sábado, 2 de julho de 2016

Memória de menino

A gente quando é criança guarda coisas que assumem imagens, formas, sons que ficam, às vezes, impregnados para sempre, recorrendo aqui e ali sem maiores motivos, mas com intensidade de coisa real e acontecida.
Ainda garoto, minha avó me contava uma históriaeu sempre pedia que ela me contasse de novode um irmão que ela perdera ainda criança, vítima de tétano.
O garoto estava doente fazia dias, cada vez pior, apenas aguardando que os anjinhos do céu lhe viessem buscar e a tristeza rondava a casa do sítio onde moravam.
Faço conta que até a fumaça do fogão a lenha saía da chaminé com má vontade. Um garoto de dez anos, com a idade que eu próprio tinha quando ouvi pela primeira vez este caso, com uma doença que o levaria à morte, faria tudo em volta ficar triste. Imagino a bisa chorando, inconformada com a sina de perder um filho tão jovem, o nono amuado, consolando os outros filhos, acolhendo o apoio dos vizinhos de bom grado.
Uma doença severa e letal, que acomete sua vítima com dores terríveis causadas por contrações musculares involuntárias, às vezes tão fortes que fazem fraturar ossos do corpo somente por sua força.
Ela contava que ele adorava melancia, e num dos poucos momentos em que conseguira falar, revelara a mãe este último desejo.
Sabendo disto, um tio e um irmão mais velho selaram as montarias e saíram em busca da fruta, enquanto quem ficara, rezava para que o pequeno conseguisse ter seu desejo realizado.
Dois dias se passaram com a febre e as crises de dor torturando o menino até que finalmente eles retornaram com a fruta no embornal, após vasculharem todas as roças da região, já que não era o tempo dela ainda.
Toda vez que me contava, ela se emocionava com o retorno dos homens com a fruta, como se fossem heróis. Os que realizaram o ultimo desejo, algo assim.
Mais que depressa a nona pegou a pequena melancia, uma pequena e desbotada fruta temporã, que por obra de Deus estava lá num canto da grota esperando ser encontrada, partiu-a e colocou seus pedaços num pano limpo e a espremeu, fazendo um suco.
Com paciência de mãe, a nona foi dando o suco às colheradas ao garoto enfermo que, apesar da gravidade da doença, dos espasmos terríveis, tomou o suficiente para saciar a vontade e acalmar seu espírito.
As dores e o sofrimento o deixaram no fim da tarde. Morreu em paz, sem vontade de melancia.

Um comentário :