domingo, 2 de abril de 2017

Minha bela flor

A hora mais gostosa do dia, esperava-a como alguém que morre de sede aguardando lhe trazerem um copo d’água, quase delirando com a sensação que na língua provoca ao inundar a boca.
Quando ouvia Lola vindo pelo corredor, já sabia que era a hora do parque, porque ela usava aquele sapato de meio salto, que fazia um barulho singular no piso de madeira – seco e agudo – e na velocidade de alguém que tem pouco a fazer antes de sair para a rua.
Essa hora tinha um significado especial, pois há algum tempo conhecera aquela que conquistara seu coração de um jeito arrebatador. Não havia outra palavra para descrever o que sentira quando ela entrou no seu campo de visão naquela manhã de uma primavera em algum lugar ali atrás, se voltasse o relógio, não seriam tantas voltas assim, talvez.
Ela chegou sem chamar a atenção de ninguém, a não ser a sua. Foi como se tivesse um tubo e na sua extremidade ela tivesse posado, sumindo todo o resto. Talvez porque sua aura o tivesse hipnotizado, seu sorriso e seus cabelos ornando com o perfume que exalava das arvores repletas de flores e os pássaros se agitavam no calor suave daquela hora. Raios de sol atravessavam as copas e atingiam em pontos cintilantes, contudo não intensos o bastante para alterar lhe a suave pele do seu rosto.
Por mais algumas vezes, muitas, quem sabe, esteve ali imaginando como poderia chegar e lhe dizer ao menos bom dia. Mas com que argumento? O que faria se ela correspondesse? O que mais falaria? Como continuaria? E, pior, se ela continuasse a conversa.
Aquele quadro não lhe saía mais do pensamento e do coração, sobressaltando-o. com que poderia se aconselhar, obter ajuda?
Numa manhã destas ele teve a certeza de que ela já sabia da sua existência, pois quando ela chegou, ele a flagrou procurando alguém, com discreta apreensão, até que, ao encontra-lo cessou a busca, abaixando os olhos e, apesar da distância, notou-lhe a pequena inflexão labial, denunciando um sorriso. Seu coração parou, a face pegou fogo e ele achou que precisasse se atirar debaixo da torneira do jardim para sua humilhante vermelhidão desaparecer.
E deve ter feito algum movimento ou alguma cara de bobo, pois ela sorriu mais intensamente e saiu atrás das crianças com quem sempre estava, não deixando de lhe mandar uma olhada de canto.
Os domingos ficaram sem graça, enfadonhos, parecendo se recusarem a terminar, ou antes, recusavam escurecer, para trazer pelo menos um alento de véspera: segunda era dia de parque.
Desistira dos domingos desde que concluíra que ela não ia à igreja. Nas missas, não encontrara a sua amada. Chegava a doer o peito de saudade, seguida de uma vontade louca de se jogar na cama e lá ficar encolhido, como um filhote se recusa a deixar seu ninho, ensimesmado de solidão e autopiedade.
Os sábados nem tanto. Ele a encontrara duas vezes, então ali brotou a esperança. A ressalva ficou por conta do menor movimento na praça. Ele ficava mais exposto, sem gente para se sentir diluído, mais difícil de ser notado, talvez.
E a timidez também encontrava no público um refugio logico, sem apelos. Nunca ele a abordaria perante tanta gente, pois não queira constrange-la. Belo estandarte. Que escamoteava o medo de um deslavado dito na cara sem piedade. Chegava a ficar sem ar ao pensar nesta cena.
Antecipava todas as situações. Negativas, desprezos, humilhações. Ainda que, no final de tanto sofrimento, pensasse naquele sorriso meigo e nas suas maneiras tão dóceis transitando pelo parque com as crianças, caindo sobre ele uma fraca luz de razão.
Assim, os sábados não tinham a felicidade que tinham os outros dias, de segunda a sexta-feira, pelo contrario, traziam uma indisfarçável ameaça de que seu sonho virasse fumaça. O sonho não era algo bem definido, mas a ameaça era real. Seu sonho, qualquer que fosse, poderia virar poeira.
Bastaria que ela se aproximasse: bom dia! -  ela diria. E ele, o que diria, perguntava-se.
Os dias passavam lentos à tarde e à noite. As manhãs, no entanto eram muito rápidas, pareciam durar um minuto. Do café ao almoço o tempo voava, como um trem rápido, que se movia numa velocidade tal que as paisagens tornavam-se uma única faixa verde desenhada na janela a qual observava, uma coisa borrada e contínua.
Percebia a velocidade atordoante do tempo quando ela se movimentava com jeito de quem está indo embora.
Sua imobilidade, contudo, parecia finalmente estar dando algum resultado: ela não vinha olhando com aquele adeus embutido nos olhos. Parecia deliberada sua atitude. Parecia aborrecida.
Mas por que isto? – indagou para si, inconformado. Só faço amá-la perdidamente, observando cada movimento seu. Já sei o que vai fazer, antes mesmo que comece; decorei sua forma de se vestir; sei que às segundas e quartas ela gosta mais de vestir cores claras e nas terças e quintas ela se veste com cores mais vivas. Às sextas ela se veste de branco. Quando chove ela não vem – aliás, ninguém vem, só eu e a Lola.
Depois deste dia ela desapareceu completamente por duas semanas.
Ele quase morreu de tédio. Fez promessas para que ela voltasse, chegando a cometer o quase desatino de negociar com Deus a possibilidade dele mesmo chegar nela e declarar seu amor, caso ela voltasse, ainda que, no meio desta negociação, ouvisse uma voz mais interior, aquela de todo dia, lhe dizer para não prometer tanto, porque jamais deveria descumprir um trato feito com ele, Deus.
Que se dane – como se batesse o martelo – dou um jeito. Mas ela tem que aparecer!
O fim de semana foi mais que aborrecido. Ao tédio habitual se juntou uma emoção diferente de querer que a semana não começasse, pois, lá no fundo sabia que ela poderia voltar. E destoando do tom de sempre, procurou coisas para se distrair dos rápidos movimentos do relógio da sala. Ainda assim o tempo voou e, de repente tudo escuro e ele na cama, pensando na segunda.
Dormiu tarde, sem conseguir parar o tempo. Sonhos lhe acordaram durante a noite. Ela chegava sorrindo docemente, fazendo sinais e mandando beijos. Em outro, com a feição de raiva estampada acintosamente, vinha até ele e ficava encarando como que a desafiar. No último, ela o afogava. Com a mão na sua cabeça, o afundava na água e sem reação ele só fazia ficar surpreso, o ar faltando, cada vez mais, e ele surpreso. Até que aquele desespero do ar que não entra de modo algum o acordou.
Ainda de madrugada, ele identificou que já ia amanhecer: o sabiá cantava espantando o escuro e pondo para dormir as criaturas da noite e para correr os sonhos maus. Quase os percebeu saindo pelo corredor, em disparada, os sonhos.
E fechou os olhos de prazer, enquanto o pássaro estourava os peitos com sua canção.
O café da manhã também foi mais aborrecido. Não tinha como recusar a saída com Lola. Não tinha como argumentar. Ela mandava na situação. O que tinha para fazer era capitular e deixar-se levar ao parque.
A noite de temor não foi em vão, descobriu logo.
Na hora de sempre, com aquele sol maravilhoso ela chegou ao centro do parque, onde as arvores se abriam num clarão quase natural, deixando um espaço aberto e gramado para o lazer. Margaridas bem cuidadas rodeavam o gramado formando como que uma coroa no seu entorno.
Ao sair da sombra, a primeira coisa que ela fez foi olhar para ele, e com um olhar decidido veio em sua direção, atravessando o espaço numa linha reta.
Ele foi perdendo o jeito, sentindo o pânico crescer como se fosse água inundando uma casa em dia de tempestade. No fim, só pôde apertar as mãos e esperar.
À medida em que foi se aproximando, um sorriso foi aparecendo em seus lábios e seu olhar parecia mais amigável. Seus passos, daquela marcha decidida como a de um soldado partindo para a luta, foi virando um andar tranquilo, de quem passeia no parque.
Chegou diante dele segurando o lenço que envolvia parte de seus cabelos, mas que, como se desprenderam com a brisa súbita, ele o balançava com charme contido.
Fitou o homem durante um tempo, ao que, perguntou:
- Como será o seu nome?
- Alfredo – respondeu Lola, com alguma frieza.
- Ele fica assim o tempo todo?
- Vinte e quatro horas por dia, minha filha. Porque?
- É que às vezes eu acho que ele conversa comigo, não sei.
- Bom, eu acho que ele conversaria muito, mesmo... Está assim faz um tempo já.
- Estranho. Ele nem mexe os olhos. Será que ele ao menos entende o que a gente fala? – neste momento ela estava frente a frente com um homem de olhar vago, sentado numa cadeira de rodas, parecendo perdido no horizonte de lugar nenhum.

- Se ao menos ela soubesse que fiz uma poesia... minha bela flor.

2 comentários :

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