quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Simples assim...

Eu jurei para ela que não demoraria muito.
Era o tempo de sair, ir até lá e voltar no ato.
Nem sei porque escrevo sobre uma futilidade destas, mas enfim. Quando o impulso vem, eu me rendo.
Saí a pé, pois não compensava ir de carro por alguns quarteirões somente e ficar ali dentro, cozinhando e assistindo um trânsito congelado não é dos meus programas favoritos.
O dia estava quente, com o ar seco como de um deserto – quem já foi a um deserto? – e o suor grudava a roupa no corpo.
O ar muito quente parecia entrar rasgando a garganta. Os pulmões pareciam aceita-lo por falta de opção somente.
Quando fui chegando no cruzamento com a avenida, perto de casa, notei que aquele senhor novamente.
Encurvado. Aliás, muito encurvado – devia ter um grave problema de coluna, pois parecia que a qualquer momento cairia de cara no chão – e a mão direita segurando a anca e com a outra fazia movimentos circulares para a frente, como se tentasse nadar.
Sempre estava ali na esquina e parecia que algo o atraía para a grande árvore que ali residia há algumas décadas. Ficava parado em frente ao caule, com o corpo encurvado daquele jeito, esperando ou procurando sabe o quê.
Mais de uma vez eu vira o velhinho ali e pensara sobre aquilo. Até pensei em perguntar, mas sabe como é, a gente só pensa, pensa e pensa. Fazer mesmo...
Bem, ali estava eu, indo rapidamente resolver uma pendência para voltar logo. Ela estava esperando.
Mas o velhinho estava parado de frente para a arvore, olhando para algum lugar que podia ser para baixo, ou, no máximo, naquela altura em que sua cabeça conseguia se erguer.
E percebi que sempre eu o vira de dentro do carro, de passagem, com o sinal para esverdear no semáforo, buzinas atrás e toda a gente estressada a te pressionar.
Deu uma vontade enorme de me aproximar dele. Mais vontade de conversar.
Em meio ao barulho que aquela esquina fabricava e envolvia todo e qualquer som, cheguei bem próximo e precisei me curvar para falar com ele.
Ele virou os olhos primeiro, na minha direção e em seguida deu um pequeno giro com o corpo para o meu lado. Não respondeu logo à minha oferta de ajuda. Voltou a se virar para o tronco.
- A forquilha – ele falou e me custou um pouco a entender.
Como devo ter feito uma cara de bobo, ele apontou para cima com a mão esquerda, mantendo a curvatura imposta pela sua condição. Olhei para cima sem saber o que olhar ou procurar: quantas forquilhas deveriam existir naquela arvore?
- Eu me sentava nela há oitenta anos atrás.
- Ah... sei – fiquei desarmado – faz tempo, não?
- E pra comemorar eu quero subir lá...
- Como? – e ao que indaguei, ele sorriu com certa ironia.
- Tudo bem. Você só é mais um. Quando se aproximam eu falo e todo mundo vai embora. Antes de eu morrer alguém me ajuda.
- Mas é muito alto! Como acha que vai conseguir?
- Não sei. Por isto estou aqui esperando. Alguém vai me dizer.
Olhei o relógio. Já era para eu estar quase a ponto de retornar.
- Boa sorte! – foi o que consegui dizer, achando graça, enquanto que ele voltou à posição original, virado para o tronco.
Fiquei com isto na cabeça. Não sei porque, uma coisa tola como esta, um capricho de um homem velho, um disparate.
A coisa consumiu meu resto de dia.
Quanto ao compromisso, deu tempo.
Na volta eu tirei uma foto e publiquei, comentando a vontade do vovô, no meu perfil da rede.
Dois dias depois, saindo de carro para o trabalho e pensando no dia corrido que teria pela frente, quase provoquei um acidente ao ver o vovô sentado a uns três, quatro metros do chão, olhando tudo embaixo com um sorriso largo e contagiante, sentado na forquilha da árvore.
Para minha sorte o sinal fechou e tive uns dois minutos para curtir aquela feição de alegria e realização.
Próximo à arvore havia um carro da companhia de energia elétrica, daqueles que têm uma plataforma elevatória e que serve para levar os técnicos aos postes e fios mais altos.
Ele, o vovô, estava amarrado com aqueles cintos de segurança à arvore e estava tão bem e seguro que se inclinava para frente e para trás para olhar tudo ou para fazer uma graça, não sei.
Subi no meio fio e deixei o transito prosseguir. Fiquei ali por mais um tempo até que descessem o homem da árvore.
Quando chegou ao chão, arqueado daquele jeito, pegou as mãos dos dois homens que o elevaram e as segurou balançado-as emocionado. Achei até que estivesse chorando.
Retomei meu caminho em meio ao calor a às buzinas.


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