dias. Rezei por ele. Imaginei a tristeza de seus pais, de sua namorada. Pensei nos detalhes que depois inevitavelmente toma conta do assunto entre os amigos.
Pensei nos meus filhos. Pensei na minha vida. Pensei...
Quando dei por mim, muitos dias haviam passado e percebi que a dor daquela perda marcara meu coração de forma sutil e indelével.
Percebi também que não fizera a barba por muitos dias e achei por bem deixa-la, propondo-me a cortá-la quando eu tivesse certeza de que a dor pela morte de Charles tivesse se transformado em saudade somente.
O tempo que se seguiu foi particularmente difícil para mim, restando como uma época crucial e de fortes e definitivas decisões a serem tomadas, mas que não são, nem de longe, o que prevalece nestas linhas.
Um belo dia, bem cedo, naqueles segundos que precedem o acordar e que tudo parece real a ponto de se poder tocar, sentir cheiros e gostos, ouço um tremendo ronco de motocicleta, daquele jeito que se faz quando se espera o sinal abrir.
Vejo-me num lugar paradisíaco, com um gramado de um verde estonteante e margaridinhas espalhadas por todos os cantos. Podia lhes sentir o perfume naquela manhã do inverno que se anunciava novamente e ao olhar para onde se originava o barulho da motocicleta, eu vejo Charles, o Jaspion, sobre sua maravilhosa máquina transbordando de alegria.
Fiquei paralisado, sem conseguir sequer soltar um grunhido que fosse.
Charles estava ali, diante de mim, com um sorriso contagiante, me mostrando que estava feliz, onde quer que estivesse e a serenidade dos seus olhos me mostrou que era hora de transformar a dor em saudade. A seguir acelerou dando meia volta e rapidamente sumiu na paisagem sem fim.
Acordei de um sobressalto, ofegante, mas rapidamente fui tomado de uma alegria imensa e não consegui conter o choro.

Ato contínuo, fui ao banheiro para fazer a barba de um ano e constatar que Charles se despedira no dia do aniversário de sua passagem.

Um comentário :

  1. Sebastião
    Prazer enorme receber você no meu blog bagunçado e tentando levar mais poesia.
    Li seu conto e viajei na garupa dessa moto. É tão gostoso quando as palavras escorregam dos nossos dedos não é? Sutil e indelével... Duas palavras mágicas amigo.
    Amei! Bj Y

    ResponderExcluir