domingo, 26 de março de 2017

Saudades de minha terra


Saudade de um tempo em que a vida corria fácil, numa velocidade indefinida, com o cheiro gostoso do avental da vó, o cheiro do fumo nos dedos do vô, que eu sentia quando me acarinhavam, contando-me histórias incríveis de peixes que falavam com outros bichos. de quando brincava com a minha irmãzinha no quintal que parecia enorme, cheio de segredos por baixo das pedras e por trás dos pés de couve e alface que cresciam alegres e viçosos, parecendo retribuir, assim, à luz do sol e à água que os regava.
A vó dizia que tudo que crescia da terra deveria ser regado com carinho e amor, como que fazendo um agrado com o regador. Adorava molhar tudo, inclusive ela, a avó, que ralhava meio que brava, meio que rindo. Saudades do Teli, o cãozinho peludo e gorducho que vivia deitado à saída da cozinha, bem na sombra do rancho onde a vó lavava as roupas. Que eu me lembre, ele já devia ser bem velhinho, de olhos esbranquiçados, o latido fraco, como que pedisse desculpas por latir.
Um dia meu pai apareceu com um cachorro que encontrara na rodoviária, ao chegar da capital, amarrado numa cordinha. Até ali, ele - o cão - comportara-se muito bem. Apreensiva, minha vó capitulou e deu comida ao perdido, enquanto minha mãe ralhava com a adoção intempestiva. Meu vô ria num canto - não sei se da cara de desapontamento do meu pai levando bronca, ou  do cachorro, que devorou toda a  comida da bacia  num minuto.
Saudade dos domingos em que meu velho nos pegava, minha irmãzinha e eu, e nos levava para passear de bicicleta. Ela ia no banquinho preso ao quadro, e eu na garupa. Chacoalhava muito, mas o corpo parecia de borracha. Quando não, alugava um cavalo e lá ia puxando a rédea, e nós dois felizes da vida, acomodados na cela. Acho que ele andava horas em pleno sol da manhã. Saíamos do Largo do Rosário, passando pelo lado da igreja, rumo ao cemitério, contando histórias e fazendo graça. Sempre fazia tantas. E ríamos de rachar. Como era engraçado.
Uma vez nos apeou e nos deixou sentadinhos numa pedra, na beira da estrada de terra. Subiu no alazão enorme, fez pose e saiu em disparada, sumindo na curva e nos deixando boquiabertos. Trocamos olhares, não acreditando no que víamos. Eu acabara de descobrir um cowboy em casa, como os heróis do cinema e da televisão. Passado um tempo, ainda boquiabertos e mudos, vimos o tal alazão retornando só, num passo meio indeciso entre o trote e o andar, olhando para os lados, bufando de vez em quando, e a sela pendurada na barriga do animal. E antes que começássemos a chorar, vítimas de abandono, lá veio ele, todo desengonçado, sujo daquela poeira fina que se deposita sobre a terra, quando ficam uns dias sem chover. Assim que nos viu, começou a fazer micagens, como que a procurar o cavalo, implorando para que ele retornasse. Deve ter ficado todo doído, mas para nós foi diversão pura.
Saudade da garapa que sempre tomávamos ao retornar dos passeios, ali na esquina do largo com a Rua Direita. O cheiro da cana, o proprietário alto como uma árvore, debruçado no balcão, e aquela hélice de madeira afixada na parede. Ela me fascinava, e o fez por muitos anos, afinal, eu me perguntava como ela tinha ido parar ali, onde estava o avião a que pertencia, como ele iria voar de novo, onde ele estava. Tantas coisas… Tantas perguntas eu me fazia, e já me esqueci das respostas, se é que houve. Tantas coisas que me adocicavam os dias de ternura e mansidão: os cheiros, as cores, os barulhos, as cantigas, a novela que ouviam no rádio, as roseiras plantadas no jardim, os antúrios, as carroças de aluguel, as charretes, o apito do trem na estação.

Eu não quero ficar triste com a saudade. Eu quero te lembrar com meu coração batendo alegre e grato por ter vivido você num tempo tão feliz, como qualquer infância pode criar, com tanta intensidade, como qualquer coração pode sentir, Atibaia querida.