quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O infinito meu - PARTE 1

A mãe tinha sempre a sensação de coisa nova e parecia estar chegando ali pela primeira vez.
De fato, não podia se recordar.
Um longo tempo já ia e não conseguia lhe avistar o começo, como a imagem de um imenso dragão chinês o qual lhe era possível somente avistar a cauda, pois a cabeça adiantava-se a ponto de já não deixar lembrança da carranca que ostentava.
O quarto, no início, era assim, um quarto comum. De gente comum. De uma criança comum. Uma cama, uma mesinha de cabeceira com um pequeno abajur de porcelana e a cúpula branca adornada com filó da mesma cor e pequenos bordados imitando flores; o guarda roupas de três portas, antigo, de madeira pesada e puxadores amarelados nos pontos de contato com as mãos e com azinhavre nos pinos que os fixavam nas portas. A luminária bem básica, dessas baratas com um bojo branco e o plafon fosco. No chão um tapete pequeno, que servia para se colocar os pés fora da cama sem tomar um susto com o chão frio. A janela de madeira, com vidraças e persianas não menos comuns. O cheiro também, com cheiro de cera recém aplicada e o armário com cheirinho de sabonete.
Ouvia-se que desde que iniciara engatinhar pela casa, já juntava coisas e as levava para o seu quarto. Foi ocupando os espaços de tal modo que de tempos em tempos a mãe tinha que fazer uma limpa.
Aprendeu, com o tempo, que não devia guardar restos de comida, papeis de embrulho, tubos vazios de pasta de dente, caixa de ovos, mas de fato, portava-se como um bichinho obsessivo, que tudo o que encontrasse fora do lugar seria levado para seu quarto.
Certo afirmar que com isto a casa ficou mais em ordem, ou, pelo menos, com quase nada fora de gavetas, caixas e armários, pois bastava algo à vista para ir parar no infinito particular de Serginho.
Quando entrou na escola, sua mãe nutria a esperança de que ele mudaria, deixando de lado aquela mania de guardar o que lhe viesse pela frente, mas qual.
Com toda a paciência, em muitas ocasiões o ajudou a organizar a confusão que se formara e o via meio perdido, com o olhar vago. Aflita, sentava-se ao seu lado e propunha uma organização, qualquer uma. Ele escutava atento, como que se grudando às palavras da mãe para esquecer o seu recente problema e então ele esboçava um sorriso tímido, suspirava. Tá vendo, mãe? Eu sabia que dava! E ela lhe devolvia o sorriso com espirito aflito. Não sabia o que ele estava pensando, mas os olhinhos e as mãos pareciam ter voltado ao seu estado normal.
Em pouco tempo estava organizando as coisas sistematicamente, em caixas, embrulhos, sacos resistentes, poderia guardar suas coisas de um jeito mais fácil de saber onde tudo estava, afinal, era o que parecia ter importância. Saber onde tudo estava, mesmo que não fosse para seu uso. Importante era saber onde estava. O quê e onde.
Na adolescência, o seu grau de organização era tal, que seu pai lhe entregara a guarda de várias coisas que ele próprio vivia procurando quando era necessário, como uma chave de fenda ou um recibo do aluguel. Recebera um local no quarto só para suas coisas. Assim acontecera com seu irmão, que já não habitava o mesmo quarto havia alguns anos, desde que se mudara para longe e coisas ficaram para trás que sua mãe não quisera dispor. Ela mesma lhe pediu um cantinho e ali tinha também algumas quinquilharias inúteis, mas que a faziam se sentir parte daquilo tudo.
Ele falava cada vez menos, mas todos ali pareciam entende-lo e curiosamente desde cedo não foi pressionado a ser mais claro, como se tivessem entendido seu jeito desde sempre.
A esta altura as paredes já não eram possíveis de se enxergar e a janela estava emoldurada por caixas e prateleiras. Sua cama estava num espaço pequeno e apertado. Caixas e prateleiras a rodeavam e para se chegar nela era necessário fazer duas pequenas curvas entre tudo o que se amontoava com razoável ordem, por incrível que possa parecer, além de se ter a sensação de que a distancia percorrida era bem maior que a real. O estreito corredor acabava nos pés da cama e sua cabeceira ficava em frente a janela, a uma distancia desta de um metro e meio, mais ou menos, ou o comprimento de três caixas grandes, ou cinco menores.
Serginho dava tão pouco trabalho que em algumas ocasiões seus pais se perguntavam quando teria sido a ultima vez que o viram. Foi hoje pela manhã quando voltou da escola ou ontem quando foi dormir?
Assustados com tanta displicência, chegavam a porta do quarto chamando de mansinho e ele sempre estava por ali -  falavam assim baixinho porque tinham a impressão de que ele estava num lugar mais distante, com a voz abafada por um longo corredor ou passadiço.
- Você está bem, filho?
- Você não vem comer?
Em alguns minutos ele surgia com o mesmo ar tranquilo, sempre tão quieto que tinham dúvidas de que ele entendesse as coisas, apesar de nunca ter apresentado a menor dificuldade para aprender. Suas notas escolares e elogios dos professores falavam de algo oposto ao que receavam.
Desde pequeno ele agia como se estivesse olhando um mundo à parte. Passava longos momentos olhando para o vazio e seus olhos se moviam como se estivesse enxergando coisas que não podia ver também. Ficavam aflitos. Chamavam por ele e até que lhes voltasse a atenção, parecia relutar em faze-lo, não querendo deixar de olhar ou atender o que lhe prendia.
Chorava pouco ou quase nada quando bebê. Não se irritava com facilidade. Sorria sempre. Nunca ficava doente. Mas faltava alguma coisa. Assim sentiam. Sentiam, mas não dividiam entre si. Pareciam saber que o outro sabia. Entretanto, esse era um assunto de pouca fluência e que se esgotava nas primeiras palavras.
Uma coisa que intrigava o pai era o fato de que, com o passar dos anos, mesmo não contabilizando com a razão e sim vitimando-a com a complacência paterna que minimiza e subestima fatos e contas, desde que sejam de filhos, era que tinha certeza de que tudo o que seu filho carregara para dentro daquele quarto sobrava em relação ao que de lá saíra. Mas o tempo vai passando e dúvidas maiores tornam-se menores, o que aflige agora e chega a tirar o sono, logo que amanhece e vai embora com o dia.
Houve até uma ocasião em que, tendo chamado o garoto várias vezes sem resposta, chegou até a cama dele, passando por aquele vão chamado de corredor, e ao chamar mais uma vez, teve a nítida impressão de que ouvira a resposta dele saindo de uma caixa maior, que ficava abaixo da janela e podia jurar que havia uma fraca luminosidade saindo pelas frestas da tampa, mas de pronto desviou o olhar e ao retornar à mesa do almoço, onde sua mulher os aguardava, simplesmente tomou seu lugar nada comentando sobre o fato estranho, apesar de, no início do trajeto, ter imaginado confessar a ela este pequeno desassossego que o acometera.
De fato o filho preferia ficar por trás das caixas de um dos cantos, que formava um cubículo escuro e silencioso.
Cria ter adicionado mais um segredo em relação a esposa. Mais um entre tantos outros que se acumulam à medida em que a convivência pacífica muitas vezes significa pequenas omissões e até discretas inverdades. Nada que se iguale a um pecado mortal ou coisa assim, mas é o suficiente para, aqui e ali, ser tomado por um remorso de ter perdido oportunidades de dividir o fardo.
Por seu turno, talvez ela, a mãe e esposa, tivesse mais segredos ainda. Afinal estava ali o dia todo. Entrava e saía do quarto com mais frequência, inclusive quando ele estava na escola.

Quando ele era menor, a mãe mexia nas caixas toda vez em que precisava por uma ordem no quarto, mas conforme ele foi crescendo e os espaços foram diminuindo no cômodo, ela entrava com a desculpa da arrumação necessária. A curiosidade a movia. O menino não tinha saído, pelo menos que o visse. A cama vazia e a janela fechada deixavam suspensa no ar a pergunta: onde tinha se enfiado?

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Seja sincero

Aquele gosto azedo não quer largar minha boca, fazendo com que minha língua tenha uma sensação insuportável nas beiradas e a parte que encosta na garganta pareça estar coberta por areia.

Não sei porque hoje estou sentindo isto de maneira mais intensa. O gosto ruim, vez por outra acontece, mas não incomoda tanto; e olhe que hoje o gosto não está mais intenso, entretanto incomoda mais. Como ainda não tinha incomodado, aliás.

Tem dias que acordar é constatar que o dia vai ser como a minha boca está hoje: azedo. O dia azedo, porque a boca é azeda.

Além de azedo estou também um tanto rabugento, percebi agora.

Percebi agora e o verbo já é passado. Acabei de perceber e conjugo percebi e acabei. Estou fazendo um relato e a cada fato já é passado. Bem, por isto é fato. O presente acontece e ainda não foi.

Quando abri os olhos, senti que ia ser desse jeito e os dias assim são mais penosos, como se as horas se grudassem nas coisas, nas paredes, no chão, na cama e deles não se soltassem, ou se o fizessem seria de má vontade, como que soltando aos poucos para ver se te irrita mais.

Já estou querendo muito, para alguém que acabou de acordar: gosto ruim na boca, o azedume do meu humor, minha rabugice, e as horas que estão e vão se arrastar o tempo que elas resolverem que assim será.

Para tentar me convencer que talvez não seja assim tão ruim, aquele pequeno pássaro entrou pela janela e fica dando pequenos voos para todos os lugares do quarto, num canto meio desesperado, é certo, mas não sei se comemora a aventura ou se não consegue encontrar a saída.

Está tão afobado que não percebeu os farelos de torrada sobre a mesa de cabeceira e fico imaginando se uma horas destas ele não poderia fazer uma aterrisagem exploratória bem na minha testa. Seria inusitado, vibrante, e, porque não, extremamente excitante, ter aquele pequeno inquieto bem na minha testa, saltitando e cantando.

Que pena, ela entrou e espantou o passarinho. Tinha que ser. Tem que pegar aqui a bandeja do café da manhã e leva-la embora, para daqui a pouco eu tomar meu banho.

A vantagem de sentir somente a língua é que não consigo associar o mau cheiro que sai das minhas feridas à dor. Como posso estar apodrecendo sem sentir nada, eu me pergunto. Bem certo também que não faço nenhum movimento. Em compensação não sinto dor.

Mais uma vantagem: a de não saberem da minha consciência. Não preciso fazer media com ninguém. E acabei conhecendo todos os que se aproximam sem disfarces. São o que são sem dó nem piedade.

Só faço rir. Rir não, gargalhar. É o que faço o tempo todo.

Aqui todos entram e se mostram, e se eu conseguisse escrever sobre cada um deles o mundo teria vergonha de acordar, porque afinal, somos todos nós assim, hipócritas, medíocres e previsíveis.

Juro que a surpresa e o horror foram enormes no começo disto tudo. O tempo, artesão que é, foi moldando minha experiência e, não me pergunte como, estou hoje mais liberto do que quando, antes de passar a morar neste corpo inerte, eu vagava pelo mundo feito alma penada. Feito esses daí que me rodeiam e esperam minha morte.


E fico pensando se não estamos aqui só esperando a nossa hora. Ou fazendo hora. E você aí, lendo esse texto? Não está fazendo hora também? Seja sincero. Ninguém vai saber, juro.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um domingo qualquer

O dia começou como outro qualquer, exceto que era domingo e isso era o motivo da agitação e alegria. Todos iriam à cidade, encontrar amigos, parentes, compadres. Falar do que acontecera na roça durante a semana, o algodão colhido, o milho da safrinha para quebrar, que ainda a chuva não deixara, o feijão que quase apodrecia na terra úmida.
Os vales da região faziam daquele lugar lindo e paradisíaco um paraíso para quem chegasse, parecendo uma exceção na Terra, com encostas verdes descendo ao rio que serpenteava as montanhas. As pedras de todos os tamanhos salpicavam o terreno.
Gente determinada, pois o que a beleza esbanjava, o trabalho padecia. Cultivar nas encostas e em meio às pedras dava àquela gente um jeito especial de se relacionar com as coisas.
Labuta, sacrifício, luta, batalha. Trabalho ali era os adjetivos que demonstrassem dificuldade e suor. O substantivo em si pouco dizia. Trabalho era para outros lugares.
Daí a alegria no domingo. Tudo era festa.
As crianças se agitavam numa alegria incontida. Dia de vestir a roupa diferente, com sapato de amarrar, vestido rendado, fitas nos cabelos. A mãe cuidando para os meninos não chegarem sujos a igreja. Aquela menina que não parava quieta também. O pai olhando em silêncio, preparando um palheiro.
Aboletam-se todos na F-50 velha, a cabine predominando em vermelho, pois que carro antigo tinha reposições com partes que se encontrasse, como uma porta azul e um pára-choques branco. Um momento de espera de todos, para que o pai conseguisse colocar o motor funcionando.
Das crianças na carroceria poder-se-ia ouvir seus pequenos corações batendo agitados e chegavam a sentir cócegas na boca do estomago, tamanha a aflição de se misturar na agitação da cidade.
Finalmente o motor pega e um ronco de escapamento furado avisa que a excursão vai começar.
Casa trancada, galinhas no galinheiro, enfim, as criações, que já haviam sido tratadas, estavam devidamente presas nos seus criadouros.
A velha caminhonete sai, como que se esperneando rumo ao primeiro morro, uma íngreme ladeira, mais parecendo um carreador, da largura do carro, com cascalhos e seixos ali jogados se misturando à terra vermelha, que de tanta umidade pegava uma cor avinhada.
As correntes presas aos pneus ajudavam o veiculo ir ganhando terreno, centímetro a centímetro, enquanto as crianças conversavam sobre alguma coisa muito importante e sua mãe e avó na cabine olhavam para o topo do morro que já subiam havia mais de duas décadas.
A cada patinada ou pedra que vencia, era como se ela soltasse um suspiro de alívio, mas na verdade era o motorista que procurava dar um giro a mais, para lhe dar um fôlego. Essa, pelo menos, era a sensação, e balançando à beira da encosta, como um paquiderme preguiçoso, atingiu o alto do morro e ganhou a estrada principal, que levaria à cidade.
A grota que se avistava dali, com a casa ainda expelindo a fumaça do café-da-manhã pela chaminé do fogão a lenha, os animais em torno dela era um quadro reconfortante cada um deles naquele carro.
Já na estrada, o carro ainda teria que subir até o alto e então começar a descer, para subir e descer mais três ou quatro vezes até a cidade. Duas léguas. Pouco menos de uma hora.
No caminho o vizinho com a mulher iam pela beira da estrada, com uma criança caminhando ao seu lado, de mãos dadas e outra de colo, coberta por uma manta clara de lã.
Parou ao lado deles. A mulher com a criança entrou na cabine. A vovó sentou-se no colo da filha e a carona acomodou-se com a criança junto a porta. O marido se acomodou na caçamba com as crianças. Muitos bons dias e sorrisos de boas vindas.
Neste ponto a caminhonete era uma profusão de cores e alegrias, ainda que contidas em discretos sorrisos e comentários tão discretos, que eram mais guturais.
Na segunda subida, apesar de estrada vicinal, ela se estreitava demais, suficiente, quando muito, para um único carro, pois uma pedra enorme não deixara muito para a estrada, que se afunilava dramaticamente neste ponto. Havia que ser do lugar para passar sem susto ou atropelo.
A caminhonete chegou rangendo e dando uns estouros no escapamento e o gás de cozinha adaptado cheirava forte. Rabeando um pouco, já que não tinha tração nas quatro rodas ela foi chegando ao ponto: era preciso avançar sem parar para ela não patinar, ao mesmo tempo que com velocidade mínima, dada a largura escassa da passagem.
O motorista, acostumado com o caminho, ia dirigindo com a atenção de sempre. Naquele dia a passagem estava complicada pela chuva que caíra abundante e o barro quase preto se acumulava desde a pedra, na metade da estrada até sua beirada, para um barranco de altura suficiente para ser chamada de Pedra do Medo.
Embicou a dianteira em primeira marcha e vagarosamente avançou até que a carroceria fosse ultrapassando este ponto. Uma pedra no chão ou uma falha do terreno fizeram com que ela desse uma pequena rabeada para a esquerda e, ato contínuo, o volante foi direcionado para o lado oposto, tentando corrigir a trajetória. Quando ela tentou retornar ao veio do caminho, a carroceria deu uma batida forte na pedra, fazendo com que ela rabeasse mais forte para o lado do morro.
Acelerando o mais que podia, o compadre Rolim, como era conhecido, tentou reintroduzir o veículo no seu caminho, mas ela não conseguia e aos poucos, com o motor em alta rotação, moveu-se com as duas rodas para o lado, colocando-a de ré para o precipício.
Tentou ainda acelerar mais um pouco e não conseguindo pisou nos freios de maneira brusca, fazendo com que a mulher com a criança no colo soltasse um grito curto e não muito alto, e seu marido imediatamente pulou da carroceria e abriu a porta do passageiro. Ainda deu uma olhada para o compadre, que não desviou os olhos do volante.
Tirou as outras duas mulheres de dentro. A caminhonete já ia patinando para trás. As crianças conseguiram pular, ajudadas pelo empregado que estava com elas. A esta altura todos gritavam para o compadre, pai e marido saltar, mas ele estava paralisado, co os olhos vidrados em algum lugar que não parecia deste mundo.
De tanto patinar ela deu meia volta e capotou uma, duas, três, quatro vezes, ganhando terreno morro abaixo, e as portas abertas como as asas de um pássaro que cai do céu desgovernadamente.
Os dois homens desceram correndo pelo caminho de mato quebrado que ela deixou e chegaram lá embaixo, admirando-se da posição em que ela ficara presa à copa de um grande ingá.
Pela inclinação do morro, chegaram à cabine com facilidade, vendo que o compadre estava preso às ferragens, tentando respirar com dificuldade e o sangue escorrendo de sua cabeça e de mais algum lugar do corpo, que não se identificava onde.
Eles abordaram a situação, sentindo a gravidade do momento.
Compadre Rolim, que era homem de poucas palavras, respirava ruidosamente, manifestando uma dor intensa:
- Está todo mundo bem – ele sussurrou, ao que o homem sinalizou que sim – e o bebezinho também? Que bom, meu Deus.. Eu não ia me perdoar.
Segurando o volante ele foi perdendo a consciência até largar as mãos e fechar os olhos.
Os dois homens retiraram os chapéus respeitosamente e fizeram sinal da cruz.

O dia seguia nublado. O sem-fim começou a cantar como que anunciando a triste notícia.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sonho ou crônica?

Você estava sentada de lado, com as pernas fletidas sobre o sofá, deixando os joelhos mostrarem como eram belos, assim como suas coxas, que o vestido vermelho exibia até a metade, e, sendo ele curto e algo justo, modelava majestosamente seu corpo como um todo, e o decote dava um toque especial aos seus seios, moldando o colo que hipnotizaria o mais frio dos homens, por ter o tamanho certo, sem exageros.
Cabelos fartos, cortados rente à nuca, um par de brincos em ouro branco e diamantes e a maquiagem sensual, com riscas marcantes nas pálpebras e o batom rouge completavam o quadro magnifico, sem dar chance que qualquer desejo de retoque.
Seus olhos negros entretanto deixavam transparecer uma insegurança, e a forma como você levou o charuto à boca, que estava entre os dedos de sua mão direita, fazendo um bico desajeitado, de quem não sabia como faze-lo, e a sua mão esquerda que antes da excursão do charuto à boca, acariciavam a própria perna, agora estava indecisa, vagando entre um roçar das unhas longas e ferinas no joelho e o lóbulo da orelha esquerda, às vezes nas pontas dos cabelos.
Pensei que você fosse engasgar com a fumaça, pois quando a puxou sem tragar, não assoprou com a força suficiente para que ela fosse para longe do seu nariz, mas me surpreendendo, você a aspirou pelo nariz mesmo, me olhando de lado.
O ambiente com pouca iluminação, que antes lhe dava o toque de mistério tornou-se somente escuro e as sombras intimidadoras.
Talvez eu não lhe tenha dito, talvez você não tenha ouvido quando falei, mas isso não tinha mais importância; nenhuma mesmo. Todavia, sinto necessidade de dize-lo.
Não negue sua natureza assim, dessa forma.
Deixe que seu perfume me inunde até me sufocar.
Use essas unhas ferinas para me acariciar até que fique totalmente dominado pelos arrepios, fazendo com que eu vibre e viaje com cada pelo eriçado do meu corpo.
Esta sua boca sensual, macia e carnosa, me beijando até que eu me desfaleça no seu colo, colocando-me num lugar cercado de branco e azul celeste até me cegar.
Mas, ao invés de pegar este charuto asqueroso no final, abra seu peito, escancare seu coração, entregue-o a mim pulsando e se deixe inundar pelo meu amor.

Só isto poderia nos salvar.