quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O sapeca


“Ai, ai... Agora eu consigo. Ela não me viu sair e agora eu vou conseguir. Eu tenho só que chegar ali no corredor e descer a escada. Na horinha em que eu conseguir isto, mais uns dois ou três passos, chego à bicicleta e pronto! Lá vou eu. Tá certo que ela me pôs de castigo tudo bem, foi injusto, mas ela me pôs. E ela ganha sempre, porque na maioria das vezes eu não consigo fugir, mas quando eu consigo é bom demais. Pedalo, pedalo, pedalo, sem parar. Consigo sair daqui rápido e em poucos minutinhos já estou lá no Largo da Matriz, dando a volta na praça e dando adeus pra todo mundo. Depois eu pego a Rua Direita e vou embora, sempre reto e quando chego à rua do cemitério, alegria! A rua é de terra e lá vou eu despencando morro abaixo. Com tudo! Só que primeiro eu tenho que me livrar dela, que fica tomando conta de mim o dia inteiro e não me deixa passear. Tá bom, tá bom! Eu tenho que comer, tomar banho, essas coisas chatas, mas me deixa passear, pelo amor de Deus! Nossa! A empregada quase me  viu! Tá limpando a sala e quase me viu. Essa foi por pouco! Quase me pegou, mas eu fui mais esperto! Se fui! Poxa! É só uma voltinha, caramba! E hoje é feriado e não tem lição de casa. Aquelas coisas chatas que a professora dá e tenho que ficar fazendo um tempão. Pronto1 olha a bicicleta aqui! Agora é conseguir chegar no portão. Ai, meu Deus, vai logo, vai logo. Consegui! Consegui! Calma, pessoal! Volto logo, tá?”

- Lourdes! Lourdes! Ai, Jesus, onde está essa enfermeira? Assim eu não termino este serviço nunca... – exclamou a faxineira.

- Fale, Maria! O que foi? – pergunta a voz feminina do andar superior.

- O velhinho escapou do quarto de novo antes de você dar banho e tá ai na bicicleta de ginástica! Acho que ele tá cagado...

- Ô inferno, esse velho não dá sossego mesmo. Logo hoje que é feriado e as visitas vão começar a chegar – resmungou enquanto ela e mais duas banhavam um paciente no leito – o dia vai ser cheio.


E suas parceiras anuíram.

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