quinta-feira, 7 de julho de 2016

Promessa

Senti o ar sufocante. Cheiro de gente suada, amanhecida. Cheiro de tensão e medo no ar. Eu respirava com medo. O medo.
Me conduziam pelos braços. Eu não opunha resistência, mas ainda assim me apertavam, não a ponto de doer. Só para eu saber que estava sendo conduzido. Que não me esquecesse.
Fui levado escada acima. As pessoas se exprimiam e, à medida em que eu ia passando, me olhavam nos olhos. Cobrando, condoendo, desprezando.
O terror foi se apossando de mim e eu não queira chegar até onde me conduziam. Minhas pernas foram enfraquecendo, ao mesmo tempo que as mãos que me sustentavam, empurravam meu corpo adiante.
O murmúrio que era alto quando cheguei se transformara em silêncio. Ouvia o som da respiração, hálitos de boca dormida, de boca amanhecida, de cigarro, de cachaça.
Ela jazia sobre a cama de casal e o sangue empapava os lençóis.
Entrei em pânico. Apesar de eu ter certeza de que aquilo nada tinha a ver comigo, comecei a me perguntar o que eu teria feito.
Tudo claro. Ela estava morta sobre a cama. Os olhos entreabertos, a boca discretamente aberta e um fio de saliva que escorreu pelo canto da boca, se transformara num fio branco.
Gritei. Berrei. Urrei. Perguntando aos brados de desespero o que tinha acontecido e ela da cama me olhava com olhar de censura.
E quanto mais eu gritava, mais ela me fitava e perguntava porque eu tinha feito aquilo, como tinha sido capaz daquilo.
Agora, ajoelhado ao lado do seu corpo eu lhe dizia que nada tinha feito, que de jeito nenhum, que eu a amava, que jamais eu sequer tinha pensado em erguer um dedo; nunca; impossível.
Acordei suado e o quarto me sufocava.
A imagem daquele corpo tão belo e cheio de vida, jazendo na cama do hotel não me deixaria jamais.

 Quando Oscar bateu à porta e eu abri, me deparei com um homem destruído. Ele não precisou falar nada para que eu visse a destruição. Segurando o velho chapéu de feltro com as duas mãos, olhou-me de soslaio e cabisbaixo dirigiu-se à poltrona da sala e deixou-se desabar.
Fiquei esperando; senti que era grave, mas não fazia ideia do que poderia ser.
Ele era um homem enorme, falante, loiro e de olhos azuis, com um sotaque carregado. Delegado Oscar. Assumira o cargo muito antes da minha chegada.
Quando, de voz embargada, me disse que eu teria de ir com ele para fazer um exame cadavérico eu me sentei no sofá. Minhas pernas amoleceram.
- É doutorzinho, hoje é o cadáver da minha princesa que precisa do seu exame. – tinha os olhos vermelhos e as pálpebras inchadas. Suas mãos tremiam.
A exclamação que soltei me assustou e quase não consegui controlar os meus tremores. Tive uma violenta náusea e meus intestinos deram nós que me queimavam a barriga.
Naquele exato momento eu tive noção do quanto longe de tudo e de todos eu tinha ido parar. Até então me orgulhava de ser o único médico da cidade, querido por todos, ainda que com alguma desconfiança.
O pequeno hotel de dois andares, feito em madeira e pintado com uma cor entre marrom e vermelho, destacava-se na paisagem da pequena cidade. Pertencia a Oscar e seus quatro filhos tocavam o negócio.
Duas filhas e dois rapazes, sendo Marcia a mais nova.
Marcia tivera um casamento conturbado, pois seu marido era doente de ciúmes.
Oscar, que era um sujeito de pavio curto, sem muita paciência para conversa, passara por um purgatório, ao se conter para não quebrar uns ossos do genro, quando este maltratava sua princesa.
Até que um dia, em meio a uma discussão, Marcia levou um soco no rosto, momentos antes do seu pai cruzar a porta da entrada do hotel. Ao se deparar com a filha chorando baixinho, caída ao lado de uma das mesas do refeitório, ele foi até ela e a pegou ternamente pelos braços, sentou-a numa das cadeiras e lhe disse baixinho o que ia acontecer.
Pegou o rapaz pelo colarinho e o puxou até a porta de entrada, uma porta comum, que tinha uma escada de três degraus até o nível da rua, que era de terra e não tinha calçada. Foi atirado como num desenho animado e voou até o chão de terra vermelha, levantando uma nuvem de pó vermelho quando bateu no chão.
A cidade acompanhou à distância e em silêncio, constatando algo que muitos já se surpreendiam de ainda não ter acontecido.
Ele ficou ali, atordoado, enquanto alguns amigos de bar se aproximavam, para tentar coloca-lo em pé e leva-lo dali. Poucos minutos depois voaram pelo mesmo trajeto duas malas que se abriram ao bater no chão.
Nestor foi embora da cidade no mesmo dia, sem deixar rastro.
Quando cheguei no lugar e assumi o posto no pequeno hospital, esta história já não rendia comentários e a ouvi numa tarde de sábado em que fora convidado a participar de uma mesa de baralho, o que acabou se tornando um hábito e quebrou o gelo com os locais. Ouvi do próprio Oscar.
De início eu corei como um peru, porque sempre que podia eu me aproximava discretamente dela, já que parecia ter recíproca na minha atitude.
Num baile ela me ensinou a dançar as danças típicas do sul e no final da noite nos despedimos formalmente, já que os irmãos não desgrudavam, mas tudo na maior cordialidade.
Ainda levou algumas semanas para eu começar a me aproximar novamente. Ela ajudava a servir, cozinhava, arrumava os quartos, dava ordem aos empregados.
Eu começara a sonhar com ela, de olhos abertos.
Tinha a pele morena e firme, seios arredondados e empinados, cintura fina e coxas roliças, bem torneadas. Não havia nada igual naquele fim de mundo. Uma beleza típica, genuína. Um sorriso cativante, sensual. A voz baixa e meio rouca. Olhos pretos.
Eu acordava suado e as noites pareciam intermináveis.
Numa ocasião, pouco depois da meia noite, Oscar me buscou em casa para atender um ferido no hospital, resultado de uma briga de faca na zona de meretrício, que ficava nos arredores da cidade, numa distancia em que não cansasse muito a freguesia para chegar lá, mas suficientemente distante para desestimular qualquer esposa cismada que, por ventura, quisesse dar algum flagrante.
Saí do hospital perto das duas horas da madrugada, morto de fome e Oscar parece ter adivinhado. Parou diante do hotel e me convidou para entrar, dizendo que tinha pão feito em casa e carne assada com batatas.
Entramos na cozinha e o fogão de lenha ainda guardava algum calor.
Quando começamos a comer ela entrou no refeitório. O pai se surpreendeu, mas ela disse que tinha ouvido barulho e só viera saber que tinha chegado.
Estava linda, com os cabelos longos algo desgrenhados, mas que não conseguiam ficar desarrumados por muito tempo porque eram muito lisos e logo se alinhavam, trajava uma calça de algodão e uma camiseta folgada. Estava sem sutiã, e seus mamilos brincavam de aparecer sob o tecido delicado.
Mal consegui terminar meu lanche e me despedi, tomando o rumo da rua. Ela me acompanhou para trancar a porta e pude sentir aquele seu cheiro de pele adocicado, misturado com uma lavanda qualquer e não consegui falar nada além de um boa noite. Ela me reteve por uns instantes, na pequena antessala que separava a grande sala de jantar da porta.
Eu não tive muito tempo. Ela me segurou o antebraço e ficando na ponta dos pés me beijou na boca suavemente, seus lábios úmidos e carnosos não me dando tempo de pensar, roubando minha respiração, tirando meus pés do chão. Minha cabeça suspensa em alguma nuvem distante e meu coração batendo sem compasso, parecendo pular do peito.
Quando ela me soltou, abri os olhos e vi um sorriso que até então desconhecia. O desejo estampado na pele. Eu não sabia o que fazer. Ela me virou na direção da rua me desejando boa-noite como uma boa menina.
Fui para casa tropeçando na felicidade e como que respirando pétalas de flores coloridas a iluminarem a madrugada.
Demorou para que o dia chegasse. Mantínhamos tudo em segredo. Nossos flertes, trocas de olhar, suspiros. Quando finalmente tivemos oportunidade, mal tivemos tempo de falar. Na verdade fomos falar alguma coisa após nosso cansaço não permitir mais que isso: falar. Eu tinha me encontrado. Estava no meu oásis. A caminhada havia cessado, a busca chegara ao fim.
Naquele domingo a cidade estava toda reunida em torno da igreja, festejando São Sebastião, padroeiro da cidade.
Fui para casa esperando que ninguém tivesse visto e ela chegou instantes depois.
Combinamos de voltar também separados. Ela saiu primeiro. Dei alguns minutos e saí também. Me infiltrei na multidão procurando por ela e a vi ao lado do pai, pálida e trêmula. Tivessem descoberto alguma coisa eu já a pediria em casamento ali mesmo. Eu estava feliz e não conseguia esconder, enquanto ela me olhava aterrorizada, até que percebi que me sinalizava para olhar no rumo de uma porta lateral da igreja, e lá estava um desconhecido, impassível e me encarando. Olhava com ódio para mim. Deduzi que só podia ser o tal Nestor. Cheio de confiança, fui em direção a ela e ao pai, ao que ela veio ao meu encontro e me suplicou para ficar quieto, na minha, pois eu não fazia ideia de quem era seu ex-marido. Estava de fato apavorada e não fui sensível para perceber.
Ele a viu saindo de minha casa e a interpelou sem dizer palavra. Só obstruiu sua passagem e depois disso, deu-lhe as costas e voltou para a festa.
Naquela noite foi assassinada.

Agora aquele homem destruído pela tristeza e pela culpa de não ter conseguido proteger a filha me olhava com desespero. Tinha o sangue da vingança nas mãos, Nestor também estava morto a poucos metros do hotel. Mas seu desespero maior era o de saber que a vingança de nada servia. Marcia não voltaria mais.
A culpa se apossou de mim. Eu era o responsável pela morte dela e esperei do fundo da minha alma que agora ele me matasse também. Tive certeza, pois o cano de seu revolver ainda fumegava, e eu podia sentir. E seu olhar misturava ódio com tristeza.
Fiquei sentado, esperando.
Ao cabo de alguns minutos ele se levantou e senti um frio na espinha, mas o que ouvi foi:
- Sinto muito fazer o doutorzinho passar por isso. Pensei que fosse virar o meu genro. Eu via vocês dois apaixonadinhos, doutor e só me dava alegria. Mas essa vida é malvada, doutor... Vamos lá trabalhar, vamos.

Colocou o chapéu e saiu com passo firme, esperando que o seguisse.

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