quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um domingo qualquer

O dia começou como outro qualquer, exceto que era domingo e isso era o motivo da agitação e alegria. Todos iriam à cidade, encontrar amigos, parentes, compadres. Falar do que acontecera na roça durante a semana, o algodão colhido, o milho da safrinha para quebrar, que ainda a chuva não deixara, o feijão que quase apodrecia na terra úmida.
Os vales da região faziam daquele lugar lindo e paradisíaco um paraíso para quem chegasse, parecendo uma exceção na Terra, com encostas verdes descendo ao rio que serpenteava as montanhas. As pedras de todos os tamanhos salpicavam o terreno.
Gente determinada, pois o que a beleza esbanjava, o trabalho padecia. Cultivar nas encostas e em meio às pedras dava àquela gente um jeito especial de se relacionar com as coisas.
Labuta, sacrifício, luta, batalha. Trabalho ali era os adjetivos que demonstrassem dificuldade e suor. O substantivo em si pouco dizia. Trabalho era para outros lugares.
Daí a alegria no domingo. Tudo era festa.
As crianças se agitavam numa alegria incontida. Dia de vestir a roupa diferente, com sapato de amarrar, vestido rendado, fitas nos cabelos. A mãe cuidando para os meninos não chegarem sujos a igreja. Aquela menina que não parava quieta também. O pai olhando em silêncio, preparando um palheiro.
Aboletam-se todos na F-50 velha, a cabine predominando em vermelho, pois que carro antigo tinha reposições com partes que se encontrasse, como uma porta azul e um pára-choques branco. Um momento de espera de todos, para que o pai conseguisse colocar o motor funcionando.
Das crianças na carroceria poder-se-ia ouvir seus pequenos corações batendo agitados e chegavam a sentir cócegas na boca do estomago, tamanha a aflição de se misturar na agitação da cidade.
Finalmente o motor pega e um ronco de escapamento furado avisa que a excursão vai começar.
Casa trancada, galinhas no galinheiro, enfim, as criações, que já haviam sido tratadas, estavam devidamente presas nos seus criadouros.
A velha caminhonete sai, como que se esperneando rumo ao primeiro morro, uma íngreme ladeira, mais parecendo um carreador, da largura do carro, com cascalhos e seixos ali jogados se misturando à terra vermelha, que de tanta umidade pegava uma cor avinhada.
As correntes presas aos pneus ajudavam o veiculo ir ganhando terreno, centímetro a centímetro, enquanto as crianças conversavam sobre alguma coisa muito importante e sua mãe e avó na cabine olhavam para o topo do morro que já subiam havia mais de duas décadas.
A cada patinada ou pedra que vencia, era como se ela soltasse um suspiro de alívio, mas na verdade era o motorista que procurava dar um giro a mais, para lhe dar um fôlego. Essa, pelo menos, era a sensação, e balançando à beira da encosta, como um paquiderme preguiçoso, atingiu o alto do morro e ganhou a estrada principal, que levaria à cidade.
A grota que se avistava dali, com a casa ainda expelindo a fumaça do café-da-manhã pela chaminé do fogão a lenha, os animais em torno dela era um quadro reconfortante cada um deles naquele carro.
Já na estrada, o carro ainda teria que subir até o alto e então começar a descer, para subir e descer mais três ou quatro vezes até a cidade. Duas léguas. Pouco menos de uma hora.
No caminho o vizinho com a mulher iam pela beira da estrada, com uma criança caminhando ao seu lado, de mãos dadas e outra de colo, coberta por uma manta clara de lã.
Parou ao lado deles. A mulher com a criança entrou na cabine. A vovó sentou-se no colo da filha e a carona acomodou-se com a criança junto a porta. O marido se acomodou na caçamba com as crianças. Muitos bons dias e sorrisos de boas vindas.
Neste ponto a caminhonete era uma profusão de cores e alegrias, ainda que contidas em discretos sorrisos e comentários tão discretos, que eram mais guturais.
Na segunda subida, apesar de estrada vicinal, ela se estreitava demais, suficiente, quando muito, para um único carro, pois uma pedra enorme não deixara muito para a estrada, que se afunilava dramaticamente neste ponto. Havia que ser do lugar para passar sem susto ou atropelo.
A caminhonete chegou rangendo e dando uns estouros no escapamento e o gás de cozinha adaptado cheirava forte. Rabeando um pouco, já que não tinha tração nas quatro rodas ela foi chegando ao ponto: era preciso avançar sem parar para ela não patinar, ao mesmo tempo que com velocidade mínima, dada a largura escassa da passagem.
O motorista, acostumado com o caminho, ia dirigindo com a atenção de sempre. Naquele dia a passagem estava complicada pela chuva que caíra abundante e o barro quase preto se acumulava desde a pedra, na metade da estrada até sua beirada, para um barranco de altura suficiente para ser chamada de Pedra do Medo.
Embicou a dianteira em primeira marcha e vagarosamente avançou até que a carroceria fosse ultrapassando este ponto. Uma pedra no chão ou uma falha do terreno fizeram com que ela desse uma pequena rabeada para a esquerda e, ato contínuo, o volante foi direcionado para o lado oposto, tentando corrigir a trajetória. Quando ela tentou retornar ao veio do caminho, a carroceria deu uma batida forte na pedra, fazendo com que ela rabeasse mais forte para o lado do morro.
Acelerando o mais que podia, o compadre Rolim, como era conhecido, tentou reintroduzir o veículo no seu caminho, mas ela não conseguia e aos poucos, com o motor em alta rotação, moveu-se com as duas rodas para o lado, colocando-a de ré para o precipício.
Tentou ainda acelerar mais um pouco e não conseguindo pisou nos freios de maneira brusca, fazendo com que a mulher com a criança no colo soltasse um grito curto e não muito alto, e seu marido imediatamente pulou da carroceria e abriu a porta do passageiro. Ainda deu uma olhada para o compadre, que não desviou os olhos do volante.
Tirou as outras duas mulheres de dentro. A caminhonete já ia patinando para trás. As crianças conseguiram pular, ajudadas pelo empregado que estava com elas. A esta altura todos gritavam para o compadre, pai e marido saltar, mas ele estava paralisado, co os olhos vidrados em algum lugar que não parecia deste mundo.
De tanto patinar ela deu meia volta e capotou uma, duas, três, quatro vezes, ganhando terreno morro abaixo, e as portas abertas como as asas de um pássaro que cai do céu desgovernadamente.
Os dois homens desceram correndo pelo caminho de mato quebrado que ela deixou e chegaram lá embaixo, admirando-se da posição em que ela ficara presa à copa de um grande ingá.
Pela inclinação do morro, chegaram à cabine com facilidade, vendo que o compadre estava preso às ferragens, tentando respirar com dificuldade e o sangue escorrendo de sua cabeça e de mais algum lugar do corpo, que não se identificava onde.
Eles abordaram a situação, sentindo a gravidade do momento.
Compadre Rolim, que era homem de poucas palavras, respirava ruidosamente, manifestando uma dor intensa:
- Está todo mundo bem – ele sussurrou, ao que o homem sinalizou que sim – e o bebezinho também? Que bom, meu Deus.. Eu não ia me perdoar.
Segurando o volante ele foi perdendo a consciência até largar as mãos e fechar os olhos.
Os dois homens retiraram os chapéus respeitosamente e fizeram sinal da cruz.

O dia seguia nublado. O sem-fim começou a cantar como que anunciando a triste notícia.

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