quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Limiar

Logo que saí do banheiro após fazer minha barba, senti o cheiro de cigarro queimando e fui até a sala.
Tinha sido recém-apagado, dava para notar ainda a fumaça se desprendendo da cinza e o cinzeiro estava quente ainda, pude senti-lo.
Fiquei intrigado. Fui até a janela da sala, abri uma fresta na cortina e o jardim estava vazio. Aliás, não sei por que fiz este movimento; a porta não tinha sido aberta. Não ouvi barulho nenhum.
A cozinha, pensei. Também vazia, mas outra coisa me intrigou: tinha água no fogo e o coador estava com o pó e sobre a garrafa. A porta estava destrancada. Não me lembrei, nem me lembro ainda se a tranquei antes de ir dormir.
O dia começara estranho. Eu sentia algo estranho. Eu, no entanto, era o mesmo de sempre. Sem estranhezas.
Fui notar que as ruas estavam mais vazias somente quando cheguei à firma, ou me atentei para isto quando, na portaria, o porteiro não estava. Tinha deixado um bilhete: volto já.
Apesar de eu chegar sempre cedo, antes de todos, menos do porteiro, senti como se fosse um feriado e ninguém fosse aparecer.
O departamento tinha as suas onze mesas vazias e somente eu, tentando ligar o computador e me irritei um pouco quando ele não me obedeceu. Falta de energia não era. As luzes estavam acesas.
Pensei ter ouvido um barulho de descarga no banheiro do fundo da nossa sala e quando me virei a porta estava aberta. O som que ouvi era de uma descarga no banheiro de porta fechada e agora eu olhava a porta aberta.
Ninguém poderia ter saído de lá sem que eu visse e minha reação foi ir verificar. O banheiro estava com cheiro de que havia sido ocupado havia pouco, instantes talvez. A caixa da descarga estava enchendo.
Ao voltar para minha mesa, percebo a porta da sala se fechando, como se alguém tivesse acabado de sair. Chamei, sem resposta. Fui até ela e a abri: corredor vazio. Estava, definitivamente, ficando cansativo. Estavam querendo brincar comigo.
Lembrei-me da copeira. Ela chegava antes para termos o café quentinho logo que chegássemos e estaria no refeitório.
Estava lá a garrafa com o café quentinho, sobre a pia. No fogão o bule e a caneca ainda quentes e o aroma forte e agradável envolvendo o ambiente. Ela devia estar levando café para as salas.
Na volta para o meu lugar, vi a portaria ainda vazia e o bilhete sobre o balcão.
Pensei ter ouvido passos de alguém subindo as escadas para o pavimento superior e calculei que fosse a copeira. Ainda não querendo dar o braço a torcer, pensei em não correr até lá para ver quem era, mas a curiosidade foi maior.
Ao subir pelas escadas eu ouvi passos no fim do corredor acima de mim e acelerei. Pisando no último degrau a porta lá do fundo, onde o corredor terminava se fechou suavemente. Quando me aproximei, pensei ter ouvido vozes, mas ao abri-la o que vi foi um lugar vazio.
Entretanto, a sensação era a de que soubessem que eu estava chegando e foram se esconder, fazendo graça. Não sei de que, a graça, mas foi assim que senti.
No canto direto desta ficava o banheiro e claro que o verifiquei, constatando o mesmo que tudo até então: vazio.
Ao retornar, olhei o computador desligado e nem tentei nada para reanima-lo. Senti um cansaço súbito, uma preguiça enorme e vontade de me deitar.
Pensei em lavar o rosto com água fria.
A água da torneira parecia bastante agradável e mergulhei nas minhas próprias mãos, deixando com que o frescor me reanimasse, mas ao me levantar e olhar o espelho soltei um grito de pavor.
Não vi nada nem ninguém, como se olhasse por uma janela e o pânico me dominou, pois fiquei sem saber se ainda não tinha chegado ou se já tinha saído.

Um comentário :

  1. Muito bacana! Bem Borgeano e bem vc, quem sabe não era o próprio Borges numa visita matinal ? Abraços e sucesso!

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