quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Seja sincero

Aquele gosto azedo não quer largar minha boca, fazendo com que minha língua tenha uma sensação insuportável nas beiradas e a parte que encosta na garganta pareça estar coberta por areia.

Não sei porque hoje estou sentindo isto de maneira mais intensa. O gosto ruim, vez por outra acontece, mas não incomoda tanto; e olhe que hoje o gosto não está mais intenso, entretanto incomoda mais. Como ainda não tinha incomodado, aliás.

Tem dias que acordar é constatar que o dia vai ser como a minha boca está hoje: azedo. O dia azedo, porque a boca é azeda.

Além de azedo estou também um tanto rabugento, percebi agora.

Percebi agora e o verbo já é passado. Acabei de perceber e conjugo percebi e acabei. Estou fazendo um relato e a cada fato já é passado. Bem, por isto é fato. O presente acontece e ainda não foi.

Quando abri os olhos, senti que ia ser desse jeito e os dias assim são mais penosos, como se as horas se grudassem nas coisas, nas paredes, no chão, na cama e deles não se soltassem, ou se o fizessem seria de má vontade, como que soltando aos poucos para ver se te irrita mais.

Já estou querendo muito, para alguém que acabou de acordar: gosto ruim na boca, o azedume do meu humor, minha rabugice, e as horas que estão e vão se arrastar o tempo que elas resolverem que assim será.

Para tentar me convencer que talvez não seja assim tão ruim, aquele pequeno pássaro entrou pela janela e fica dando pequenos voos para todos os lugares do quarto, num canto meio desesperado, é certo, mas não sei se comemora a aventura ou se não consegue encontrar a saída.

Está tão afobado que não percebeu os farelos de torrada sobre a mesa de cabeceira e fico imaginando se uma horas destas ele não poderia fazer uma aterrisagem exploratória bem na minha testa. Seria inusitado, vibrante, e, porque não, extremamente excitante, ter aquele pequeno inquieto bem na minha testa, saltitando e cantando.

Que pena, ela entrou e espantou o passarinho. Tinha que ser. Tem que pegar aqui a bandeja do café da manhã e leva-la embora, para daqui a pouco eu tomar meu banho.

A vantagem de sentir somente a língua é que não consigo associar o mau cheiro que sai das minhas feridas à dor. Como posso estar apodrecendo sem sentir nada, eu me pergunto. Bem certo também que não faço nenhum movimento. Em compensação não sinto dor.

Mais uma vantagem: a de não saberem da minha consciência. Não preciso fazer media com ninguém. E acabei conhecendo todos os que se aproximam sem disfarces. São o que são sem dó nem piedade.

Só faço rir. Rir não, gargalhar. É o que faço o tempo todo.

Aqui todos entram e se mostram, e se eu conseguisse escrever sobre cada um deles o mundo teria vergonha de acordar, porque afinal, somos todos nós assim, hipócritas, medíocres e previsíveis.

Juro que a surpresa e o horror foram enormes no começo disto tudo. O tempo, artesão que é, foi moldando minha experiência e, não me pergunte como, estou hoje mais liberto do que quando, antes de passar a morar neste corpo inerte, eu vagava pelo mundo feito alma penada. Feito esses daí que me rodeiam e esperam minha morte.


E fico pensando se não estamos aqui só esperando a nossa hora. Ou fazendo hora. E você aí, lendo esse texto? Não está fazendo hora também? Seja sincero. Ninguém vai saber, juro.

Um comentário :

  1. Oi Seba, muito apropriada essa reflexão. Acho que também estou fazendo hora sim, mas chamo de 'ócio criativo' - não fazer nada e apenas viver o tempo que tempo tem.
    bj y

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