sábado, 8 de abril de 2017

Aurora e a ladeira

Quando parou na esquina, colocou as sacolas no chão e mirou o alto da ladeira, colocando as mãos na cintura, numa atitude de quem estuda o desafio. Já fora calçada com paralelepípedos, os quais hoje jaziam abaixo do asfalto fervente, pois o sol das onze ia a pino, devido ao horário de verão. A rua fazia esquina com a Avenida Sumaré e era inclinada ao ponto de as calçadas serem quase que uma sucessão de degraus.
Quando Aurora era uma criança e brincava no Córrego Água Branca, que hoje dava lugar a avenida, e onde havia a rua por onde iniciava a subida, ficava uma ravina de mato alto, com um caminho no meio do mato que descia até a beira do regato. Ela assistia os meninos pescarem lambaris até ficarem com seus samburás lotados, subiam satisfeitos a trilha íngreme de volta para casa.
Aurora tinha uma sombrinha, e por estar com as mãos ocupadas com as sacolas, colocou-a dentro de uma delas e resolveu encarar a subida, tendo por proteção somente um lenço atado à cabeça e a malha de linha que cobria as costas e os braços.
Ofegante, chegou ao décimo degrau e colocou as sacolas no chão. Respiração arfante e com um notável rubor facial, ajeitou o lenço e levantou novamente os pesos, um em cada mão. Agora, por uns dez metros, seria somente uma calçada inclinada, sem degraus para se apoiar. Ela bufou, lamentou em pensamento seu peso exagerado, que a filha e o genro tanto lhe cobravam, sem falar no médico e no neto. As pernas inchadas eram o de menos. Como o médico mesmo havia falado, andar faz bem. Está certo que não precisava ser esta ladeira, pensou, contudo, ganhava bem umas três quadras e no fim iria subir uma outra ladeira também, mais suave, mas ladeira. No fim, dava no mesmo.
Alcançou a nova leva de degraus e nestes havia, junto à mureta de uma casa, uma saliência que saía dele, para abrigar o registro de água e que servi de banco e sem relutar, ali se sentou para esperar a falta de ar amainar. O zumbido que lhe fazia companhia há tantos anos, com a subida ficava mais alto, tanto que se alguém lhe dirigisse a palavra antes de sua respiração e batimentos do coração voltarem ao normal, não faria ideia do que lhe falavam.
Ajeitou o lenço, balançou os lados da blusa para se ventilar e com um deles, enxugou o suor do pescoço e atrás das orelhas. Vou chegar azeda em casa, logo pensou ao ver o tecido molhado. Um fim de verão seco e abafado, que parecia ter imobilizado as copas das árvores, as roseiras da casa do outro lado da rua, das folhas secas caídas e imóveis no chão, dando a impressão que naquele momento ali fosse um canto abandonado do universo, ou um canto dele por onde o vento não passava.
Contradizendo esse abandono, logo abaixo, na avenida, motoristas apressados, em conduções de última hora, se antecipavam às urgências e cedendo à pressa infinita, buzinando por qualquer motivo, trazendo Aurora daquele devaneio breve, claudicante pelo cansaço, mas não menos poético: o córrego, os meninos correndo com seus samburás respingando a água cheirando a peixe, o canto dos pássaros.
Como que ciente de que havia percorrido pouco mais que um terço daquele trecho mais íngreme, ficou em pé, tomando pelas mãos as sacolas pesadas e degrau a degrau voltou ao seu caminho. Pensou que o neto da Genoveva bem que podia estar ali em cima brincando no gramado em frente a sua casa, assim ele poderia ajuda-la. Nada do moleque. Àquela hora, nem moleque nem ninguém se arriscaria no sol.
Subiu lentamente os degraus restantes daquela parte e a calçada inclinada lhe pediu um pouco mais de persistência para atingir a derradeira sequência de degraus que a conduziriam até o topo. Neste ponto as panturrilhas começaram a ferver. Ela parou um tanto, não tinha relógio, mas disse a si própria que seria só mais um minutinho. Respirou com calma até sentir que o ar lhe abrandasse os batimentos no peito. O suor voltou forte, mas desta vez ela o ignorou, pois as pernas deram um tempo na dor e ela aproveitou para retomar a marcha.
Degrau a degrau, podia agora vislumbrar o fim daquela quadra mais acima, já que enxergava a casa da Francisca, que ficava duas casas antes da esquina, mas por enquanto só o telhado e a meia água da varanda, sua beira que parecia ser um braço da casa lhe acenando com um chamado: isso mesmo! Venha logo que já está chegando! “Tá bom, tô indo”- isso ela disse resfolegando.
Faltando poucos metros até essa marca de sua subida, a casa da Francisca, companheira de estripulias da infância, que também havia corrido por entre as árvores que margeavam o córrego, que também havia brincado de casinha à sua sombra, Genoveva parou e tirou a blusa, só então percebendo o quão quente estava seu corpo: foi como se recebesse uma brisa fresca naquele dia sem vento algum. Enrolou-a e a enfiou na sacola. O cansaço já lhe havia tirado um pouco de sua graça e capricho, posto que a blusa ficou socada entre legumes e verduras, o lenço gracioso na sua cabeça estava meio desenrolado, com uma ponta caída sobre um dos ombros e mechas do cabelo caíam sobre sua testa. Isto assomado ao seu rosto suado e vermelho, a respiração ruidosa e ofegante, davam-lhe um aspecto de estar à beira de um colapso.
Se mais lá embaixo havia pensado em dar um alô à sua amiga, assim que passasse por sua casa, ali, agora, estava evidente que não era uma boa hora, pois ela não queria papo com ninguém.
À medida que foi se aproximando da esquina e o terreno foi se aplainando, seus passos tornaram-se mais curtos e um pouco mais rápidos, e seu corpo mais inclinado para a frente parecia lhe dar um impulso de última hora, como se de algum lugar dentro dela surgisse um combustível extra, inesperado.
Chegou à esquina, depositou as sacolas no chão e olhou para trás. A avenida lá embaixo não estava visível e ela sorriu para si mesma: “essa ladeirinha nunca me parou”, e foi embora com disposição renovada.
Enquanto Nestor, um dos garotos daquela época em que se pescava no córrego  a observava passar, disse a si mesmo: Essa Aurora, vá entender, quase morre pra subir esse morro todo dia e não morre. Só pra não passar em frente a casa do Juvenal.

Juvenal. O ex-marido de quem ela se separara havia mais de trinta anos.

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