sábado, 22 de abril de 2017

Emoções e atropelo

Ele chegou no final da fila com suas compras ocupando parte do carrinho. Havia pegado poucos itens, mas de mais quantidade, cada um deles.
Notava-se, pelo seu andar, que o seu lado direito estava prejudicado, pois quando andava, a perna fazia um movimento para fora, ao invés de ser fletida; ele tinha que joga-la para fora, para que o pé direito não o fizesse tropeçar. Além disto, seu braço direito era meio fletido, encolhido junto ao corpo, e quando precisava de um movimento extra do carrinho, auxiliava com este membro, ainda que com a mão fechada, como a socar.
A última pessoa na fila, olhou-o de relance quando chegou para assumir a derradeira posição, e, ao sorrir como quem diz “oi”, notava-se que sua boca estava desviada para o lado esquerdo. De resto, notava-se o grande constrangimento de estar assim, pois imediatamente ao sorriso que deu, baixou os olhos disfarçando.
Quem estava no caixa era uma senhora muito tranquila, passava algumas coisas pelo caixa, e enquanto este registrava a venda, ela ia ensacando vagarosamente os produtos que a funcionária ia lhe passando, e retornava para passar outros mais, que ainda estavam no seu carrinho.
Enquanto isso, o homem parecia impaciente, ainda que discreto. Olhava para os lados, como que a procurar um caixa onde a fila estivesse menor. Parecia falar algo para si mesmo, a cada vez que procurava.
A mulher que estava à sua frente, e seria a próxima a passar pelo caixa, começou a reparar no seu jeito. Não se incomodou, pelo contrário. Aguardava pacientemente.
Quando a senhora que estava no caixa por fim pagou a conta, aquela que seria a próxima, virou-se para o senhor e deu-lhe a vez.
Ele pareceu ter levado um susto. Emitiu um som brusco, como um soluço, e sinalizou com a mão esquerda que ela fosse. Com um sorriso discreto ela encostou ternamente a mão no seu ombro e disse que, por favor, ele passasse primeiro.
Seus olhos marejaram a ponto de inundarem os olhos e fartas lágrimas escorreram pela face. Tentou disfarçar o mais que pôde. Passou as compras pelo caixa, pagou e saiu sem olhar para trás.
E o que lhe ocorrera foi que, ao chegar ao caixa, procurou um lugar para se sentar, porque suas pernas doíam demais. Após ficar internado mais de um mês, mais um mês se recuperando em casa, estava muito debilitado ainda, mas, para provar que à sua família que já estava bem, teve o maior trabalho para convence-los de que poderia ir ao supermercado só, pois daria conta do serviço. Então, percebeu ali, no fim da fila, que estava prestes a cair sentado no chão de tanta dor e moleza nas pernas.
Então surgiu aquela senhora que mais pareceu um anjo, lhe dando a vez, mas ele não queira compaixão ou dó. Refutava esta ideia, mas ficou sensibilizado ao se deparar com tanto carinho. Era só carinho, ele conseguira perceber. Tentou agradecer, mas a língua ainda estava muito enrolada para falar e explicar tudo ia demandar grande esforço. E o que conseguiu foi segurar o choro.
Ao pagar o caixa, percebeu que, além da moleza nas pernas, ainda tinha a vontade de ir ao banheiro que surgira de repente, e só faltava que aquelas pessoas o vissem sujar as calças.
Que vida complicada, pensou. Mas vai melhorar! Ah, vai!

2 comentários :

  1. ao ler o texto deu tempo de sentir q já melhorou, fiquei feliz

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  2. ao ler o texto deu tempo de sentir q já melhorou, fiquei feliz

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