sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quase ida


Era uma noite de abril de céu limpo, com um frescor insuspeito, próprio das noites que te convidam a não voltar cedo para casa, daquelas em que jogar conversa fora e tomar uma cerveja com os amigos era quase que imperativo.
Apesar do dia de trabalho na manhã seguinte que começaria cedo, como de costume, não seria um empecilho à diversão. Nunca fora e não seria então.
Separado, morando com os pais, num retorno quase obrigatório, pois não tinha para onde ir, a cabeça um tanto avoada, nada de reserva financeira, filhos pequenos que, no máximo choravam com a sua ausência na casa materna, também não tornariam aqueles dias de diversão merecida em algo enfadonho e monótono.
Assim funcionava o cérebro dele. E assim seria.
Mas era sábado, e se durante a semana a noite era criança, que diria num sábado...
Logo nos primeiros goles notou que não estava descendo redondo. Algo que não combinava. Um sentimento de estranheza num lugar mais que conhecido: o boteco de todo dia. Seus amigos de bebida pareciam meio estranhos, com vozes bizarras, causando-lhe como que um ruído incomodo a lhe causar desconforto.
Não conseguia acreditar que em pleno sábado poderia estar cansado e quisesse cama. Mas era assim que parecia, pois não conseguiu beber mais que dois ou três goles.
Quando se despediu já saindo, alguém protestara sem muita veemência que era cedo.
Entrou em casa e seus pais já iam se retirando para dormir. Pietro, que trabalhava em São Paulo, chegara havia pouco, e também sempre passava na casa dos pais para comer, antes de ir para a sua.
Neste dia pediu ao irmão que o ajudasse com sua calculadora nova. Queria aprender cálculos estatísticos e ninguém melhor que seu irmão. Apos o jantar pegaram o aparelho novo e espetacular, uma HP 12C e ficaram um bom tempo explorando e aprendendo com o manual.
Sentiu um aperto no peito. Como se uma mão enorme o estivesse apertando seu coração de uma forma que começou a lhe faltar o ar. Seguiu-se uma dor no mesmo local.
Apavorou-se. Nunca sentira nada igual. Nunca tivera problemas de saúde. Vinte e oito anos, havia quatro que se formara médico e agora sentia uma dor tal que o fez lembrar-se de uma figura num dos tantos livros que estudara, de um homem apoiando-se numa parede com a mão esquerda, a direita levada ao peito, e uma expressão de dor inesquecível. Sempre o admirara a perfeição com que o artista compusera a gravura. Anatomia de Netter. Dor precordial do infarto agudo do miocárdio.
E ali, na cozinha da casa de sua mãe, estava ele com uma dor que o fizera lembrar de imediato aquela figura. Não foi difícil, pois ela o acompanhava sempre, viva nos seus pensamentos de socorrista, sempre alerta para não deixar passar um diagnóstico tão fácil de se enxergar, mas não menos fácil de se não diagnosticar a tempo.
Pietro, seu irmão se apavorou. Foi orientado a ligar para a o serviço de ambulância.
Longos dez ou quinze minutos se passaram. E a dor ali, acompanhada de uma sensação de que lhe fosse o coração sair pela boca afora. Náuseas e tonturas.
Como moravam numa sobreloja, ainda foi necessário descer vários lances de escada.
Quando a ambulância chegou, o motorista não acreditava que era o “doutorzinho” que o acompanhava nas remoções de pacientes graves para o Hospital das Clínicas em São Paulo.
Saiu em disparada para a Santa Casa, lugar onde ele trabalhava e onde seria atendido.
Sentia-se desfalecer em alguns momentos. Deitado na maca do veiculo, as náuseas pioravam, mas não conseguia se sentar. Pietro com os olhos colados nele, como se esperasse sua morte a qualquer instante.
Chegaram ao pronto socorro e foi levado rapidamente para a sala de emergências.
Denis, seu colega de plantão também apavorou-se, pois era pediatra e pouco poderia fazer. Assim mesmo tentou fazer um  eletrocardiograma, mas o aparelho estava trancado em algum lugar inacessível, já que as chaves estavam na clausura com as freiras.
Já era quase meia noite quando chegaram ao outro hospital da cidade e foi levado para a  a emergência de pronto.
Enquanto rodavam o eletrocardiograma, o cardiologista, que morava ao lado do hospital foi acionado e em poucos minutos estava ao seu lado, segurando-lhe a mão.
- Eu não quero morrer...
- Você não vai morrer, não, meu caro!
Enquanto ouvia, via as luminárias do teto irem passando no seu campo de visão num ritmo que o fez se lembrar de quando viajava de carro com os pais e, com os olhos direcionados para o céu, via aquela sequencia de luzes cruzarem seu olhar como um caleidoscópio.
Então tudo apagou e virou silêncio e escuridão. Escuridão e silêncio. Mas nem um, nem outro eram opressores. Não sentiu medo, ansiedade, angústia.
Pelo contrario, tudo parecia lhe envolver de uma forma acolhedora, como jamais se sentira acolhido. Algo como uma redenção.
Sentiu-se leve, gozando de uma paz e harmonia até então desconhecidas.
Finalmente sua cabeça não tinha barulhos e sua ideias e pensamentos não lhe ferviam os miolos, nem lhe atormentava sua alma.
Era um estado redentor, de sublimação.
Sentiu que estava deitado, sem estar, pois, de fato, parecia não possuir corpo e uma tênue luz azulada o cercava. Parecia vir de trás e mais de baixo, mas pouco importava.
Registrou também duas presenças. Ambas donas de uma calma jamais vista e pareciam lhe sorrir, a despeito de não lhes ter visto suas feições.
Tomou o ar profundamente – parecem terem lhe orientado a que fizesse – uma, duas vezes e subitamente foi surpreendido pelos sons dos monitores.
Abriu os olhos e viu que estava na UTI. O cardiologista estava ao seu lado:
- Eu não te disse que você não ia morrer? – e sorriu revelando um alívio sincero.
Ficou ali por um longo tempo, olhando o teto, os aparelhos na cabeceira do seu leito, sem saber o que sentia realmente. O que tinha sido aquela experiência? Alucinação? Delírio?
Fora uma sensação de paz tão plena, tão profunda, tão acalentadora, que deu-lhe até uma vontade de voltar para lá.

Mas não dependia dele, e isto ele sabia. Sempre soube.

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